Este texto contém spoilers de Falcão e o Soldado Invernal e Loki.

A gente sabe que, em quesito de representação LGBTQIAP+, o MCU tá muito longe do ideal. Em treze anos, só em  2021 tivemos o primeiro personagem confirmado como LGBTQIAP+, enquanto personagens cis e hétero sempre tiveram espaço. As séries da Marvel parecem se propor a fazer um trabalho melhor nesse sentido, mas muitas coisas deixaram o público chateado, como o queerbaiting.

Acredito que, antes da gente falar sobre as séries da Marvel em si, a gente precisa entender o que é queerbaiting.

O que é Queerbaiting?

Disney Making LeFou Gay Isn't the Representation I Need | Teen Vogue

De acordo com o Dictionary: O termo queerbaiting se refere à prática de sugerir relacionamentos ou atração não heterossexual (em um programa de TV, por exemplo) para envolver ou atrair um público LGBTQ, ou de outra forma gerar interesse, sem nunca realmente descrever tais relacionamentos ou interações sexuais. Eu adicionaria que é qualquer sugestão não confirmada de representação LGBTQIAP+ em geral (porque personagens trans ou ace podem ser hétero, então é preciso fazer a diferenciação).

Um exemplo de queerbaiting clássico é no live action de A Bela e a Fera, com o LeFou. Isso foi muito falado na época. A Disney fez um marketing específico para falar que eles teriam o “Primeiro personagem abertamente gay” de seus filmes. No final das contas, LeFou nunca faz referência sua orientação sexual, a atração dele por Gaston é bem esquisita e a “representação” direta é uma cena do baile onde ele dança com um homem. A Disney deve achar que dançar com homens sendo um homem te torna gay.

Isso é um queerbaiting porque, quando você diz “primeiro personagem abertamente gay”, a gente esperava ver LeFou realmente se relacionando com um homem, falando sobre já ter se relacionado com homens ou falando sobre a sua sexualidade em si. Nada disso aconteceu, foram apenas detalhes questionáveis, e isso não é ser “abertamente gay”. Também não é representação fazer um personagem considerado como tolo ser cheio de estereótipos.

No próprio MCU isso já aconteceu uns anos atrás. Em Thor: Ragnarok, tem uma cena em que a Valquíria vê uma de suas companheiras morrer. A cena é construída de uma forma que dá a entender que, talvez, elas tivessem mais que uma amizade rolando. Depois, o diretor e a própria atriz falaram sobre Valquíria ser bissexual, e que a cena que mostrava isso foi cortada.

A “amizade” entre Falcão e o Soldado Invernal

Resenha: Falcão e o Soldado Invernal (com spoilers) - Meio Bit

Muitas pessoas do fandom shipavam Bucky e Steve no MCU e ficaram muito decepcionadas quando Steve largou tudo para voltar no tempo. Não dá para dizer que muito da interação dos dois foi construída como um casal. Caso um dos dois fosse uma mulher, não existe dúvidas de que eles acabariam ficando juntos. Viúva Negra foi colocada como interesse romântico de vários personagens homens entre os Vingadores, incluindo o Hulk, com quem ela tinha pouquíssima química.

Obviamente é possível que dois personagens homens sejam amigos e não mais que isso. Inclusive, seria ótimo ver mais representações de amizades saudáveis entre homens, que sejam espaços seguros para esses personagens trabalharem suas masculinidades. Dito isso, histórias de amizades entre homens são muito mais comuns do que romances entre eles. O que mais tem são personagens homens sendo grandes amigos, nem sempre da forma mais saudável, mas sempre tem. Tanto que, quando o assunto do queerbaiting aparece, o primeiro argumento é “ah, mas eles podem ser só amigos” e assim criamos várias obras com inúmeras amizades entre homens e pouquíssimas representações LGBTQIAP+ saudáveis. Basta lembrar que a maioria dos exemplos de histórias com romances LGBTQIAP+ de maior destaque envolvem comportamentos abusivos e um final ruim para os envolvidos.

