Nos últimos tempos, acompanhamos inúmeras denúncias de racismo e machismo contra o Mil Grau, um canal no Youtube e na Twitch. Ou era, até ser banido por conta dessas denúncias. O assunto estava amenizando quando, nesta semana, os donos do Mil Grau foram convidados para participar do Flow Podcast para falar o “seu lado da história”.

Para quem não sabe do caso: Não é de hoje que as pessoas denunciam o conteúdo preconceituoso da plataforma Mil Grau. Entre eles, estão piadas com estupro, transfobia, racismo, etc. A gota d’água veio no final de maio, quando um dos administradores da conta compartilhou uma imagem racista, mostrando que, enquanto pessoas negras estavam “quebrando coisas em protestos”, pessoas brancas estavam indo para o espaço. Isso aconteceu justamente durante os protestos Black Live Matters nos Estados Unidos pela morte de George Floyd.

Além dessa denúncia de racismo, outras contas no Twitter começaram a postar inúmeros trechos de lives e vídeos do canal, mostrando que o conteúdo preconceituoso não vinha de hoje. Você pode ver algumas das coisas que o Mil Grau já fez aqui nessa matéria do Garotas Geeks.

Depois de todas as contas serem suspensas, o Flow Podcast achou que era uma boa ideia levar os dois administradores da conta para falar por mais de quatro horas em sua plataforma. Sim, tudo isso, e sim, eu assisti, então não me digam que tirei de contexto. Isso obviamente incomodou várias das pessoas que foram afetadas pelas ações da Mil Grau, além de parte do público de jogos que acompanhava a questão. Até porque, enquanto os integrantes da Mil Grau tinham espaço para falar, as pessoas afetadas não tiveram o “seu lado da história ouvido” que, em tese, era o que o Flow Podcast queria promover.

Há muitas coisas importantes para falar sobre isso tudo que aconteceu. Eu fiquei me perguntando por um tempo se devia falar, mas algumas coisas precisam ser debatidas. Então, depois de ouvir inúmeras das coisas faladas nessa discussão, existem alguns tópicos importantes de serem levantados.

Foi perseguição?

Durante a conversa no podcast, é dado a entender várias vezes que a Mil Grau foi “censurada” e “perseguida” por grupos de pessoas que não gostavam de seu conteúdo. Inclusive, em certo momento, eles dizem que só aconteceu desse jeito por causa da “guerra de consoles” (como se fãs da Sony tivessem movimentado tudo isso contra o Mil Grau porque eles preferem XBOX). Sim, é isso mesmo que você leu. Aqui nós temos duas opções: Ou eles realmente não entenderam nada, ou entenderam e estão se fazendo de desentendidos. Talvez os dois?

Vamos começar dizendo que tirar o Mil Grau de suas plataformas não é censura, ao contrário do que alguns acreditam. Há quatro anos, falamos aqui sobre a diferença entre crítica e censura. Mas por que essas coisas são tão confundidas? Porque as pessoas entendem que “liberdade de expressão” significa irresponsabilidade, que todo mundo pode falar o que quiser, sem lidar com as consequências de suas falas e ações, independente de quem elas afetem. O que não é verdade. O canal do Mil Grau foi tirado do ar porque eles foram racistas, misóginos e transfóbicos várias vezes. No caso das denúncias de racismo mais recentes, deixe-me lembrá-los que racismo é crime.

O que aconteceu não foi perseguição contra duas pessoas “injustiçadas”, foi uma série de denúncias criminosas feitas contra a Mil Grau. Não só falas preconceituosas, mas também incentivar ataques virtuais contra várias pessoas. Ser responsabilizado por suas ações e falas não é censurar, é fazer com que as pessoas lidem com o que elas fazem, que é o mínimo que se espera em um convívio em sociedade.

