Eu adiei por muito tempo falar sobre assunto, porque eu sei que alguns temas dentro do mundo do RPG são complicados de debater. Não só pela complexidade, mas também porque nem sempre a comunidade recebe isso de uma forma produtiva. Infelizmente, o meio do RPG, e considerando Dungeons and Dragons, não é exatamente o espaço mais inclusivo ainda, por mais que existam muitas pessoas incríveis que busquem mudar o cenário. Dito tudo isso, hoje eu pretendo debater sobre como algumas raças são vistas no Dungeons and Dragons e como essa visão geral afeta muitos outros pontos da cultura pop.

Para começar essa conversa, precisamos primeiro falar sobre Tolkien. Como muitos já sabem, Tolkien é considerado um dos grandes nomes, se não talvez (ainda) o maior da literatura de fantasia medieval no mundo. Ele inspirou muitos grandes autores atuais, como o próprio George R. R. Martin, criador de Game of Thrones.

Eu não estou aqui para discutir a qualidade de Tolkien e outras questões sobre a sua obra, porque isso vai levar a gente pra outra discussão muito maior. O que eu vou falar aqui é sobre a construção de raças fantásticas e como elas podem se relacionar e influenciar a nossa sociedade.

Codificação nas histórias

BRIGHT (Bright, 2017)

Primeiro, é importante entendermos o que é a codificação nas histórias, já que ela é parte importante do debate. Codificação é como se fosse um “atalho” que o autor usa, usando símbolos para passar uma mensagem rápida para o público, partindo do princípio que esse público já identifica certos símbolos por conta de suas próprias experiências.

A codificação pode ou não acontecer intencionalmente, diferente da alegoria. Por isso, codificação é algo esperado em histórias de fantasia, quase inevitável, quando há elementos que não existem no mundo real. Colocar essas codificações em uma raça fantástica, por exemplo, é um atalho para o leitor a entender mais sobre o que está sendo apresentado.

Exatamente por ser algo não necessariamente intencional, é possível que essa codificação caia em tropos preconceituosos e, nesse caso, racistas. Mesmo que Tolkien tenha afirmado algumas vezes que odeia alegoria, a codificação e o simbolismo colocados em suas raças é algo inevitável. Os leitores sempre vão enxergar coisas nas obras, os autores querendo ou não, por isso precisamos estar o mais atento possível a isso.

O legado de Tolkien

Perfil: J. R. R. Tolkien - Cheiro de Livro

Ame ou odeie, é inegável a influência de Tolkien na fantasia medieval. Não só em livros, mas em toda a cultura pop em que o gênero se encontre. Um dos aspectos mais marcantes desse “legado de Tolkien” é a ideia das raças dentro da fantasia medieval. Não são todas que seguem o modelo, como é o caso de Game of Thrones, que existem só humanos. Mas, na esmagadora maioria de universos ficcionais de fantasia medieval com mais de uma raça, é possível encontrar raças da forma que Tolkien apresenta em Senhor dos Anéis. Elfos, anões, orcs, halflings… Eles se tornaram tão comuns no imaginário do gênero que muitas vezes as pessoas nem precisam de explicações sobre o que esses seres são.

Independente de Tolkien estar ciente disso ou não quando escreveu, não dá pra negar que Senhor dos Anéis é bem pouco inclusivo. Não digo nem apenas no mérito de personagens diversos, mesmo que isso seja sim um fator. Elfos, que são considerados belos e uma “raça superior”, possuem muitos traços dentro do padrão europeu. Os orcs existem em histórias antes dos livros de Tolkien, mas foi ele que criou a imagem que temos hoje quando pensamos em um orc. De acordo com Tolkien, essa raça é uma “corrupção” da raça humana, em que toda a descrição física é uma codificação do povo mongol.

O problema com essas codificações é que elas podem perpetuar preconceitos. Orcs carregam em sua construção simbologias de minorias étnicas e isso foi perpetuado em várias outras mídias de fantasia medieval, incluindo D&D. Algumas obras de ficção tentam dar outros aspectos para esse modelo de Tolkien, como Dragon Age e The Witcher, em que elfos não são a raça mais poderosa e endeusada, e sim uma minoria social. Ainda assim, esse legado dura até hoje e está presente tanto nessas obras como em outras.

