Nesta semana, Melissa Benoist, atriz que interpreta Supergirl, postou um vídeo em seu IGTV no Instagram falando sobre a sua experiência como vítima de violência doméstica em seu relacionamento abusivo. O vídeo foi visto por muitas pessoas na internet e teve um alto alcance.

Achamos importante trazer essa notícia aqui para o Nebulla. Nosso conteúdo é focado em cultura pop, mas também somos um site que fala sobre minorias e causas sociais. O relato de Melissa Benoist é muito importante para todas as pessoas que já passaram por um relacionamento abusivo, ou que infelizmente passarão no futuro. Na verdade, todos deviam ouvir o que Melissa tem a dizer, para acabarmos com esse silêncio que envolve assuntos de violência doméstica.

Para assistir o relato inteiro, que está em inglês, você pode acessar aqui. Este texto tem gatilhos de violência contra a mulher, violência doméstica e relacionamentos abusivos.

Resultado de imagem para melissa benoist"

Melissa Benoist começa o relato dizendo que foi vítima de violência doméstica. De acordo com o relato, o abusador de Melissa era mais novo do que ela e eles se conheceram em um momento de muitas mudanças na sua vida, então eles acabaram se tornando amigos. Ela diz que não foi forçada a entrar no relacionamento, mas que desde o começo não sabia direito onde estava se envolvendo “por mais esquisito que isso pareça”, nas palavras dela.

Melissa diz que, olhando em retrospecto, acredita que tenha ficado tanto tempo no relacionamento porque queria fazer ele funcionar, não queria que falhasse e, na época, ela não tinha entendido ainda que podia dizer não e tudo bem. Isso é uma coisa muito marcante para as mulheres da nossa sociedade, que não só não aprendem a dizer não, e quando dizem se sentem mal por isso, mas também como somos ensinadas a fazer nossos relacionamentos amorosos funcionarem a qualquer custo, mesmo que não esteja sendo bom ou saudável para nós.

No começo, o abuso não era físico. O abusador contava para Melissa sobre suas dores, injustiças e inseguranças, o que dava uma sensação de que seu comportamento era “okay” ou “desculpável”. Por mais que, racionalmente, nós sabemos que não é assim que as coisas funcionam, quando se está dentro de um relacionamento desses é muito difícil perceber o quanto a coisa vai piorando.

Havia muito ciúmes. Ele mexia nos meus aparelhos e ficava bravo quando eu falava com outro homem. Eu tinha que trocar de roupa com frequência porque ele não queria as pessoas me olhando. Em um aniversário em que eu passei trabalhando, eu fui criticada por ter que dançar com um colega.

Trabalho, de uma maneira geral, era um assunto delicado. Ele não me queria em cenas em que eu tivesse que beijar ou flertar com outros homens, o que era muito difícil de evitar. Então eu comecei a recusar testes, ofertas de trabalho e amizades, porque eu não queria magoá-lo.

Uma das formas que o relacionamento abusivo se constrói é uma das pessoas afastando a outra de convívio social, como trabalho e amizades. Inclusive uma das dificuldades, principalmente das mulheres, de saírem de lares abusivos é por ficarem sem emprego e sem dinheiro, não tendo para onde ir. No caso de Melissa, por ser uma atriz, era muito importante que ela tivesse essa rede de contato e trabalho, mas que seu abusador fez ela abrir mão e a prejudicou profissionalmente.

Por mais que ela diga que ela recusou para não magoá-lo, é importante lembrar que em um relacionamento saudável, o parceiro não seria contra e nem ficaria magoado com sua parceira fazendo o seu trabalho, que é atuar. Algumas pessoas têm ciúmes dessas situações (o que em si já é um problema também), mas impedir a pessoa de trabalhar como atriz é um problema bem sério.

Eu não conseguia entender isso como abuso porque eu estava muito preocupada em como ele se sentia, sem entender como isso me afetava

Essa é uma definição muito boa de como relacionamentos abusivos são construídos. De repente, uma das pessoas precisa se podar completamente de uma vida que tem, ou que precisa ter (como precisar aceitar trabalhos) por causa da outra. Casais podem sim entrar em acordo sobre o que é melhor para eles, e pode ser que isso envolva abrir mão de uma coisa ou outra, mas sempre consentido e com diálogo, não dessa forma como Melissa relata.

A atriz fala sobre como a violência física começou 5 meses antes, vindo depois de inúmeras situações de abuso psicológico, que geralmente sim, vem antes do abuso escalar para o físico, por isso nenhuma forma de violência deve ser aceitada. Melissa diz que a primeira violência física foi quando seu abusador jogou um smoothie na sua cara. Ela estava tão preocupada em limpar o chão e os móveis que nem percebeu que tinha acabado de sofrer um abuso.

Tinha que ser um segredo, por causa da vergonha, pelo medo de acontecer de novo e a relutância em admitir que aquilo estava acontecendo. A verdade é que eu aprendi o que era ser presa e estapeada, socada com tanta força até eu ficar sem ar, ser arrastada pelo cabelo, beliscada até minha pele ficar machucada, ser jogada na parede com tanta força que o drywall quebrava, ser estrangulada.

Eu aprendi a me esconder em quartos, mas depois desisti porque a porta era derrubada. Aprendi a não valorizar nenhum dos meus pertences, substituíveis ou não. Eu aprendi a não me valorizar.

Não existe nada que justifique esse tipo de agressão contra qualquer pessoa, mas infelizmente isso ainda é muito comum. Em uma matéria do portal R7, publicada em setembro deste ano, é constatado que a cada dois minutos, uma mulher é vítima de violência doméstica no Brasil. Durante todo o relato, Melissa fala como cada uma daquelas agressões ia afetando ela cada vez mais e como elas iam escalando.