Inclusive, o próprio Anthony Mackie acabou caindo em um discurso parecido:

“A ideia de dois caras serem amigos e se amarem em 2021 é um problema por causa da exploração da homossexualidade. Antes, os caras podiam ser amigos, sair e tudo ser legal. Você sempre encontra seus amigos no bar, sabe. Você não pode mais fazer isso, porque algo tão puro e belo como a homossexualidade foi explorado por pessoas que estão tentando se racionalizar.”.

Esse é um discurso muito problemático. Eu acredito que Mackie teve a melhor intenção com ele, mas não muda a mensagem que passa. Colocar a “homossexualidade” como algo puro é mais desserviço do que alguns podem imaginar, anda na mesma linha de pessoas bissexuais serem “mais evoluídas”.

Além disso, essa ideia de que antes homens podiam ser amigos e hoje não porque, que “banalizaram a homossexualidade” é uma mentira. O número de obras com homens amigos é muito maior do que as obras em que homens possuem relacionamentos amorosos entre si. Como algumas poucas obras LGTBQIAP+ ganharam destaque e as pessoas falam mais sobre isso, cria-se uma falsa impressão que “agora tudo é gay”, mas isso é preconceito e não uma análise real dos fatos.

De acordo com o GLAAD, dos 119 filmes feitos pelos maiores estúdios em 2019, 18.6% tinha alguma representação LGBTQIAP+, o que inclui aquelas que são estereotipadas. Sim, os números aumentaram considerando a pesquisa de 2018, mas ainda é muito pouco considerando o panorama geral. Então, dizer que “agora homens não podem ser amigos entre si porque é tudo gay” é uma visão bem injusta e rasa da situação. É uma declaração perigosa, independente das intenções.

É importante lembrar que Anthony Mackie não é responsável pela representação LGTBQIAP+ dentro do MCU, não é ele que toma as decisões. Quem precisa ser cobrado disso são os produtores, e eu acho que há formas melhores de abordar atores sobre essas questões, mas não muda o fato que foi uma declaração, no mínimo, infeliz.

Sobre o que realmente vimos em Falcão e o Soldado Invernal, há inúmeras cenas entre os dois protagonistas que existe um clima sendo construído, e os produtos sabiam pelo histórico de Stucky (Steve + Bucky) que as pessoas iam shipar. Sabendo disso, se os produtores realmente não queriam dar a entender qualquer atração, eles podiam ter cuidado mais das cenas para passar essa intenção, porque do jeito que tá, é um romance em andamento (rola até terapia de casal!). Caso um dos dois fosse uma mulher, ninguém teria dúvidas de que tinha uma atração sendo construída ali. Inclusive, Loki e Sylvie, com menos química e questões narrativas “esquisitas”, de certa forma, virou canon no último episódio.

Falando em Loki…

A bissexualidade e identidade de gênero de Loki

Loki episode 3 confirms Loki's bi — but can Marvel commit? - Polygon

Vamos começar falando sobre Loki ser gênero fluido, um fato que já era canon há um tempo nos quadrinhos, mas só apareceu agora na série. A única confirmação disso é uma anotação na ficha dele, dizendo que o personagem era gênero fluido. Eu não acho que a história de Loki precise ser sobre ele ser uma minoria (seria legal, mas os personagens LGBTQIAP+ podem ter histórias que o foco não são serem parte de minorias), mas considerando o tamanho do personagem e do alcance do MCU, eu acredito que não custava nada alguém ter falado isso em voz alta em algum momento.

Além disso, não posso afirmar com certeza que essa foi a intenção dos produtores, mas a inclusão de Sylvie, a “Loki mulher”, pode ter sido uma maneira de mostrar como o personagem é gênero fluido. Caso essa tenha sido a intenção, acredito que foi uma maneira bem rasa de falar sobre o que é uma pessoa gênero fluido. A definição do Orientando sobre gênero fluido é: “Pessoas cujas identidades de gênero passam por mudanças de tempos em tempos.”. Isso não é a mesma coisa que “em uma realidade sou homem, na outra sou mulher”.

