Durante o Saturday Night Live, um programa dos Estados Unidos, a atriz e comediante Melissa Villaseñor fez uma paródia sobre alguns dos filmes indicados ao Oscar. Ela canta sobre filmes como Coringa e O Irlandês, brincando sobre serem filmes com “white male rage” (raiva de homem branco). No entanto, a piada fez com que, não surpreendentemente, homens brancos ficassem irritados, falando que era um “absurdo” colocar esses filmes, e os homens que podem se identificar de alguma forma com eles, no mesmo saco de “raivosos”.

O que é engraçado, considerando que homens brancos vivem colocando minorias de todos os tipos em um mesmo saco de estereótipos, que geralmente se tornam danosos para a vida em sociedade dessas minorias.

Já escrevi alguns textos aqui no site falando sobre os indicados ao Oscar deste ano e, como em sua maioria, temos filmes contando histórias de homens brancos padrão. Com o favoritismo pelas histórias de um grupo específico da sociedade, acabamos deixando tantas outras de lado, em um ano em que tivemos vários filmes muito bons que foram esnobados por conta desse padrão da Academia.

Quando O Regresso foi indicado ao Oscar, vários memes apareceram na internet falando sobre como o homem branco ganhava indicação por tudo, até por se arrastar no chão e brigar com um urso o filme todo. Sim, sabemos que O Regresso não é só isso, tudo bem, mas isso exemplifica bem como histórias de homens brancos fazendo qualquer coisa sempre são aplaudidas e consideradas geniais, mas uma história sobre minorias precisa ir muito além da média para ter o mesmo reconhecimento que um filme mediano sobre um homem branco.

Um fator que acaba recebendo muito destaque nessa conversa é essa tal de “raiva de homem branco”. Histórias de homens brancos agressivos, seja cometendo crimes com essa agressividade, ou sendo um “exemplo” de masculinidade tóxica. Coloco exemplo entre aspas porque esses personagens masculinos dificilmente estão ali para mostrar os problemas da masculinidade tóxica e criar uma reflexão sobre o assunto, só estão ali para ser um modelo de como homens devem ser e como a dor desses homens brancos é sempre algo compreensível de alguma forma. Personagens que, se fossem mulheres, homens negros ou LGBTQ+, seriam presos, teriam finais horríveis e seriam punidos pela história, porque eles, por serem fora do considerado padrão, não merecem o mesmo nível de empatia e compreensão do público do que o homem branco.

A nossa sociedade é construída ao redor desse mito. “Garotos serão garotos”, “é só um menino, não podemos culpá-lo por esse estupro”, “ele é muito velho já, não sabe o que faz” ou “precisamos entendê-lo, coitado, ele tem família…”. Quando falamos disso, é sempre importante fazermos recortes. Homens negros são penalizados por qualquer coisa, porque um garoto negro que comete um erro, mesmo sendo ainda um adolescente “já sabe muito bem o que está fazendo, precisa ser punido”. Homens LGBTQ+ também são tratados de outra forma, então é importante lembrarmos que esse comportamento privilegiado é dado aos homens dentro do padrão, que são brancos, cis e hétero.

Como estamos em uma sociedade que nos ensina a entender homens brancos, independente do que isso custe e do que esse cara fez, a mídia segue esse padrão. Os personagens “complicados”, que sofrem de problemas de agressividade, mas que depois recebem uma chance de “melhorar” ou ao menos serem compreendidos, geralmente são homens brancos. Essas histórias os humanizam, tenta fazer o público vê-los com os mesmos olhos que vemos esses homens brancos na nossa sociedade.

Particularmente, eu não acho um problema histórias sobre pessoas que mudem, inclusive adoro, e histórias com caráter mais punitivistas tem me deixado cada vez mais incomodada. As pessoas não são só seus erros, elas são humanos, mas só homens brancos são mostrados com essa ótica de misericórdia e compreensão na maioria das vezes. Se víssemos vários personagens diversos passando por essas histórias, mulheres, pessoas negras e LGBTQ+ cometendo erros e tendo uma segunda chance, como homens brancos geralmente têm, a conversa seria outra. O problema é que quando minorias erram, intencionalmente ou não, elas são muito mais punidas e sofrem bem mais do que um homem branco. Basta olhar a nossa sociedade. Uma menina que vira mãe adolescente “não teve responsabilidade, devia saber o que estava fazendo, agora que aguente”. O menino branco “não pode pagar por um erro pelo resto da vida, coitado, é só um menino”. Podemos não saber se a arte imita a vida ou a vida imita a arte, mas sabemos que há uma relação entre as duas e elas acabam se espelhando.

Homens brancos são ensinados a serem agressivos e a serem perdoados por isso, a serem aceitos por esse comportamento, porque é “normal”. Esses homens não são ensinados a lidarem com seus sentimentos, porque sentimentos são”coisa de mulher e gay”, criando aí toda uma faceta da masculinidade tóxica que conhecemos, um assunto que muitos ainda se recusam a olhar e falar sobre. Recentemente li uma matéria sobre um homem que matou a esposa e o amante dela porque encontrou os dois juntos. Ninguém quer ser traído, entendemos isso, mas muitos comentários da matéria era sobre como ninguém tinha sangue de barata, compreendendo muito mais o assassino do que as vítimas. Ou seja, matar uma pessoa se tornou “aceitável” porque o assassino era um homem branco. A história seria diferente se esse assassino fizesse parte de uma minoria.

Fazer uma piada sobre a raiva de homem branco em filmes é completamente diferente de fazer uma piada com estereótipos de minorias, é falsa simetria porque nenhum homem branco sofre por ser homem branco, mas minorias são alvo de preconceitos e podem correr risco de vida por fazerem parte de determinada minoria. Mas é óbvio que pessoas no topo da pirâmide social ficarão incomodadas com uma brincadeira como #whitemalerage, porque é difícil olhar além do próprio privilégio. Não é por ser difícil que esse exercício não possa, nem deva, ser feito. E por isso falar de masculinidade tóxica é cada vez mais urgente na nossa sociedade. Uma forma de se fazer isso é através de histórias e usando ferramentas como a mídia. Pode continuar gostando de filmes como Coringa e O Irlandês, só gostaríamos que histórias com pessoas diversas fossem bem contadas e reconhecidas também.

 

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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