Obrigada Izadora Lima por betar o texto <3

Ontem, dia 12 de novembro, foi lançado o novo livro do lore de Magic: The Gathering, War of the Spark: Forsaken, a continuação do livro War of the Spark: Ravnica. Esses livros foram escritos por Greg Weisman e contam sobre a luta entre os planeswalkers e o dragão Nicol Bolas. O problema é que, em um dos trechos do livro, a bissexualidade de Chandra, que já era canon na série, foi invisibilizada e o seu relacionamento com Nissa foi jogado para baixo do tapete.

Esse texto terá alguns spoilers da história de Magic, focado nas personagens de Chandra e Nissa e também de eventos que aconteceram em War of the Spark.

Chandra e Nissa não eram um casal?

Há anos, acompanhamos a história da Gatewatch, que tem sido um dos pontos mais importantes no lore atual de Magic. A Gatewatch é um grupo de planeswalkers que viajam entre planos e resolvem certos conflitos. Entre eles, estão Ajani, Jace, Chandra, Gideon, Nissa e Liliana, alguns dos personagens de maior peso e destaque atualmente.

Nas histórias que vemos a Gatewatch em ação, é evidente que existe um relacionamento sendo construído entre Chandra e Nissa, o que é perceptível em planos de anos atrás, como em Kaladesh e Amonkhet. Não é algo platônico, muito menos imaginado pelos fãs, as duas vão se aproximando, criando uma relação de carinho e cuidado mútuo. Existem pessoas que shipam Chandra com outros personagens, mas me arrisco a dizer que a relação dela que é melhor construída, em um sentido romântico, é com Nissa. Não menosprezando qualquer outro ship, nem ignorando a óbvia crush que Chandra tem em Gideon, mas com Nissa, a relação é mais recíproca.

A Wizards of the Coast é uma empresa que se diz atenta à assuntos como diversidade e inclusão, e os fãs ficaram muito felizes em ver que, durante War of the Spark: Ravnica, em um momento de luto, Chandra e Nissa se declaram uma para outra, dizendo com todas as palavras “eu te amo”.

Sem olhar para ela, Chandra sussurra “Eu te amo também, você sabe”. Nissa sussurra de volta “Eu também te amo, Chandra”.

Quer mais canon que isso? Não só Chandra era confirmada como uma personagem bissexual, mas também era um relacionamento canon entre duas mulheres, não só quaisquer personagens, mas duas das mulheres mais importantes atualmente no lore de Magic.

Mas como nós não podemos ter coisas boas…

Ontem, depois do lançamento de War of the Spark: Forsaken, todo esse desenvolvimento foi por água abaixo:

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Chandra nunca gostou de garotas. Seus crushes, e ela teve vários, normalmente eram musculosos, como Gideon, e definitivamente masculinos. Mas sempre existiu algo sobre Nissa Revane especificamente, algo que as duas compartilhavam naquela mistura química, passando por elas como um dos raios de Ral Zarek, que a tinha deixado empolgada. Desde o momento em que se viram pela primeira vez. Agora tudo era diferente. Estava acabado, antes de ter a chance de começar. Talvez elas tenham perdido a oportunidade. Um momento em que Chandra pudesse demonstrar mais coragem ou mais autodomínio, ela poderia ter falado para Nissa como ela se sentia. Um momento em que, se Nissa tivesse percebido o menor interesse ou autoconhecimento, elas poderiam ter encontrado um jeito entre as duas.

Por que isso é um problema?

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O último trecho faz parecer com que o que Chandra sentisse por Nissa fosse só uma atração qualquer. Eu não teria nenhum problema se esse parágrafo servisse para falar sobre como Chandra nunca tinha percebido que era bissexual até Nissa chegar, o problema é diminuir toda a sexualidade da personagem, que já era canon, em algo passageiro que sentiu por alguém. Isso dá a entender que a atração de Chandra por mulheres era uma fase, o que é um problema ainda maior considerando que ela é uma personagem bissexual.