Sempre havia um momento em que ele voltava para a realidade e via o que tinha feito. Uma onda de culpa tomava conta dele.

Insira a desculpa comum de um abusador aqui. Ele se ajoelhava perto de mim com lágrimas de ódio dele mesmo.

Acredito que essa seja uma forma do abusador tirar a culpa de si, mesmo que inconsciente, fazer a dor que ele causou ser sobre ele, sua falta de controle e como ele se odeia, como ele é uma pessoa péssima e descontrolada. É óbvio que pessoas podem mudar, mas para isso esses abusadores precisam realmente encarar o que fizeram e buscar ajuda de profissionais. Mas independente do quão arrependido ele se sinta, vítima nenhuma precisa aceitar esse tipo de violência e esperar para que tudo melhore, até porque pode ficar cada vez pior.

Eu achava que eu podia amá-lo o suficiente para fazer com que ele visse que violência não era o jeito de se lidar com as emoções.

E aí chegamos em uma das piores coisas que colocam na cabeça de mulheres na nossa sociedade. Como é a nossa função fazer com que o homem mude, melhore, como temos que ser pacientes e aguardar sempre o tempo deles, mesmo que isso acabe com a nossa integridade física e mental. Amar o suficiente uma pessoa não a faz mudar.

Melissa conta como ela mudou, como ela fingia uma vida normal e boa do lado de fora, mentindo para amigos sobre o que acontecia e sobre como os machucados surgiam, enquanto dentro de casa ela vivia o seu “pesadelo”. Às vezes ela achava que a situação estava melhorando, mas na verdade as coisas estavam mudando para o pior. Ela diz que tudo isso era, principalmente, para proteger ele.

Eu sabia que o que ele estava fazendo era errado, mas eu achava que as consequências que ele sofreria, se eu expusesse seu comportamento, seriam muito grandes

Então Melissa conta sobre o que, ao que parece, foi a gota d’água. O abusador jogou um iPhone contra o rosto dela, que rasgou a sua íris e quase rompeu o globo ocular, além de causar danos na pele e quebrar o nariz de Melissa, o que é um ferimento muito sério. Tanto que a atriz diz que a visão dela desse olho agora é permanentemente danificada por conta dessa agressão.

Pelos relatos da época, calcula-se que isso aconteceu em 2015 (até por conta de fotos que mostram a íris dela dilatada), ela até comenta sobre o machucado em uma entrevista em 2016, mas contando a versão inventada por ela e seu abusador, fazendo parecer que tudo tinha sido um acidente. No dia seguinte do acontecido, Melissa tinha filmagens para fazer, ela precisou cancelar tudo e correr para o hospital. Lá, policiais a interrogaram sobre ela ter sofrido violência doméstica, mas Melissa mentiu e manteve a história do acidente.

A partir desse momento, Melissa diz que achou que era tarde demais para sair daquele relacionamento, que ela não teria ninguém para ajudá-la. No entanto, depois desse episódio, uma amiga a encontrou sozinha e perguntou se ela estava sofrendo violência doméstica e aquela foi a primeira vez que Melissa contou o que sofria para outra pessoa. Assim, ela começou um longo processo de conseguir se separar de seu abusador completamente.

Ela encerra o vídeo falando que tudo que ela passou criou um cenário sombrio dessa época da sua vida, mas que sair dessa situação foi a melhor coisa que ela poderia ter feito para si mesma. Melissa também diz que ela passará o resto da vida se curando disso “e tudo bem”. Ela apresenta o dado de que, nos Estados Unidos, 1 em cada 4 mulheres vai passar por uma situação de violência doméstica e por isso ela quis contar a sua história, para dar forças para outras pessoas que passam por essa situação.

Alguns fãs acreditam que o ator Blake Jenner, que interpretou um par romântico de Melissa em Glee, é o abusador de quem ela fala. Melissa nunca dá nomes, mas ela diz duas coisas que fizeram os fãs suspeitarem: O fato de seu abusador ser mais novo do que ela e o acidente no olho. Pelo que os fãs apontam, Blake foi o único relacionamento de Melissa com um homem mais novo. Além disso, a época em que aconteceu o acidente no olho teria sido exatamente o período em que os dois estavam juntos (de 2013 a 2017). De qualquer forma, Melissa não confirmou a suspeita dos fãs e Blake Jenner não se manifestou sobre o assunto.

Dito tudo isso, o que tiramos desse relato, além de vermos a força e a coragem da atriz em deixar essa história pública? Nós precisamos entender, a partir desses relatos, que relacionamentos abusivos e violência dentro de relacionamentos, seja física ou não, é algo muito sério que pode acabar com a vida de alguém. Tanto literalmente, quanto no quesito de carreira e amigos. Melissa foi prejudicada em várias partes de sua vida por causa desse relacionamento.

Também precisamos aprender a não culpar a vítima, a não falar “Mas por que ela não tentou sair antes se estava tão ruim?”. É muito difícil reconhecer um abuso dentro do próprio relacionamento, ainda mais conseguir sair dele. Porque entender a situação significa olhar para ela, reconhecê-la e aceitar que aquilo está acontecendo, o que causa sentimentos difíceis de lidar como culpa e vergonha. Nós aprendemos a lidar com violências, a aceitar e a relevar, por isso é sim muito complicado se livrar dessas situações.

Ficamos felizes que Melissa Benoist tenha conseguido sair dessa situação, seguir em frente, falar sobre o assunto e hoje estar em um relacionamento melhor. Esperamos que medidas legais sejam tomadas contra o abusador e que mais vítimas vejam esses relatos e tenham força, e apoio, para saírem de situações abusivas.