Hoje, dia 23 de setembro, é mês da visibilidade bissexual. Eu já falei algumas vezes sobre personagens bissexuais na cultura pop e, por um tempo, evitei um pouco o assunto porque achei que já tinha falado o suficiente. Mas, considerando o estado atual do nosso país, os casos recentes de censura e tantos artistas LGBTQ+ lutando para ter seu trabalho visível, achei que valia voltar nesse assunto.

A resposta rápida da pergunta no título é: Não. Porém, não dá para ignorar o fato que de vivemos em uma sociedade que apaga pessoas bissexuais, mesmo dentro da comunidade LGBTQ+. Então não me parece tão absurdo que algumas pessoas fiquem perdidas, sem saber se algo seria ofensivo ou não, ou até sem conhecer os maiores clichês que personagens bissexuais mal escritos muitas vezes caem.

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É importante falarmos sobre isso e darmos espaço para esses personagens cada vez mais, porque mesmo personagens que são bissexuais não aparecem dessa forma na grande mídia. Por exemplo, a Mulher-Maravilha já foi confirmada bissexual nas HQs, mas o filme dela, por mais que eu goste, ignorou esse fato. Há quem diga que o longa deu a entender que ela tinha se relacionado com mulheres antes de sair da ilha, mas dar a entender muitas vezes não é o suficiente. Assim como a própria Valquíria nos filmes da Marvel, que eu amo e sim, tem uma cena que dá a entender que ela teve uma namorada no passado. Mas lembrem-se, nossa sociedade nem reconhece pessoas bissexuais como válidas, é preciso mais.

Eu entendo que, quando falamos de grandes franquias de super-heróis, é sempre complicado, porque o medo dessas empresas de perder público e dinheiro fala mais alto. Eu sei que, nos bastidores do filme Thor: Ragnarok, muitas pessoas lutaram para manter uma cena que confirmava que Valquíria era bissexual. Também sei que a onda do conservadorismo atual, representatividade parece ser algo que vai ser imediatamente rejeitado. Mas quantas vezes precisamos dizer que a diversidade nunca foi o motivo do fracasso de bilheteria para filme nenhum?

Pense bem. Como você faz para lidar com a vida amorosa e sexual de seus personagens que são hétero? Pode ser através de um interesse romântico na trama, pode ser a menção de um romance que não deu certo no passado, ou até que deu certo, mas que a vida acabou afastando. Você também pode mostrar esse personagem tendo interesse por outros de vários gêneros, achando-os atraente.

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Para personagens bissexuais, tudo isso funciona. Mostre-os em relacionamentos com mais de um gênero. Caso sua história seja curta, ou você não quer que relacionamentos amorosos sejam o foco, fale de algum ex desse personagem. Ou diga o que ele é com todas as palavras. Diga em algum momento, seja na fala do personagem ou na narração, que ele é bissexual. Nós usamos muito pouco a palavra, quase como se fosse um tabu, então também é importante normalizá-la.

Usando um exemplo meu: Quando coloquei personagens bissexuais em A Guardiã do Sonhar (minha webnovel que posto aqui no Nebulla, caso você não conheça. E não, não vou dar spoilers), eu lidei com essa informação de duas formas. Uma delas era falar com todas as letras que uma personagem era bissexual, afinal é uma história escrita, então fazer dessa forma ajuda. Outro personagem eu coloquei em um relacionamento e, em dado momento, falei de um ex de outro gênero, o que faz a pessoa entender que aquele personagem não é monossexual.

A forma que você trata do assunto também vai depender do tipo de história que você está contando. Se for um romance, ou um drama, que a bissexualidade do personagem seja um fator importante, então isso precisa ser mais trabalhado. Por exemplo, um romance adolescente que a menina está em dúvida se gosta de homens ou mulheres, daí ela descobre que não precisa gostar só de um. Aí você precisa sim de todo um trabalho narrativo para destrinchar esse assunto, porque é um ponto importante. Agora, se for uma aventura ou uma fantasia, como é o caso de A Guardiã do Sonhar, isso pode ser uma informação que simplesmente aparece. Meu foco nunca foi relacionamentos amorosos na minha história, eu só queria personagens diversos usando magia e lidando com outros problemas.

