Boyfriend Dungeon é um dating sim misturado com exploração de masmorras, lançado dia 11 de agosto pela Kitfox Games. O estúdio independente apresentou uma história em que você pode se relacionar com as suas armas. É isso mesmo. Cada romance pode virar uma arma, como adaga, florete ou foice. A recepção na Steam foi majoritariamente positiva, várias pessoas comentaram sobre o jogo.

Porém, Boyfriend Dungeon passou por uma polêmica: De acordo com algumas pessoas, os avisos de gatilhos não correspondiam ao conteúdo do jogo. Infelizmente, isso também gerou algumas situações desconfortáveis, como o ator de um dos personagens pedindo para que as pessoas parassem de mandar mensagem de ódio.

Eu joguei Boyfriend Dungeon assim que saiu e tive uma experiência bem divertida. Essa polêmica toda me fez pensar sobre como lidamos com gatilhos em mídias, principalmente aquelas que se propõe a serem inclusivas.

Este texto tem spoilers de Boyfriend Dungeon.

Qual foi a polêmica?

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Quando você começa a jogar Boyfriend Dungeon, aparece uma imagem de aviso de gatilho. A imagem foi atualizada, mas em um primeiro momento ela dizia: “Esse jogo pode conter referências de avanços não solicitados, perseguição e outras formas de manipulação emocional. Jogue com cuidado”.

Os avisos não mentem. Em Boyfriend Dungeon, o vilão Eric é uma pessoa que persegue seu protagonista, tem muitos posicionamentos problemáticos e é uma pessoa manipuladora. Quando eu joguei, achei apropriado os avisos de gatilho no começo do jogo, porque é isso mesmo que acontece. No entanto, alguns jogadores reclamaram que o aviso não estava bem colocado.

As pessoas não estão erradas em falar sobre isso. O aviso de gatilho deveria estar na plataforma de compra do site, antes da pessoa adquirir o jogo. Ninguém é obrigado a gastar dinheiro com um jogo que vai dar gatilho. Quanto a isso, a Kitfox Games já se pronunciou, pedindo as alterações necessárias e desculpas pelo ocorrido. Outra reclamação feita foi a falta de aviso de gatilho durante o financiamento coletivo. Boyfriend Dungeon foi um jogo financiado por kickstarter. O estúdio devia sim ter avisado sobre os gatilhos para que os apoiadores tivessem ciência de onde estavam colocando seu dinheiro.

Depois dessas reclamações, várias outros problemas foram aparecendo. Um deles foram os comentários de ódio e ameaça que as pessoas do estúdio receberam. O ator de Eric também foi atacado e falou disso no twitter:

Ei, eu não acredito que tenho que falar sobre isso, mas por favor não me mande mensagens de ódio sobre meu personagem em Boyfriend Dungeon. Eu sei que ele é um merda, mas sou apenas o dublador. Por favor, sejam respeitosos.

Dizer que “reflete mal em mim interpretar um personagem como ele” é muito confuso. Existem pessoas más lá fora, eu não apoio o que esse tipo de pessoa está fazendo/dizendo/pensando de forma alguma. É apenas atuação, pessoal.

Obviamente, fazer esse tipo de ataque contra um ator que interpreta um personagem malvado, ou contra os criadores desse personagem, é algo horrível de se fazer. Não é certo e as pessoas precisam ter noção do que dizem na internet. Atores não concordam necessariamente com as visões de seus personagens, interpretar alguém diferente de você é parte da atuação.

Eric deveria sair do jogo?

Game warnings are not political enough, “Dungeon Boyfriend” tracking  control mad villains provoke public outrage | 4Gamers – 6Park News

Em meio à polêmica, vários comentários negativos foram feitos ao jogo. Alguns que fazem sentido e foram bem colocados, críticas normais. Outros foram comentários injustos, como as demandas para que a Kitfox Games tirasse Eric do jogo completamente, ou que limitasse as interações dele.

Existem dois elementos que foram levantados aí. Um deles seria “limitar” as interações com o personagem. Parte das interações de Eric são feitas pelo celular, e alguns jogadores queriam ter a opção de bloquear o personagem. Enquanto eu acho que poderia ser algo a se pensar em jogos futuros, informações importantes são reveladas nessas conversas. São mensagens que podem causar desconforto, sim, mas nada fora dos gatilhos que já tinha sido avisado no começo do jogo.

Os pedidos para tirar Eric do jogo não fazem sentido e nem são justos com os produtores. Eric é o vilão principal, a história anda por causa das ações dele. Tudo que ele faz está dentro dos gatilhos colocados no jogo. É normal você não querer jogar um dating sim com um personagem assim, ou achar que Eric não é um personagem bem feito. O problema é atacar um estúdio por botar um personagem manipulador como vilão. Eu entenderia críticas mais duras se Eric e seu comportamento fossem romantizados, mas esse não é o caso.

