Se você já jogou Mass Effect 2, é bem difícil que você não lembre da Jack. Não só porque ela é uma das melhores personagens do jogo, mas também por conta de sua atitude de “mulher brava”, que não leva desaforo, mas que tem um arco de personagem muito mais profundo do que isso.

Uma coisa que sempre foi discutida no fandom da Bioware era o romance de Jack em Mass Effect 2. Se você conversar com a personagem, ela vai falar que, em seu passado, já se relacionou com homens e mulheres. Então imagina-se que, já que ela tem romance disponível, ela se relacionaria com Shepard homem e mulher. Mas nós sabemos que não foi isso que aconteceu. Jack só está disponível para o romance com Shepard homem.

Por mais que a Bioware seja conhecida por tentar trazer representatividade em seus jogos, a verdade é que, pensando na franquia Mass Effect, o jogo deixa a desejar quando falamos de personagens LGBTQ+. Tivemos uma melhora nessa representação em Mass Effect 3, mas a trilogia podia ter feito muito mais nesse aspecto. No primeiro jogo da franquia, tivemos Liara, que se relacionava com Shepard de qualquer gênero, e que eventualmente virou uma das personagens mais populares da franquia.

liara t'soni » | Mass Effect 1 | Mass effect romance, Mass effect, Mass effect 1

Mas, em Mass Effect 2, a maioria das personagens mais marcantes eram heterossexuais. Eu acho que a gente pode até discutir se realmente existe um romance decente em ME2 que seja LGBTQ+. Todos os homens são hetero. Há três personagens LGBTQ+: Kelly, Samara e Morinth. Você só pode ter Samara na equipe se não tiver Morinth e vice-versa. Mas esses romances são bem limitados. Kelly tem poucas cenas, o romance com Samara é praticamente platônico e Morinth te mata no meio de uma relação sexual. Pois é, não são grandes representações.

Então por que uma personagem, que já tinha um histórico de ser pansexual, não podia ser LGBTQ+ no canon? Recentemente, o escritor da Bioware Brian Kindregan falou sobre o que fez com que a equipe tomasse essa decisão.

Eu estava tentando fazer o arco do romance [de Jack], que durante grande parte do desenvolvimento… Na verdade, já era muito tarde no desenvolvimento quando ela se tornou um romance apenas masculino.

Ela foi essencialmente pansexual durante a maior parte do desenvolvimento deste romance.

Mass Effect tinha sido bastante criticado de forma realmente injusta nos EUA pela Fox News, que na época… Talvez mais pessoas no mundo pensassem que havia uma conexão entre a realidade e o que é discutido na Fox News.

A equipe de desenvolvimento de Mass Effect 2 era uma equipe bastante progressiva e de mente aberta, mas acho que havia muita preocupação de que se [o primeiro] Mass Effect, que tinha apenas um relacionamento LGBTQ+, Liara – que no papel não era LGBTQ+ porque ela era de uma espécie de gênero único – eu acho que havia uma preocupação de que se isso atraiu confusão, o Mass Effect 2 teria que ser um pouco cuidadoso.

Não era como se fosse algo anti-gay do alto escalão da equipe do Mass Effect 2 como: ‘não vamos permitir isso’.

Resumindo, muitos de nós foram solicitados bem tarde para focar os relacionamentos que fossem mais tradicionais.

Complete Jack romance | Mass Effect - YouTube

Considerando que o jogo foi lançado em 2010, a produção aconteceu nos anos anteriores. Ou seja, de fato era outra época no meio dos games, então não é surpreendente que a matéria da Fox News fizesse a Bioware ficar receosa sobre como abordar a personagem.

Eu assisti a matéria da Fox News, li as declarações do escritor e algumas coisas me chamaram a atenção. Acredito que é sim válido, e necessário, falarmos sobre os temas que colocamos nos videogames e em quem isso pode chegar. Eu acho sim que existem assuntos que devemos tratar de forma delicada, como a própria violência, que é tão banalizada em jogos. Não acho que games façam adolescentes irem na escola e atirar em pessoas, mas isso não quer dizer que não precisamos tomar cuidado com a mensagem que passamos.

Também entendo perfeitamente que, com o avanço da tecnologia e da internet, fica cada vez mais difícil controlar o que as crianças podem consumir ou não. Mas também não acho que qualquer assunto que saia do “amigável para criança” não deva ser abordado por conta disso.

Jack - Mass Effect 3 Wiki Guide - IGN

Agora, o que eu acho mais interessante é que Mass Effect não foi o primeiro jogo com cenas de nudez na história dos games. Uma das jornalistas fala sobre como mulheres são objetificadas em jogos, e ela está certa, a Anita Sarkeesian tem uma série inteira falando disso. Mas há muitos jogos antes de Mass Effect 1, ou da mesma época, que objetificavam mulheres. Eu diria que eles eram até piores, porque mesmo que algumas mulheres em Mass Effect 1 apareçam semi nuas, elas são personagens infinitamente mais complexas que a maioria do que encontramos em outros jogos da época. Ou pior, mais complexas que personagens que encontramos em jogos de hoje em dia.

Obviamente, isso não é desculpa, mas eu me pergunto porque outros jogos não se tornaram alvo dessa repercussão. Talvez exatamente porque Mass Effect 1 tenha colocado personagens LGBTQ+, que era algo muito difícil de encontrar em 2007 (quando saiu o primeiro jogo) e, honestamente, não é muito fácil até hoje.

Dá para perceber que o problema foi a representação LGBTQ+, e não o conteúdo sexual, pelo pedido para “romances mais tradicionais” ter virado uma questão de “romances mais heteros”. Não culpo pessoalmente os desenvolvedores, eu acredito que a equipe podia ser mente aberta como Kindregan afirma, e é complicado ir contra uma ordem de superior assim. Mas isso não muda o fato de que a solução foi cortar a representação LGBTQ+ de uma das personagens mais importantes do jogo.

Notícias do dia – 11 de Abril de 2016 – PróximoNível

Isso considerando que o romance da Miranda, que é hetero, mostra mais do que o da Liara em ME1 (como mostrado na imagem acima), mas aparentemente esse tipo de nudez não incomoda. O argumento sobre “tomar cuidado com as crianças” e “o conteúdo dos videogames” aparece mais na grande mídia quando é sobre minorias. Casais heteronormativos podem ser representados de inúmeras formas, mas se tem um personagem LGBTQ+ que tenha uma cena um pouco mais romântica/sexual, aí é considerado um absurdo, por conta do tabu que ainda existe de que tudo LGBTQ+ é sexual e, portanto, é algo que “corrompe as crianças”.

Mesmo que isso tenha acontecido em 2010, 11 anos depois a gente ainda vê casos como esse. A gente lembra bem do Crivella, na bienal do livro do Rio, censurando uma HQ que tinha um beijo entre dois homens na capa, porque era “conteúdo impróprio para crianças”, mas ele não se importaria se fosse um homem e uma mulher se beijando.

Felizmente, os jogos seguintes da Bioware foram além na representação LGBTQ+ e, se tudo der certo, eles e a indústria continuarão avançando nesse ponto.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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