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Caso o filme da Mulher-Maravilha tivesse acertado em mostrá-la como bissexual, seria em algum momento específico, com alguma fala dela ou um diálogo mais longo, mas não seria uma questão para o filme todo. Isso porque é um filme de super-herói que queria lidar com aspectos específicos da heroína que não a sua sexualidade. E tudo bem, esse tipo de história também tem espaço para personagens LGBTQ+. Eu adoraria que estivéssemos em um momento em que o hétero não fosse o padrão, mas infelizmente ainda é. Então, mesmo que sua história não vá tratar da bissexualidade como assunto principal, se seu personagem for bi, é legal ao menos falar isso para quem está vendo a sua história.

Dito tudo isso, é sempre bom prestar atenção em certos clichês: Bissexuais promíscuos, indecisos, que traem, que não são confiáveis, que são malvados… Isso é muito comum e, em muitos momentos, mal tratado. Esses clichês podem ser resolvidos de três formas: Não use, dê complexidade para o seu personagem ou tenha mais personagens bissexuais.

No primeiro caso, é simples. Está na dúvida se vai conseguir fazer um personagem bissexual que, por algum motivo, é um dos vilões, sem ficar clichê? Então não o coloque. Em Dragon Age: Inquisition, existe um personagem hétero que, a ideia inicial era que fosse bissexual, mas para evitar o clichê do bissexual não confiável, o escritor preferiu deixá-lo como hétero. Apesar de que eu adoraria ver esse personagem em questão como LGBTQ+ (tentando não dar spoilers aqui, porque tem a ver com o final do jogo), eu entendo e aprecio a preocupação do escritor.

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A outra forma é fazer o seu personagem ir além disso. Tá, então você quer fazer um personagem bissexual promíscuo, que sai com todo mundo. Tudo certo, alguns dos meus personagens bissexuais preferidos acabam se encaixando nisso. Mas é só isso que faz ele se destacar? Quais outros dramas ele têm em sua vida? Quais outros aspectos farão as pessoas se lembrarem dele? Dar complexidade para um personagem é uma forma de fazer com que, mesmo que de certa forma ele se encaixe em um clichê, ele seja tão bem feito que vai muito além disso. E né, existem pessoas bissexuais que gostam de pegar várias pessoas, não há nada de errado com isso e elas também merecem uma representação bacana (só não me faça a redenção do personagem ser “achar a pessoa certa” e perceber que pegar várias pessoas é errado, por favor).

Por fim, outra coisa que ajuda muito a sair dos clichês é ter mais de um personagem bissexual. Então o seu vilão é um personagem bissexual, mas se o seu herói também for, você não está reforçando um clichê de que pessoas bissexuais não são confiáveis. Eu quero ver heróis, vilões, coadjuvantes, antagonistas e todo o tipo de personagem podendo ser bissexual. Se você quer fazer um personagem promíscuo que é bissexual, faça aquele que mal sabe dar em cima de alguém ser também. Pessoas bissexuais são de todos os jeitos, assim como pessoas héteros. Caso sua história tenha poucos personagens, seja menor, então opte por uma das soluções acima.

No final das contas, escrever um personagem bissexual é como escrever qualquer outro. Por causa da nossa sociedade, sim, nós precisamos prestar atenção se não estamos reforçando nenhum estereótipo. Mas é uma questão que envolve muito a sensibilidade de pensar sobre a própria narrativa, que todo o escritor deveria ter. Pense com carinho nos seus personagens e no que eles representam. E claro, sempre que possível, leia histórias de autores e com personagens bissexuais.