Algum tempo atrás, falamos sobre como a Wizards pretendia mudar ca forma que as raças funcionavam no RPG Dungeons and Dragons, famoso D&D. Nós comentamos como isso era necessário, e como existe uma codificação em raças fantásticas baseada em estereótipos racistas quando pensamos em RPGs de fantasia medieval. Você pode ler este texto aqui.

O assunto voltou a ser comentado no Twitter quando alguns fãs trouxeram de volta um tweet de junho do designer de regras Jeremy Crawford. Nele, o fã perguntava sobre um produto de D&D que ainda ia ser anunciado pela Wizards:

No final deste ano, lançaremos um produto (ainda não anunciado) que oferece uma maneira do jogador personalizar a origem de seus personagens, incluindo a opção de alterar os bônus de habilidade por ser um elfo, um anão ou um dos muitos outros povos ​​de D&D. Esta opção enfatiza que cada pessoa no jogo é um indivíduo com recursos próprios.

Alguns fãs perceberam que, nesse comunicado, em nenhum momento era falado sobre “raças” ou “bônus raciais”, e sim “povos” (usando a palavra folk em inglês). Crawford também falou:

“Curiosidade: A palavra ‘espécie’ está em uso desde pelo menos o século 14, que é um período que o D&D geralmente emula.”

All media | Dungeons & Dragons

Algumas pessoas apontaram que “espécie” talvez não fosse o melhor termo, e eu concordo. Talvez substituir a parte de raça por “origem” ou “ancestralidade” seja uma opção melhor e mais inclusiva. Isso faz com que ser elfo ou anão não deixe os personagens com o mesmo bônus, mas não deixe a raça ser o mais determinante. Elfos podem ter origens diferentes, como o Dragon Age: Origins coloca bem na sua criação de personagem. Mudar essa categoria de criação de personagem pode tornar a experiência toda mais inclusiva e diversa.

Talvez alguns jogadores se questionem, então, qual é a necessidade de ter raças diferentes, já que os bônus e ônus raciais não seriam mais uma questão determinante. Mas RPG não é só mecânica e somar pontos, parte da graça é a interpretação do personagem, a construção de história e narrativa. Quem não quer deixar de ser humano de vez em quando?

Sem contar que, pensando em origens e ancestralidades, dá para pensar em diversas subcategorias. Algumas origens podem ser para qualquer tipo de personagem, mas pode haver aquelas que podem ser mais específicas. Por exemplo, apenas drows podem ter em sua ancestralidade “Nascido em Menzoberranzan”, que vai dar características específicas, mas drows podem escolher outras origens, que podem ser as mesmas de outras raças.

Além disso, também dá a possibilidade de criar mais dentro de D&D, sem ter algum tipo de desvantagem. Os bônus raciais acabam definindo muito o tipo de combo que os jogadores fazem. Obviamente, ninguém precisa casar a raça meio-elfo com bardo, mas a gente sabe que isso dá algumas vantagens. Agora, se trabalhamos com origens, pode haver uma de “Pirata” que vale para qualquer personagem, então o jogador pode fazer um meio-orc que não é focado em força, como acontece no sistema hoje em dia, mas sim com mais destreza, por exemplo.

D&D 5ª Edição: Escolha sua Raça: Meio-Orcs - RedeRPG

Eu sei que já existe uma parte na quinta edição de D&D de origens, mas elas não são tão determinantes quanto as raças. Talvez unir tudo como se fosse ancestralidade dê a possibilidade dos jogadores de criar mais em cima disso, sem perpetuar estereótipos raciais do nosso cotidiano em raças fantásticas.

Pode parecer bobagem se preocupar com elfos sendo mais inteligentes e meio-orcs sendo mais fortes, afinal de contas nenhum deles existem. Mas como expliquei no meu último texto sobre o assunto (link no começo desta postagem), o problema disso são as codificações dessas raças e como elas se relacionam com várias etnias do nosso mundo real.

RPG pode sim ser um espaço para trabalhar questões de preconceito e opressão, mas elas precisam ser bem trabalhadas. A existência do sistema de raças como ele é hoje dá essa sensação de que a raça de um personagem determina o que ele pode ser, algo que já foi feito no nosso mundo com várias minorias sociais. Inclusão no entretenimento nos ajuda na forma que vemos o nosso mundo, além de abraçar vários tipos de jogadores que acabam se sentindo de fora por não estarem encaixados nesse padrão.

Ainda não sabemos dizer como Dungeons and Dragons vai lidar com essas questões, mas é bom ver essa preocupação da Wizards e tantos fãs apontando o quanto isso é necessário.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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