Relativização do racismo

Em várias falas dos integrantes da Mil Grau, eles buscam explicar que eles não são racistas, dando todo o tipo de explicação possível. Como se eles, como brancos, tivessem mais entendimento de definir o que é racismo do que várias pessoas negras que denunciaram suas falas nos vídeos.

Essa relativização é algo que vemos acontecendo muito nos últimos tempos, e talvez você tenha cruzado com isso na época do BBB. As pessoas pegam a ideia do racismo estrutural para, de certa forma, tirar a culpa daqueles que são racistas. Como se fosse “Bom, racismo é estrutural, tá em tudo, então não é culpa minha”. A grande questão aqui é que algo ser estrutural não tira nossa responsabilidade. Não, não foi você, indivíduo, que criou o racismo, mas você ajuda a perpetuá-lo. Afinal, essa estrutura foi feita para e serve pessoas brancas, que se beneficiam dela. O racismo está em todos os aspectos da sociedade, exatamente por isso não quer dizer que devemos passar a mão da cabeça de quem fala que “negros precisam voltar pra senzala” em uma live de jogos com inúmeros espectadores.

Racismo estão em várias coisas, são falas, ações e ideias que propagamos. É muito além de uma agressão física. Você pode falar “eu não odeio negros, até tenho uma madrasta negra e minha primeira namorada era negra” (que foi o que um deles disse), mas isso não quer dizer nada. Você acompanha o trabalho de pessoas negras? Dá oportunidade para pessoas negras? Busca entender quais de suas ações são racistas e nocivas para outros? Busca se desconstruir?

“Ah, mas e se a pessoa fez algo racista e não sabia?”. Vamos supor, por um instante, que esse seja o caso aqui. Se eles realmente não perceberam que a imagem dos astronautas era racista, eles deveriam ter se retratado e assumido as consequências, não tentar justificar toda a acusação feita contra eles, que é exatamente o que acontece durante as quatro horas de podcast. Em alguns poucos momentos, eles assumem que foram babacas (que definitivamente não é a única coisa que eles foram), mas em geral eles falam sobre “contexto” e “intenção”. Por isso é muito complicado acreditar que eles possam estar arrependidos ou que haverá alguma melhora, porque para melhorar é preciso entender o problema, e eles nem parecem que querem chegar nessa fase.

Eles insistem na entrevista que “não vem cor de pele, só pessoas”. Primeiro que isso não é verdade. Segundo que a sociedade trata pessoas diferentes de acordo com a sua etnia. Ignorar esse problema e agir como se ele não existisse não adianta.

Responsabilidade como influenciador

Existe uma coisa que precisamos entender no mundo de hoje, com o alcance das redes sociais: Uma vez que você tem muitos seguidores, você é um influenciador. Portanto, sendo um influenciador, você precisa ter responsabilidade pelo o que você faz e fala. Você não vai conseguir controlar tudo que as pessoas pensam do seu material, é verdade, mas você precisa ser responsável pelo o que você coloca no mundo.

Os administradores da Mil Grau falaram que não incentivam ódio e que não são responsáveis pelo o que seus fãs fazem. A partir do momento que você alimenta uma base de fãs tóxicos e expõe alguém, é sua responsabilidade sim. A Mil Grau está há tempos aí fazendo inúmeros comentários de ódio. Sim, fazer piada de estupro é machismo. Falar que tinha que “bater” em uma pessoa para ela deixar de ser trans é transfobia. Falar que “negro tem que voltar pra senzala” é racismo, assim como fazer piada sobre protestos tão importantes, que afetam a vida de toda a população negra. Não interessa se é “meme do canal” (que eles falam sobre as piadas de estupro), isso tudo é discurso de ódio. Incentivar isso na sua plataforma permite uma base de fãs tóxicos que se sente no direito de espalhar esse ódio para outras pessoas.

Algumas das denúncias, de acordo com eles, são sobre falas ditas por outras pessoas, fora da Mil Grau, que participavam da stream. Tá, mas assim, se alguém entra na sua stream e fala que “pessoa trans tem que apanhar” e você dá risada, o seu público absorve a mensagem. Se você justifica que é “só brincadeira” ou “não é nada demais”, então é isso que você passa para os seus seguidores.