Como isso afeta o D&D*?

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*As regras mencionadas são da 5e.

A maioria das escolhas sobre quem é o seu personagem em um RPG determinam como será sua ficha e sua pontuação nas habilidades. Isso acontece de várias formas diferentes entre os sistemas de RPG, mas vamos falar especificamente de D&D.

As escolhas de raça, classe e arquétipos definem algumas das pontuações das fichas dos jogadores, isso faz com que algumas combinações sejam mais atrativas do que outras. Por exemplo, se você quer construir um bardo, você precisa ter Carisma como a habilidade mais alta. Assim, precisar mesmo você não precisa, mas para usar o seu bardo de maneira mais eficiente, é o recomendado. Então o ideal é pensar em uma raça que potencialize o seu Carisma. Meio-elfo é uma boa escolha para bardo porque, além de ganhar naturalmente 2 pontos em Carisma, ele pode colocar um ponto a mais em outras duas habilidades.

Isso significa que você não pode fazer um meio-orc bardo? Não, você pode, mas obviamente a questão dos bônus raciais afetam na escolha do jogador, principalmente aqueles mais calejado em fazer fichas.

Mas há outras formas em que esses tropos de fantasia medieval afetam as raças de D&D que me preocupa mais do que a questão da pontuação em si. E isso é a história por trás do jogo. Eu sei que, ao longo dos anos, os romances de D&D ficaram melhores em tratar das raças do mundo e deixá-las mais complexas do que “preto no branco”. Mas, ainda assim, é importante considerarmos que o maior contato dos fãs com D&D é pelo livro de regras do jogo, já que nem todos leem os romances.

Como são os Orcs de D&D?

It's not easy being green: a brief history of orcs in video games • Eurogamer.net

No livro base, o mais perto de jogar com orc que o jogador chega é jogar como meio-orc, que seria uma pessoa com pais humanos e orcs. Aqui vou botar algumas das partes do livro do jogador da 5e sobre essa raça:

Meio-orcs não são maus por natureza, mas o mal está a espreita dentro deles, independente se eles abraçam ou se rebelam contra esse lado.

Meio-orcs herdam uma tendência ao caos de seus pais orcs e não são muito inclinados ao alinhamento bom. Meio-orcs criados entre orcs e que vivem entre eles geralmente são maus.

Alinhamentos em D&D servem como uma bússola moral para guiar o seu personagem. Ele define se um personagem é Leal/Neutro/Caótico e Bom/Neutro/Mau. Então basicamente o texto do livro de regras diz que meio-orcs, por seu sangue orc, pendem para o espectro “mau” e “caótico”. Por mais que ele diga “não são por natureza maus”, se você está indicando que essa característica está a espreita, você está deixando subentendido que sim, o sangue orc determina isso no personagem. É óbvio que você pode construir seu personagem de qualquer jeito, mas é canon pelo jogo que essa é a tendência dessa raça.

Isso é problemático porque a gente tá pegando uma raça com codificação de minorias e colocando-a como “malvada”. Por mais que, talvez, em romances esse não seja o caso, esses textos do jogo é o que a maior parte do público terá acesso. Considerando a imagem já estigmatizada por Tolkien de orcs, isso reforça algo que já está no nosso imaginário popular. Sem contar que o texto faz questão de frisar que essa “maldade” viria exatamente pela herança orc.

Mas e os Drow?

Drizzt Do'Urden Returns in TIMELESS, a Dungeons and Dragons Novel by R.A. Salvatore

Ah, os drow. Uma das minhas raças favoritas de D&D, ao mesmo tempo uma que tenho comentários não tão positivos para fazer. Vamos ver um pouco do que o livro de regras fala sobre os drow:

Descendentes de uma subcategoria de elfos de pele escura, os drow foram banidos do mundo da superfície por seguir a deusa Lolth no caminho do mal e da corrupção.

