Hoje, depois da última festa do BBB 21, Lucas Penteado, do camarote, pediu para sair do programa. O desejo foi atendido pela produção.

É muito difícil escrever sobre isso, eu não fui a única pessoa que teve vários gatilhos ativados vendo os eventos do BBB. Foi uma série de violências psicológicas e episódios de bullying que Lucas sofreu. A gota d’água foi um episódio de bifobia que ele sofreu por parte da casa, que infelizmente é uma sensação que muitas pessoas bissexuais já passaram.

Durante a festa, Lucas e Gilberto, um participante da pipoca, se beijaram. Foi o terceiro beijo que aconteceu no programa. O primeiro foi entre Fiuk e Thaís, o segundo entre Karol Conká e Arcrebiano. Inclusive, nesse último mencionado, muito foi falado sobre a forma que Karol abordou Arcrebiano. A internet vibrou quando Lucas e Gilberto se beijaram, dizendo que era o melhor beijo da temporada e que era o melhor ship. Infelizmente, as pessoas lá dentro não acharam a mesma coisa.

Boa parte da casa, incluindo Lumena, Rodolffo, Karol e Pocah, assumiram que Lucas tinha beijado Gilberto por conta de jogo, para ganhar algum tipo de popularidade com o público. Nego Di falou que Lucas nunca tinha falado sobre a sua bissexualidade antes, então aquilo tinha sido algum tipo de performance. Lucas falou que era bissexual, que não se assumia porque tinha medo das pessoas não aceitarem, incluindo família e amigos. Ele não estava errado. Um momento que deveria ser de afeto e acolhimento, até por ter várias pessoas LGBTQ+ na casa, foi um momento em que Lucas foi humilhado e rejeitado de novo.

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Há inúmeras coisas erradas em como a bissexualidade de Lucas foi tratada, e é muito revelador que a pessoa que mais falou que era uma “performance”, a própria Lumena, seja uma mulher lésbica. Pessoas bissexuais vivem falando e ainda há quem não acredite, mas a verdade é que ser bissexual é ser rejeitado por pessoas hetero e também pela comunidade LGBTQ+. Por isso mesmo é tão difícil se assumir como bissexual, por isso Lucas e tantos de nós tem tanto receio de se abrir. Não é “mais fácil”, nem “mais aceito”, é uma sexualidade extremamente invisibilizada.

Nego Di acreditou que Lucas estava mentindo porque ele falava tudo da vida dele, mas nunca falou sobre ser bissexual. Lucas tem 24 anos, muita gente demora até mais do que isso para se entender como bissexual. E ninguém precisa sair por aí batendo ponto como bissexual ou pedindo permissão. Ninguém pede isso para pessoas hetero, e ninguém questionou as intenções dos beijos entre homens e mulheres na casa. O beijo de Lucas com Gil foi o primeiro entre dois homens na história do programa.

Sem contar que a bissexualidade do homem negro é um recorte muito específico, com um tipo de opressão que foi muito bem visto na festa. O que era uma demonstração de afeto e de interesse, acabou sendo interpretado como uma performance forjada, que é desrespeitoso com todos os envolvidos e toda a comunidade bissexual.

Desde a primeira festa, quando Lucas realmente cometeu erros dentro da casa depois de beber, nada que ele fazia estava bom. Não importa o quanto ele pedisse desculpas, qualquer coisa que ele fizesse para mudar, tudo era encarado como uma grande manipulação. Lucas foi negado de ser ele mesmo em todos os momentos, inclusive na hora que resolveu aproveitar uma festa e ficar com alguém por quem ele se sente atraído, uma das poucas pessoas que mostrou afeto pra ele dentro da casa. Ele foi rejeitado no momento em que se abriu sobre a parte que mais tinha mantido em privado.

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Viih Tube questionou Gilberto se ele sentiu afeto por parte do Lucas ou se era falso. Ninguém perguntou isso para Thaís, Fiuk, Karol e Arcrebiano. Ninguém se importa quando o beijo é entre homens e mulheres cis, porque é visto como “normal”. Não imaginam que possa ser manipulação ou maldade, independente de ser ou não, independente de ter assédio envolvido. Agora dois homens se beijando é visto de outra forma, ainda mais dois homens que não estavam indo na onda da maioria da casa antes, que eram vistos como inimigos. Tanto faz se tinha sentimento ou não. Quem nunca ficou com alguém por puro desejo? É algo normal, mas nesse caso foi visto como um absurdo, como um usando o outro.