Para mim, isso piora um bocado com o fato de que existia um romance sendo construído ali, e em vários momentos Sylvie parecia muito mais amiga/inimiga do que qualquer outra coisa, era uma construção bem mais rasa de atração do que o Falcão com o Soldado Invernal. Inclusive, eu diria que a única forma que eu realmente vi Sylvie retribuir o “sentimento” foi no último episódio, e bem pouco, porque ela usa isso para mandar Loki embora em um portal.

O que me surpreende nisso é que eles são a mesma pessoa. No último episódio, isso é dito com todas as letras. Os produtores da Marvel acharam que fazia mais sentido um personagem se apaixonar por outra versão dele mesmo do que dois personagens homens que tinham muitos indícios que podiam começar a um romance. E sabe por que é mais fácil ver os protagonistas de Loki como casal? Porque é um homem e uma mulher, só por isso. Como apontei antes, se os protagonistas de Falcão e o Soldado Invernal fossem um homem e uma mulher, o romance provavelmente teria acontecido.

Também precisamos pensar na sexualidade de Loki. Como uma mulher bissexual, eu não achei ruim a cena em que ele fala da própria sexualidade, o personagem disse que gostava de homens e mulheres e não deixou dúvidas sobre isso. Lembrando que bissexualidade não é gostar “apenas de homens e mulheres” (é atração por mais de um gênero/dois ou mais gêneros), mas do jeito que o diálogo foi colocado com a pergunta da Sylvie, a resposta de Loki encaixa bem.

Eu acho sim que seria interessante a gente ver Loki demonstrando interesse por um homem, e não é como se Mobius não estivesse ali do lado para isso acontecer. Eles nem precisavam ficar juntos no final (eu gostaria? Sim), mas algum diálogo do Loki sobre Mobius podia mostrar, em cena, que ele não está só interessado em mulheres. Eu não acho que essa representação em si foi ruim, mas eu acho que, com o tamanho que Loki tem na cultura pop, era uma oportunidade de ver ao menos um pouco mais.

Vi algumas pessoas bissexuais falando que foi um erro Loki não ser mostrado com um homem e só com Sylvie. Correndo o risco de ser polêmica, eu não concordo que isso é necessariamente um problema. Concordo sim que é muito mais confortável para a Marvel colocar a representação LGBTQIAP+ em diálogo e mostrar o Loki com uma mulher, mas eu também acho que são válidas representações de homens bi com mulheres. Afinal, pessoas bi se relacionam com mais de um gênero, e considerar essa representação como menor é, ao meu ver, uma forma sutil de dizer que a pessoa bissexual, e nesse caso personagem, só é válida quando já esteve com mais de um gênero. Dizer que Loki “está em um relacionamento hétero na série, então a representação bi não foi boa” na verdade é reproduzir bifobia.

(AVISO: Minorias discordam entre si, incluindo assuntos como representação. A opinião de outros bissexuais que não acharam a representação de Loki boa é tão válida quanto a minha).

No entanto, eu concordo, como já disse, que é fácil para a Marvel só mostrar Loki com mulheres, quando seria muito interessante ver personagens bi também com outros gêneros. Talvez, se houvesse mais personagens confirmados como bi no MCU, e cada um se relacionasse com um gênero diferente, talvez não tivéssemos esse estranhamento com Loki. É uma linha tênue de representação e que eu acho sim que pode ser mais aprofundada, se o MCU permitir. Quem sabe o Loki não arruma um namorado na próxima temporada?

 

Depois de tantos parágrafos, a minha conclusão, ao ver essas séries do MCU, é que a Marvel tem espaço para melhorar. Acho que ela deu um passo legal com a bissexualidade de Loki, mas acredito que podemos expandir essa representação e também trazer outros personagens. Só um personagem LGBTQIAP+, em uma história com inúmeros personagens marcantes, é bem pouco. Como mencionei antes, a atriz de Valquíria, Tessa Thompson, já falou sobre a bissexualidade da personagem, que é inclusive confirmada no quadrinho, então está aí uma oportunidade muito fácil para a Marvel. Sem contar tantos outros personagens que nunca tiveram sua sexualidade tratada, e podem muito bem ser LGBTQIAP+. Ser hétero e cis não é o padrão, a sociedade que quer nos fazer acreditar que é assim.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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