Para a maioria, eles são uma raça de saqueadores adoradores de demônios que habitam nas profundezas do subterrâneo, emergindo apenas nas noites mais escuras para saquear e massacrar os habitantes da superfície. Sua sociedade é depravada e dedicada a servir Lolth, sua deusa-aranha, que sanciona assassinato e o extermínio de famílias inteiras por casas nobres que disputam posições políticas.

Então… Os elfos de pele escura são uma raça “maligna” e vista por todos como pessoas corrompidas, naturalmente “más”. Por conta disso, não só elas sofrem preconceito, mas o jogo também cria uma “justificativa” para que outras raças tenham preconceito com os drow. Ué, se drow são todos maus, não os queremos por perto, certo? Isso cria a ideia de que racismo e preconceito são coisas que podem ser lógicas e explicáveis, quando é algo que vem de um discurso de ódio.

Você pode pensar “Tá, mas e o Drizzt?”. Pra quem não está familiarizado, Drizzt é um drow do universo de D&D, protagonista de alguns romances. Ele é um drow que percebe como a sua raça faz coisas erradas e luta contra isso. E por mais que eu ame o Drizzt, ele é mostrado como uma “exceção da raça”, ele é bom “apesar de ser drow”. Além disso, nos livros vemos bem como a sociedade dos drow é matriarcal, mas isso é representado da pior forma. As mulheres da raça tratam os homens assim como machistas e misóginos tratam mulheres no nosso mundo. Então, além de tudo, a raça matriarcal do jogo é vilanizada, sendo igualada ao sistema machista e patriarcal que conhecemos.

Como lidar com raças em D&D?

A Beginner's Guide To D&D's Common Races | Geek and Sundry

Eu realmente acho que nós precisamos repensar bem como trabalhamos com diferentes raças na fantasia medieval. Começando por tratar de preconceito dentro desses universos. Se você vai falar desse assunto, você precisa ter consciência do que está fazendo. Afinal de contas, por mais que não existam elfos ou orcs no mundo, racismo é uma coisa mais do que real e sim, as mensagens na sua obra podem influenciar o público.

Quando estabelecemos que uma raça é mais “agressiva” ou “malvada”, ou quando tentamos “justificar” esse preconceito que elas sofrem, enquanto usamos uma codificação de minorias raciais nelas, nós estamos perpetuando estereótipos racistas. E mesmo que no caso dos drow exista um personagem diferente, é um entre muitos. Os romances de D&D são um pouco melhores que o livro de regras para mostrar a representação, mas ainda assim é importante lembrar que nem todo o jogador chega nos romances. Para quem pegar o livro base, a imagem que fica é que algumas raças, como orcs e drow, pendem para o lado do “mau”.

Por isso é interessante a decisão da Wizards de fazer alterações sobre essas raças, tornando-os mais complexos e tirando a ideia de que existam “raças más”. Não sabemos o quão bom será esse trabalho, mas já é algo a empresa reconhecer e se dispor a mudar.

Eu acho que cada vez mais nós precisamos revisitar a ideia de raças na fantasia medieval e debater como elas são demonstradas. Repensar como esses bônus e desvantagens raciais são apresentados, o que eles significam e em alguns casos, se eles são mesmo necessários. Precisamos mesmo estipular que “naturalmente” algumas raças são mais inteligentes que outras? Precisamos determinar por raças quem é bom ou não, e quem foge disso é “exceção”? O quanto isso realmente é interessante para a história e o jogo em si?

D&D não vai perder em nada repensando esses fatores, assim como qualquer outro sistema de RPG que esteja disposto a fazer isso. Se você acha que o universo “perde” em não haver raças que determinem quem é bom ou mau, então talvez você precise consumir mais fantasia e expandir a sua imaginação. Eu diria, inclusive, que tirar essas pré-determinações raciais pode abrir o leque de possibilidades.

Estou dizendo que não deve ter raças diferentes em RPG e na fantasia? Não, mas estou dizendo que o jeito que elas são usadas hoje é bem datado, que mudanças são necessárias e precisamos pensar na mensagem que isso tudo passa.

D&D é um dos maiores sistemas de RPG do mundo, então essas mudanças tem o potencial de atingir e influenciar muitas pessoas.

 

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, blogueira e freelancer. Determination ♡

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