Parece que todo o ano repetimos a mesma conversa. A Academia anuncia os indicados ao Oscar e parte do público fica indignada com as indicações em sua maioria brancas e masculinas, esnobando filmes que não sejam centrados em homens brancos. O Oscar 2020 infelizmente não foi diferente. Com algumas exceções, parece que a Academia não se importou com as reclamações dos últimos anos.

Não que isso surpreenda alguém, ou ao menos não deveria. O Oscar é uma premiação com um grande histórico de esnobar filmes que não sejam sobre homens brancos, ou feitos por eles. Em alguns anos os indicados melhoram um pouco, até parece que a Academia escutou alguma coisa, mas esse ano não é o caso.

Eu não estou dizendo que os filmes indicados não são bons, o que eu estou dizendo é que é muito “conveniente” que os “melhores filmes do ano” sejam tão masculinos e brancos, tão dentro do padrão que Hollywood gosta. Mas não é conveniência, não é por acaso que filmes mais diversos que são tão bons quanto os indicados (se não melhores) sejam deixados de lado.

Quando dizemos que a maioria das histórias premiadas são sobre homens brancos, acho que um dos melhores lugares para entender isso é a categoria de roteiro. Em roteiro adaptado, a única roteirista indicada foi Greta Gerwig por Adoráveis Mulheres. Já em roteiro original, uma das roteiristas de 1917 Krysty Wilson-Cairns. A outra indicação interessante da categoria é Parasita. Fora essas, os filmes são escritos por homens dentro do padrão.

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Entre as indicações de melhor ator/atriz coadjuvante, todos são brancos. A mesma coisa acontece nas indicações para melhor ator/atriz, com exceção de Cynthia Erivo, por Harriet. Porém, a atriz interpreta uma personagem que já foi uma escrava, e isso é um elemento que não pode ser ignorado.

Nenhum problema em abordar temas como escravidão, se eles são feitos com cuidado e sendo respeitosos com o tema, inclusive é importante que essas histórias existam. O problema é que os atores negros só são reconhecidos quando fazem esses filmes. Lupita Nyong’o é um grande exemplo disso. Ela teve uma das melhores atuações de 2019 em Nós, mas o Oscar só prestou atenção nela quando a atriz fez 12 Anos de Escravidão, onde ela interpretou uma escrava.

A Academia só se importa com histórias sobre minorias quando elas estão ocupando um espaço muito específico. Quando é uma história de minorias na posição que eles consideram o “lugar dessas pessoas”. Agora, quando temos um filme fora desse escopo, como Nós, com atores negros fora da visão racista da Academia, aí é como se o filme não existisse. Além da Lupita, e o próprio elenco de Nós, outros que podiam ter levado indicações de ator/atriz é Awakwafina por A Despedida, sem contar boa parte do elenco de Parasita.

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Na categoria de direção não temos nenhuma mulher indicada, e o único homem que não é branco é Bong Joo Ho, diretor de Parasita. Parece que basta ter um filme de guerra, ou o Tarantino fazendo qualquer coisa, que as vagas são garantidas, mas qualquer minoria precisa lutar para ocupar ao menos um espaço entre os indicados.

A lista de melhor filme é… Complicada, para dizer o mínimo. Parasita com certeza é merecedor da indicação, apesar de que provavelmente vai levar como melhor filme estrangeiro e perder nessa categoria. Outros filmes que saem um pouco mais do padrão seriam Adoráveis Mulheres e História de um Casamento… É isso.

Parece que a Academia escolheu Parasita como o token da vez, o filme que não é focado em pessoas brancas, com um elenco que tem um número parecido de homens e mulheres, para dizer que dão espaço para a diversidade. Nós não levar nenhuma indicação é um completo absurdo, mas nós sabemos por que ele não está lá. É um filme com elenco majoritariamente negro que não está focado em falar de racismo. É um “filme de gênero”, lançado no começo do ano passado, coisa que a Academia já não é muito fã. A Despedida também era um filme que, pensando só em quesito ator, já deveria ter pelo menos duas indicações. E onde foi parar Meu Nome é Dolemite?

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Não adianta dar 6 indicações para Parasita e ignorar todos os outros filmes que não são focados em brancos. E de forma alguma desmerecendo as indicações de Parasita, porque ele é sim um dos melhores filmes do ano, mas havia outros que mereciam estar indicados junto com ele.

Acho que o maior retrato do que é a Academia hoje pode ser representada pelas 11 indicações que Coringa recebeu. O Oscar só quer saber de “filme de gênero” quando parecem ser cult, sombrios e intelectuais, como Coringa. Também só se interessam pelos dilemas, dores e complexidades de histórias de homens brancos, onde qualquer pessoa fora disso é inexistente ou um mero coadjuvante. Aí sim o filme é aclamado, mas a Academia é incapaz de enxergar tantas outras possibilidades que o cinema oferece e pode ter ainda mais.

Como os Estados Unidos ama um filme de guerra, pode ser que 1917 acabe levando, enquanto Coringa pega os outros prêmios, mas chega a ser até difícil escolher um para torcer, já que alguns dos melhores filmes ficaram de fora. No meu mundo ideal, Parasita levaria tudo, mas nós sabemos que a Academia não está pronta para dar o maior destaque da noite para um filme da Coréia do Sul que critica o capitalismo. Além disso, torço muito para que Democracia em Vertigem, documentário brasileiro, leve o prêmio de sua categoria.

De resto, eu torço para que artistas e histórias mais diversas consigam ter o mesmo espaço que um filme mediano de um homem branco consegue.

 

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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