Grey’s Anatomy começou em 2005, treze anos atrás, e desde então a vida dos residentes, médicos e mesmo dos pacientes do hospital tiveram reviravoltas, mortes, mudanças e muita emoção. Se você acompanha a série então com certeza já perdeu personagens queridos, alguns não tão queridos assim, e provavelmente já quis dar um chacoalhão na personagem de Ellen Pompeo, Meredith Grey.

Em conversa com The Hollywood Reporter, Ellen comentou sobre a sua relação com Shonda Rhimes, criadora de Grey’s Anatomy e toda-poderosa da televisão norte-americana, como ela a incentivou a querer mais, sobre o acordo sem precedentes que conseguiu com a ABC e sobre trabalhar em um mundo que não é exatamente receptivo.

A conversa é uma visão incrível sobre como uma mulher pode mudar a perspectiva e as oportunidades para outras mulheres. Você encontra a entrevista inteira, em inglês, no THR. 

Sobre a transformação que Shonda trouxe para sua vida:

“Ao encontrar o seu poder e se tornar mais confortável com ele, Shonda me empedrou… Ela chegou num lugar em que tem tanto poder e se tornou generosa com ele. Agora, o que isso quer dizer? Quer dizer que ela me permitiu ser a mulher mais bem paga da televisão, me permitiu ser uma produtora no show, co-produtora no spinoff e assinar o acordo que o estúdio me deu, que é sem precedentes.”

Rhimes também falou com THR sobre a sua perspetiva nas negociações.

“Como uma mulher, o que eu sei é que você não pode encarar nada com o ponto de vista de “não sei se eu mereço” ou “Eu não vou pedir porque eu não quero que outras pessoas fiquem chateadas. E eu sei por experiência que quando um homem entra nessas negociações eles vão com força e pedem o mundo.”

Mas nem sempre Ellen Pompeo sentiu-se forte o suficiente para negociar, mesmo com a série levando o nome da sua personagem.

“Quando Patrick deixou o programa, em 2015, esse foi um momento decisivo no que tange um acordo. Eles sempre o usavam como moeda de negociação “nós não precisamos de você, nós temos o Patrick”, eles fizeram isso por anos. Eu não sei se eles também fizeram isso com ele, porque eu e ele nunca discutimos os nossos acordos. Muitas vezes eu entrei em contato com Patrick para nos unirmos para negociar, mas ele nunca teve o interesse.

Em determinado momento eu pedi cinco mil dólares a mais só por princípio, já que o programa chamava Grey’s Anatomy e eu era Meredith Grey. Eles não me deram. E eu podia ter ido embora, mas porque eu não fui? O programa é meu, eu sou o número um. Tenho certeza que senti o que muitas atrizes devem sentir: por que eu deveria largar um grande papel por causa de um cara? Você se sente confusa e pensa ‘Eu não vou deixar um cara me tirar da minha casa.

Então o que acontece quando ele (Patrick) deixa o programa? A audiência tem picos – e eu ri um tanto com isso. Mas a verdade é que a tinta ainda nem tinha secado nos roteiros de saída dele quando já colocaram um novo cara… Eu não consegui acreditar em quão rápido o estúdio e o canal sentiram que eles precisavam colocar um pênis ali.

É importante notar que, apesar de Ellen não ter antes de Grey’s Anatomy uma carreira proeminente na televisão ou no cinema, Patrick Dempsay tinha esperimentado o pico da sua carreira nos anos 80, como um ídolo adolescente/jovem adulto.

Ao conversar com Ellen sobre pedir mais pelo seu trabalho, Rhonda deu um conselho:

“Decida o quanto você acha que vale e depois peça o que você acredita que você vale. Ninguém vai simplesmente lhe dar isso.”

Quando o acordo de Rhimes com a Netflix foi anunciado Pompeo e Shonda conversaram sobre se a criadora gostaria de terminar com Grey’s. Shonda disse que não, que Grey’s era a Nave-Mãe, e perguntou o que Pompeo queria para deixá-la feliz.

“O que eu disse para Shonda é a verdade: Eu não posso fazer mais nada, e isso é frustrante criativamente. Eu faço 24 episódios de televisão por ano e, como parte do acordo, eu não posso aparecer em mais nada. E dirigir é legal mas, para ser honesta, só me tira de perto dos meus filhos. Então tem que ser muito dinheiro. E tem que ajudar, de alguma maneira, com a minha carreira como produtora, que é algo que eu realmente gosto. Isso é a minha criatividade agora.

Atuar, para mim, é chato. Um ator é a pessoa menos poderosa num set, então eu não me preocupo em procurar papéis. Além disso, na minha idade, é bastante irreal. Não que eu não possa fazer coisas legais na TV à cabo, mas eu não vou ter uma segunda carreira como atriz de cinema. Eu não sou a (fucking) Julia Roberts.” 

O acordo que Pompeo fechou com a ABC é sem precedentes pois inclui um caminhão de dinheiro e apoio para a sua produtora, a Calamity Jane. Pompeo vai receber 20 milhões de dólares por ano. 575 mil dólares por cada episódio de Grey’s e mais 6-7 milhões em outros ganhos com a série, além de um bônus na casa dos sete dígitos. Tudo isso soma-se ao mais importante para a atriz: sua produtora ganha um espaço dentro da Disney (dona da rede ABC) e comprometimento para pilotos de séries. Eu mal posso esperar para ver o que a Calamity Jane pode oferecer pro público.

Apesar de celebrar e agradecer o apoio de mulheres influentes como Shonda Rhimes, Pompeo acredita que poder não vai ser o suficiente para mudar o sistema.

Eu deveria dizer isso: eu não acredito que a única solução seja mais mulheres no poder, porque o poder corrompe. Não é necessariamente uma coisa de homem ou mulher. Mas precisam existir mais mulheres no poder, e não só nos sets da Shonda Rhimes.

Minha filha de 8 anos vem para o set e vê mulheres destemidas no comando. Ela adora sentar na cadeira do diretor com os fones de ouvido e gritar “Ação” e “corta”. Ela está crescendo num ambiente onde ela está completamente confortável com o poder. Mas eu não sei nenhum outro ambiente em Hollywood onde eu poderia fornecer isso para ela. E eu espero que isso mude… e mude logo.”

É sempre fortalecedor ver mulheres falando sobre trabalhar com outras mulheres, sobre estar no meio de pessoas poderosas, negociar com essas pessoas e tornar-se elas mesmas pessoas poderosas. É também desanimador que mesmo que o nome da sua personagem seja o nome da série a protagonista ainda precise lutar para receber o mesmo que seu par romântico. Mas mais do que tudo isso é saber aquilo que já acreditava, não é só sobre uma mulher chegar lá, é sobre como Shonda Rhimes é capaz de criar raízes e desdobrar melhorias para o ambiente de trabalho da mulher dentro da televisão norte-americana.

Por mais Shondas, por mais Pompeos, por mais mulheres chutando bundas corporativas. E que isso também ajude a melhorar o denso e complexo sistema de produção que ajuda esses programas a se manter no ar por catorze anos. Afinal, como Pompeo parece saber, nem toda menina consegue sentar-se na cadeira de diretor desde cedo. 

Sobre o Autor

Roteirista com uma tendência em transformar qualquer documentário sobre abacate em uma space-opera feminista.

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