No final do jogo, quando você destrói o monstro que Eric criou, ele percebe que errou muito e diz que vai procurar terapia. Mesmo sendo uma representação positiva, vi algumas pessoas no twitter reclamando que elas precisavam “mudar o Eric” no jogo e que era um erro não ter a opção de matar o personagem manipulador.

Bem no começo, eu tomei uma atitude muito rude e distante de Eric porque ele é um cara chato. Em nenhum momento eu tentei ajudar ele, eu só queria ele longe. Meu personagem não ajudou Eric em momento nenhum, e mesmo assim ele decidiu ir para a terapia. O seu personagem não o “conserta”, ele que percebe depois do vários dias que está cometendo erros. O seu personagem não é o único a se afastar de Eric por conta da conduta dele, há várias coisas na história que o faz chegar à conclusão de que deve fazer terapia.

Quanto à poder “matar o personagem manipulador”, gosto é gosto, mas um jogo não é ruim porque não tomou a decisão que não te agradou. Boyfriend Dungeon não é um jogo em que matar os personagens é algo comum, como acontece em outros games. Dar a opção de matar Eric sairia do tom da narrativa. De novo, todo mundo tem o direito de não gostar, mas não torna a decisão um erro dos desenvolvedores.

Histórias com gatilho também podem existir

Boyfriend Dungeon - Gameplay & Dev Commentary (spicyyy 🔥⚔️) - YouTube

Não é de hoje que histórias com gatilhos e temas delicados recebem críticas que, como só por elas existirem, já são “erradas”. Esse assunto é muito delicado, mas é preciso pensar nele de maneira crítica e consciente. Existem sim histórias que são irresponsáveis e glorificam comportamentos perigosos. Mas uma história que, como Boyfriend Dungeon, mostra uma pessoa manipuladora agindo como tal, não é um problema.

Esses comentários que aconteceram com Boyfriend Dungeon são ainda mais frequentes em nichos ou com artistas/profissionais independentes. Quando essas pessoas fazem parte de minorias, ou se propõe a fazer uma história inclusiva, é como se esses comentários aumentassem e ficassem ainda mais agressivos.

É importante tratarmos de temas delicados com cuidado e é mais possível que essas histórias dividam opiniões. Algumas pessoas usam essas temáticas em suas histórias para lidar com assuntos da própria vida. É verdade que o gênero dating sim muitas vezes é jogado por pessoas que buscam algo mais leve, mas Boyfriend Dungeon não é a primeira a falar de algo mais pesado nesse formato, e faz isso de maneira responsável e leve.

Algumas pessoas queriam Eric fora do jogo, mas Boyfriend Dungeon só consegue contar a sua história por causa dele. O jogo trata de relacionamentos, consentimento e diferenças. Eric simboliza algumas das piores coisas que podem acontecer com as pessoas nesse sentido.

Onde cobramos mais

Boyfriend Dungeon on Steam

Na época em que saiu Pantera Negra e Capitã Marvel, nós falamos sobre como a excelência era exigida de histórias com protagonistas heróis que não fossem homens brancos. Isso aconteceu mesmo esses dois estejam entre os melhores filmes do MCU.

Algo parecido acontece na indústria de jogos. Há inúmeros jogos que tratam de assuntos delicados, às vezes sem ter qualquer cuidado. O uso da violência nos jogos é um assunto ainda difícil de debater, inclusive, porque muitos não reagem bem às críticas sobre o tema. Muitos desses jogos, quando são feitos por produtoras grandes, nem botam gatilhos no começo.

Ainda assim, eles são bem menos cobrados do que desenvolvedores independentes, principalmente aqueles que querem fazer uma experiência inclusiva. O exemplo mais recente é 12 Minutes, um jogo curto que aborda temas complicados e sua equipe não recebeu ameaças por conta disso. Não que devessem, ninguém tem que ameaçar desenvolvedor de jogo algum. Mas é nesses paralelos que percebemos as diferenças de tratamento.

Histórias inclusivas não precisam ser só sobre experiências 100% positivas e alegres de minorias. É importante sim se atentar para não cair em estereótipos, mas parte de inclusão e diversidade é poder contar todas as histórias envolvendo minorias, sejam elas pesadas ou não. Boyfriend Dungeon é um jogo com mensagens muito positivas e um clima, em sua maioria, feliz. Mas, por tratar de alguns assuntos mais complexos, acabou virando alvo de comentários injustos. É sintomático que esses grupos sejam mais cobrados do que outros na indústria de entretenimento.

Boyfriend Dungeon podia ter lidado melhor com os avisos em certas plataformas, mas nada disso justifica os ataques e tratamentos injustos com pessoas que estão se esforçando, e entregando, um bom trabalho. Não é porque algo não agrada seu gosto que a coisa é ruim ou mal feita.

 

 

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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