Além disso, esse trecho destrói anos de desenvolvimento, não só da personagem, mas da relação dela com a Nissa. Então o que foi aquilo que aconteceu no último livro? Toda a declaração de amor? Eu consigo imaginar pessoas dizendo que era um “eu te amo” de amizade, mas não dá para dizer isso com os anos de construção de relacionamento entre essas duas.

Então além de ser um desenvolvimento bifóbico, com nenhum cuidado com o público ou o que já foi escrito antes, é uma bait gigante. Sério, se vocês querem entender queerbaiting, esse é um dos melhores exemplos que eu vejo em anos, e não é nem um pouco um elogio. É fazer um casal LGBTQ+ e depois desconstruir tudo que já tinha sido colocado antes.

O que é queerbaiting?

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O queerbaiting é uma estratégia usada na mídia e no entretenimento para atrair o público LGBTQ+. A empresa constrói uma relação romântica ou algum tipo de tensão sexual entre personagens, dando a entender que eles podem ser LGBTQ+, mas nunca realmente concretizando a questão. Ou seja, parece que eles são um casal, mas eles não ficam juntos de verdade, não há nenhuma cena direta de que a relação seja real. Dessa forma, o público LGBTQ+ se interessa pela obra, já que temos tão pouca representação, mas o produto não perde a audiência de pessoas mais conservadoras, nem entra de fato em uma questão de representação real.

Queerbaiting é um problema porque, além de ser uma tática puramente comercial, é desrespeitoso com minorias que poucas vezes se vêem representadas, ainda menos com uma representação saudável e interessante, algo que Chandra e Nissa tinham tudo para ser.

Falar de queerbaiting pode ser complicado, porque às vezes nós shipamos casais que não necessariamente tem uma construção romântica, e tudo bem. A gente shipa o que a gente quiser. Mas o caso de Magic é um exemplo clássico de queerbaiting, eu até diria que vai um pouco além, porque era uma relação canon que depois parece que o escritor disse “Olha o canon… É mentira!” (fale no ritmo de música de festa junina).

Eu digo que é queerbaiting porque eu consigo ver uma pessoa cis e hétero dizendo: Olha, sim, elas tinham uma relação próxima, disseram eu te amo, mas eram só amigas! Afinal, amigas dizem que se amam, né? A Chandra achou que tinha algo mais, mas foi só uma fase…

Então sim, isso que Magic fez se encaixa na categoria. Eles construíram uma relação amorosa, colocaram todos os indícios ali e o que serviria como uma cena direta, uma prova que elas eram de fato um casal, foi apagado e esquecido na sequência do livro.

Ainda mais porque inúmeros fãs chegaram até Magic e se engajaram no fandom por causa da suposta inclusão que o jogo oferecia. Eu mesma passei por isso, uma das coisas que me fez dar uma chance para Magic foi que eu sabia que tinha personagens LGBTQ+ na história, eu só não sabia que isso ia ser tirado do canon alguns meses depois. Não é só mal escrito, mas também é desrespeitoso e preconceituoso com a comunidade.

Invisibilização de bissexualidade

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Como uma mulher bissexual, e uma que se identifica bastante com a Chandra, é ainda mais dolorido falar desse assunto. Quantas vezes pessoas bissexuais se vêem bem representadas na mídia? Por que não vale ser como Orange is the New Black, que tem uma protagonista bissexual, mas peca em vários estereótipos bifóbicos.

A representação saudável de mulheres bissexuais na cultura pop ainda é muito difícil de encontrar. Considerando que Chandra é uma das personagens de mais destaque no lore atual, seria ainda mais importante e significativo que ela fosse uma representação para a comunidade LGBTQ+. E não era algo criado por fãs, a própria Wizards que veio com a ideia de fazer um relacionamento com Chandra e Nissa.

Pessoas bissexuais são constantemente apagadas, assim como os personagens bissexuais da ficção são invisibilizados. É um estereótipo comum mostrar que a bissexualidade é uma “fase”, algo passageiro, que aconteceu uma vez só. Esse trecho mostra exatamente isso, que a atração de Chandra por mulheres, e por Nissa, foi só um momento e uma fase, mas que agora não tem como continuar. Não importa o quanto ela falou que amava, e como ela se sentia antes, afinal “é só uma fase”.

