Antes que você comece a me odiar, me deixe dizer que eu adorei Good Omen, que eu adoro Neil Gaiman e que mesmo quando a gente gosta muito, apaixonadamente de algum produtor cultural, ainda assim é importante analisarmos a obra através de uma lente de representação e diversidade. Porque é num mundo diverso que nós vivemos. Se você quiser ler a nossa crítica à série, a Clarice Franca fez um texto muito bacana sobre Good Omens.

Dito tudo isso, vamos lá.

Escolhas Narrativas

Primeiro você precisa saber que eu não li Good Omens e, quando a série foi anunciada, optei por não ler mesmo e assistir a série como uma espectadora que não tem o background do livro. Eu fiz isso também com Deuses Americanos, que eu ainda não li (apesar de já ter lido Filhos de Anansi) e, no caso da série dos deuses, a minha visão só de espectadora e roteirista não foi muito positiva. Eu acho Deuses Americanos arrastado, apesar de ser uma série com uma diversidade de etnia e gênero bacanas, que acaba caindo bastante em lugares comum de representação e onde a narrativa complicada demais se mistura de maneira confusa com a parte poética.

Good Omens é o oposto. Com um olhar de roteirista, não só de espectadora, a série estabelece de maneira coerente os personagens, faz um trabalho maravilhoso com Aziraphale e com Crowley, assim como consegue construir um universo muito interessante, vasto e divertido. Narrativamente falando, meu único problema é com a resolução final do apocalipse.

Eu adoro que a gente não precisou passar por uma batalha de CGI e, sejamos francos, se essa fosse a resolução de uma história do Neil Gaiman eu teria ficado bastante decepcionada. Mas eu sinto que faltou alguma coisa na construção da narrativa do Anticristo e seus amigos para justificar três cavaleiros do apocalipse serem mortos por crianças com uma espada.

Eu sei que o verdadeiro poder alí está nas palavras delas, e na intenção real e inocente dos amigos de Adam, mas mesmo a construção disso me parece falha. Adam tem o poder de mudar a realidade apenas com a sua vontade, sim, mas a série não construiu para que os seus amigos tivessem esse mesmo poder. E num universo em que as regras, por  mais confusas que sejam, deixam claro que humanos comuns não possuem esse tipo de poder (por exemplo o caçador de bruxas que acha que tem o poder no dedo), eu senti falta de que isso fosse melhor construído.

Personagens Femininas

Infelizmente eu não encontrei nenhuma imagem promocional da Pepper em boa resolução.

Good Omens não possui muitas personagens femininas. Dentre os amigos de Adam, o anticristo, existe apenas uma menina, a Pepper. Eu gosto muito dela, mas exatamente porque a série tem tão poucas mulheres, ela cai em estereótipos. Pepper é maravilhosa, dona de si, feminista e absolutamente segura. Mas ao ser contrastada com outros dois personagens masculinos mais frágeis, em alguns momentos ela pode cair no estereótipo da mulher/garota negra agressiva. Isso teria sido resolvido se, ao invés de dois garotos, tivéssemos um garoto e mais uma menina entre o grupo de amigos de Adam.

De maneira geral Good Omens possui três personagens femininas “mais centrais” à trama. Pepper, Anathema e Madame Tracy. Anathema chega a ter o sobrenome de “device”, porque ela é o instrumento para parar o fim do mundo. Eu gosto demais que ela não seja uma mulher branca. Apesar da sua antepassada ser representada por uma atriz branca, muitas das mulheres originalmente perseguidas por serem bruxas tinham raízes não-brancas. Então a escolha de uma atriz não-branca foi acertada até nesse detalhe. E a decisão de libertar-se das amarras impostas por um destino que lhe foi pré-determinado, a de ser um instrumento para apartar uma briga de egos que transcende o plano físico, é muito forte.

Mulheres que rompem com o que é esperado pelo patriarcado, que muitas vezes utiliza o feminino como mediação entre uma luta de poder entre dois masculinos, sofrem um processo de libertação parecido com o de Anathema. Mas eu não sinto que essa analogia se encaixa com perfeição na série porque Deus é uma mulher, ou pelo menos é assim que a voz feminina sugere. E, pensando que Anathema precisou ter um caso romântico com um caçador de bruxas (mesmo que um com pouca vontade ou força de realmente caçar bruxas) para que esse processo de libertação acontecesse, eu sinto que o arco dela não chega onde poderia chegar. Especialmente porque ao longo dos sete episódios que antecedem a conclusão de Good Omens, existe pouca, ou nenhuma, dúvida na personagem sobre a sua missão e o seu papel.

Madame Tracy é um problema em particular. Eu honestamente estou cansada do humor que usa palavras relacionadas à prostituição para criar comédia em cima de mulheres. Seja porque é uma tentativa de fazer humor com um suposto depravamento feminino, condição que na nossa sociedade significa que a mulher possui pouco valor ou honra, seja porque eu honestamente acho que estamos mais à frente na discussão sobre como tratar mulheres que usam o corpo como mercadoria de trabalho. Eu não vou entrar numa discussão sobre “prostituição certa ou errada” porque não tenho forças e nem conhecimento o suficiente para isso neste momento. O fato aqui é que Madame Tracy é vista como punchline de piada por essas razões e isso me incomodou.