Nenhuma pessoa bissexual precisa provar que é bissexual, e ainda assim a sociedade nos exige isso, até outras pessoas LGBTQ+ como Lumena, que riu na cara do Lucas quando ele falou. Ela disse que ia “observar” pra ver se era verdade, como se ela que decidisse quem pode se dizer bissexual ou não. Como se ela fosse a pessoa que pudesse legitimar o que Lucas é ou deixa de ser. Ao invés de acolher, como ela diz que gosta de fazer, ela duvidou e rejeitou.

Tudo que vimos Lucas passando durante a festa em relação a sua sexualidade é, infelizmente, muito comum na vivência bissexual. Somos apagados e, quando tentamos nos defender, somos hostilizados e deixados de lado. Violência não é só física. Além disso, tentando “proteger” Gilberto da suposta “performance” de Lucas, a casa inteira acabou desrespeitando Gilberto. Como se o interesse nele fosse algo impossível de ser sincero, que Lucas não se interessaria pela pessoa que Gilberto é.

É de uma falta de noção sem tamanho assumir que Lucas achou que beijar Gilberto seria algo para “promovê-lo no jogo”. É quase engraçado, se não fosse trágico. Essas pessoas não sabem o país em que vivemos? Com Bolsonaro como presidente, inúmeros casos de LGBTfobia e preconceito, como que beijar outro homem afeminado seria algo bem visto? Nenhuma pessoa LGBTQ+ se promove assim. Eu vi o beijo ao vivo, fiquei feliz e pensei “espero que passe na edição, mas o público do sofá pode ficar contra Lucas”. Antes de qualquer treta acontecer, o meu primeiro pensamento foi como isso podia prejudicá-lo nas votações, porque essa é a vivência de ser uma pessoa bissexual aos olhos do público. Porque ser LGBTQ+ não promove ninguém no Brasil.

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A verdade é que não importava o que Lucas fizesse, ele seria alvo até o final do programa. No final das contas, por mais que seja muito triste ele desistir, é o melhor para ele. Insistir em um ambiente abusivo e hostil só machuca e é cruel. Porque sim, apesar de Karol ter chamado Lucas de abusivo, os abusivos mesmos eram ela e o grupo dela dentro da casa. Pouquíssimas pessoas tiveram compaixão com o Lucas e se posicionaram contra o que aconteceu. O próprio Gilberto demorou a entender o que estava acontecendo.

Não há nenhuma vergonha em abandonar um espaço que é preconceituoso com a sua existência. Pessoas bissexuais não são obrigadas a aguentar essas agressões, ainda mais quietas. É triste, porque Lucas tinha um sonho de tentar dar uma casa para a mãe, e depois de tanta coisa, a bifobia foi a gota d’água. Se tudo der certo, Lucas terá muito apoio e amor aqui fora, e vai comprar várias casas para a mãe.

A Globo deveria também se responsabilizar sobre esses acontecimentos. O público está há quase uma semana pedindo que a produção faça algo, diante das violências que Lucas tem sofrido, e nada aconteceu. Ninguém recebeu advertência, as coisas só continuaram, porque “era parte do jogo”. Boninho, diretor do programa, ainda disse que Lucas saiu por culpa dele mesmo, por ter “problemas com bebidas”, o que é uma forma ridícula e preconceituosa de diminuir tudo que aconteceu. Lucas podia ser um bêbado chato sim, mas muitos outros participantes eram e não foram pintados dessa forma. É mais fácil para Boninho por a culpa no participante que desistiu, para continuar o jogo e seguir ganhando audiência, ao invés de realmente lidar com o problema de forma responsável, que podia custar caro para o programa e para os participantes que ficaram.

Esse é um ótimo exemplo para pensarmos no tamanho da violência da bifobia, de como agressão psicológica é algo cruel e muito sério. Desprezar alguém e excluí-la é muito errado, ainda mais pautado em preconceito. Ninguém é obrigado a amar o Lucas, mas todos devem ser tratados com respeito, e todos devem ter suas sexualidades respeitadas.

Em tempo: Lumena, Karol, Nego Di, Projota (que confessou ter escondido uma faca para se proteger, porque Lucas teria “ameaçado sua família”), Pocah e outras pessoas lá não são cabeças de movimentos sociais, nem representantes únicos dos grupos que fazem parte. Falar sobre questões importantes no BBB não é militância, o que define alguém como militante são ações feitas em prol da sociedade no cotidiano. Não é o que aconteceu dentro da casa que define se eles são militantes ou não. Independente de serem, é covardia e errado colocar a culpa do que aconteceu na “militância”. Movimentos sociais são compostos por pessoas, que nem sempre são boas, que podem errar e fazer coisas terríveis. Isso não torna a militância e os movimentos sociais menos importantes, na verdade essa visão rasa só oprime mais minorias. Podemos criticar indivíduos e ações sem reproduzirmos preconceitos e desinformação.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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