Se a Wizards queria escrever uma personagem bissexual, podiam ao menos ter pesquisado um pouco antes e entendido que esse estereótipo, da bissexualidade ser algo passageiro, é muito danoso para pessoas bissexuais. Se a ideia era que Chandra e Nissa não ficassem juntas (que eu ainda não sei o motivo, mas né), poderiam ao menos ter feito isso de uma cuidadosa, e não escrita de uma forma que vai contra o desenvolvimento da história e da personagem.

Inclusão para quem?

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Como já mencionado antes, colocar duas personagens importantes como Chandra e Nissa em um relacionamento LGBTQ+ seria muito significativo e inclusivo. Negar essa representação dessa maneira foi um erro. Mas é possível que, talvez, ao ouvir as críticas, alguns argumentem que Magic possui representatividade em outros personagens.

Atualmente, Magic tem dois casais entre dois homens que são canon: Os dois reis de Theros e Ral Zarek junto com Tomik. Isso é muito bacana, considerando que um dos casais são de reis e o outro são entre dois homens importantes de Ravnica, que o conflito não é sobre a sexualidade deles e sim de serem de guildas diferentes.

Obviamente é importante termos representação de personagens homens em relacionamento com outros homens, ainda mais no caso dos reis de Theros em que os personagens não são brancos. Mas não é incomum vermos mídias só representarem a letra G do LGBTQ+ e ignorar todas as outras. Isso não é uma tentativa de fazer olimpíada de opressão, porque não dá para medir opressões e vivências, mas um homem gay branco e cis pode ser mais aceito que outras minorias LGBTQ+. Então é complicado dizer que é a favor de inclusão, mas só colocando personagens homens gays, bi ou pan, porém deixando de lado mulheres LGBTQ+.

No Magic, agora, as únicas mulheres que são um casal canon são Hal e Alena, que apareceram em Innistrad, mas são personagens pequenas que não tem nem carta no jogo. Temos Oviya em Kaladesh também (que tem carta), que era casada com uma mulher que já morreu e seu nome nunca foi apresentado na história.

Para deixar a história pior…

O escritor Michael Yichao, que já trabalhou com o lore de Magic, postou hoje sobre o assunto.

Eu tenho pensamentos e sentimentos sobre isso, especialmente sendo um escritor bissexual que escrevi para magic e que, junto com outros escritores, trabalhei muito para construir relacionamentos lgbtq+ autênticos e positivos, sendo essa uma das nossas maiores preocupações

Quando eu deixei a empresa há três anos, havia conversas sobre chandra e nissa terminarem, mas ver isso ser resumido em “chandra nunca gostou de garotas, ela gosta de homens másculos como gideon, mas nissa era atraente” É não ter cuidado ou sensibilidade com a história, os personagens e com a bissexualidade.

A Wizards tem responsabilidade sobre as histórias que ela conta.

Ou seja, o relacionamento delas eram tão canon que havia planos delas terminarem. O lore de Magic tem sofrido com muita confusão e inconsistência, mas o caso de Chandra é ainda pior porque, como Michael diz, é uma insensibilidade e falta de responsabilidade por parte da empresa. E sim, eles são mesmo responsáveis pelas histórias que escrevem e o que elas passam.

Nós já temos pouca inclusão de mulheres bissexuais e mulheres LGBTQ+ no geral dentro da mídia, Chandra e Nissa eram muito importantes nesse ponto, principalmente para o fandom e aqueles que chegaram em Magic por conta dessa inclusão. Se a Wizards prefere não fazer personagens LGBTQ+, ao menos tivesse o respeito em não tornar isso um bait tão desrespeitoso e bifóbico, apagando não só a relação, como a sexualidade de Chandra, uma sexualidade que já é apagada o suficiente todos os dias com inúmeras pessoas.