Especialmente porque o seu par em tela é Shadwell, um homem que passou a vida inteira caçando bruxas, ou seja mulheres, e que ainda se acha num patamar superior do que a vizinha que não só precisou de fato trabalhar para se sustentar como até faz o bendito jantar do desgraçado. Vale lembrar que prostitutas também eram diversas vezes mortas sobre acusações de bruxaria, e que Madame Tracy é uma cartomante/médium charlatã.

Mas de tudo isso, o que mais me virou o nariz, foi o modo como Good Omens tratou Madame Tracy ao final de tudo. Quando ela se aproxima de Shadwell para propor uma vida à dois em aposentadoria no campo, ela é outra mulher. Toda mulher tem uma escolha de homem errada na vida, Shadwell definitivamente é uma dessas escolhas erradas, mas a série faz questão de acomodar Madame Tracy ao que Shadwell considera uma mulher de respeito.

Quando a vemos nesta cena seu cabelo está liso, suas roupas estão em tons pastéis, pouca maquiagem e até o tom de voz da personagem muda. Para uma série que tira tanto sarro das normas cristãs, me parece incrivelmente conservador dar essa virada para a personagem. Como se no fundo toda mulher que é alegre, divertida, colorida e um tanto excêntrica só quer um bom marido para viver uma vida conformada e confortável. Um detalhe: quem vai pagar pela aposentadoria dos dois é Madame Tracy.

Os Cavaleiros do Apocalipse

Um dos outros elementos que me incomodou em Good Omens foi a representação dos quatro cavaleiros do apocalipse e, honestamente, para alguns desses problemas eu não saberia como chegar à uma solução.

Vamos começar pelo fato de que a Guerra, uma mulher branca, é apresentada na África destruindo o acordo de paz entre dois povos em guerra. Apesar de eu achar interessante que a Guerra seja uma pessoa branca influenciando negativamente países e culturas não-brancas à ponto de levá-los a autodestruição… Caímos novamente no estereótipo de que a guerra acontece apenas na África/Oriente Médio. E, francamente, mulheres brancas como um cavaleiro do apocalipse ficaria melhor como poluição – mas eu chego nessa parte.

Eu entendo que na época que o livro foi escrito esse conceito de África e Guerra era algo muito em voga. Mas para 2019, uma série que é escrita em cima de zoar conceitos cristãos, me parece que os Estados Unidos e os grupos conservadores, fascistas de direita, que são amplamente apoiados em conceitos religiosos e cristãos, e fomentam uma guerra étnica e religiosa “na surdina” e no congresso americano, faria muito mais sentido. Até porque o crescimento do fascismo é algo que vem atingindo todos os cantos do planeta. E é, infelizmente, muito atual.

A Fome é representada por um empresário aparentemente americano de muito sucesso no ramo do fast food e ele é negro. Eu vou apontar unicamente porque eu preciso, mas me parece muito óbvia o problema de usar um personagem negro para representar logo a fome, algo que foi amplamente representada no mundo todo através das crianças famintas na África durante a década de 90/2000. Eu não acho que isso é o caso de racismo consciente, mas sim aquela coisa que fica na nossa cabeça porque nós crescemos dentro disso, e nem mesmo Neil Gaiman tá livre desse tipo de preconceito enraizado. E aqui a gente entra novamente no problema de representação da série: falta. E, porque falta, sempre que os personagens não-brancos são encaixados em quadradinhos fica gritante.

Eu entendo que as escolhas de etnia por cavaleiro em Good Omens fazem um sentido direto: branco é a guerra, porque quem mais cagou no mundo inteiro com guerras, não é mesmo? Negro porque África e fome (racista sim, mas diretamente fácil de entender). Asiático porque China é um dos países que mais polui no mundo, talvez? E assim a única personagem de origem asiática cai num estereótipo um tanto quanto ridículo. Eu entendo a facilidade dessas associações, mas é exatamente por elas serem tão óbvias que elas caem em estereótipos que podem sim ser racistas.

Sobre a poluição, eu adoro que um dos cavaleiros seja uma mulher asiática, mas sejamos sinceras, mulheres brancas tão cavando esse buraco muito antes de mulheres asiáticas. A indústria da beleza norte-americana e européia é responsável por ⅓ da poluição aquática no mundo. Já existem estudos que mostram que tem tanto esfoliante de plástico nos mares que eles já entraram na nossa cadeia alimentar. E, honestamente, um homem branco como a Guerra faria sentido 100% porque quem comanda esse monte de exército é homem mesmo.

Ou Seja

Como eu disse, eu não sei a solução para os problemas de representação com os quatro cavaleiros, mas ter mais personagens de diferentes etnias em Good Omens com certeza ajudaria. Porque o problema não é que um personagem seja a representação específica de estereótipo, é que só exista ele e fim.

Enfim, para uma série que se propõe a questionar e rir dos conceitos católicos-cristãos, Good Omens acaba se fixando num conservadorismo narrativo e de representação feminina que acaba não só esbarrando no machismo mas também no racismo. Eu adorei a série, me diverti bastante e para sempre levarei o gif do Crowley dirigindo no carro pegando fogo como exemplo da nossa vinda em 2019, mas faltou na série abrir os horizontes para além daquilo que é obviamente masculino, branco e eurocêntrico.

Você pode assistir Good Omens na Amazon Prime.