Humor precisa ter limites, porque opressor fazer piada com oprimido é mais uma forma de construir uma estrutura preconceituosa na sociedade. Fazer piada em cima do preconceito do outro não é humor, é preconceito. Não adianta o papo de “Ah, mas eu faço piada com todo mundo”, porque talvez o motivo da sua piada seja uma das bases que fazem com que um grupo específico seja oprimido.

Cultura do cancelamento

Eu acho que a gente ainda precisa falar um bocado sobre cancelamentos de maneira geral, e para isso eu recomendo que vocês vejam esse vídeo. Sim, é bem grande, mas vale a pena, mesmo que você não concorde com tudo. Mas aqui, especificamente, eu quero falar sobre como a questão do cancelamento foi falado dentro do podcast.

Não, o “cancelamento” não é o maior mal da nossa sociedade. Eu penso em várias outras coisas piores, como racismo, machismo, lgbtfobia, fascismo, pandemia… A gente podia ficar aqui o dia todo. É desrespeitoso e um desserviço dizer que o cancelamento é o “grande mal” da geração. Sim, eu acho que existe uma diferença gigantesca entre fazer as pessoas assumirem as consequências de seus atos e linchamento virtual. Eu acho sim que, querendo “cancelar” as pessoas, alguns passam dos limites. O tal “cancelamento” é um assunto muito complexo e precisa ser tratado como tal.

Dito tudo isso, não é como se a Mil Grau tivesse apenas sido considerada “culpada” pelo “tribunal da internet” e fim. Como já falei antes, foram várias denúncias feitas para o Youtube, Twitch e Microsoft mostrando que o canal tinha conteúdo criminoso e preconceituoso. Foram provas de que a Mil Grau nutria uma base tóxica que partia para cima de pessoas online. Não é, como foi dito no podcast, pessoas de “esquerda” que são “maioria na internet” caçando alguém “mais de direita” para “perseguir”. Não é porque “Ah, o politicamente correto”. Foram denúncias sérias que os donos do canal estão tentando se esquivar, botando a culpa em “jornalistas verificados”, em “militantes” e em “fãs da Sony” para não assumir os erros que cometeram e não arcar com essas consequências.

O assunto do cancelamento precisa ser tratado com atenção sim, e falar dele como foi feito pelas pessoas do Mil Grau e do Flow Podcast é irresponsável. Outra coisa, durante o podcast é falado que, se todo mundo que falasse algo assim fosse “cancelado”, não haveria canal nenhum na internet. Bom, então talvez a gente deva pensar como esses preconceitos são naturalizados e tentar impedir que eles aconteçam, não só varrer para baixo do tapete.

Espaço no Palco

É sempre curioso ver como, no discurso “ouvir os dois lados” é sempre o lado do opressor que tem a vantagem. Cadê o espaço para entender o lado das vítimas? Cadê falar com os afetados pelos ataques da Mil Grau? O Flow Podcast foi muito irresponsável dando espaço para a Mil Grau “explicar” o seu racismo. Sim, os apresentadores do podcast confrontaram os convidados inúmeras vezes, mas será que valeu mesmo a pena dar esse espaço?

Isso não é uma fala contra o diálogo, eu acho sim que o diálogo é importante. Mas existem inúmeros fatores aí. Primeiro, as pessoas querem ouvir? Porque pelo o que eu vi dos caras da Mil Grau, não pareceram querer entender nada. Toda a acusação era rebatida com uma desculpa pior que a outra. Segundo, será que esse diálogo não pode ser feito fora de um canal do youtube? Porque colocá-lo público assim dá um espaço para que o público do Mil Grau e do Flow relativizem o racismo. Terceiro, será que vale mesmo falar em como todos os envolvidos foram “corajosos”, como fizeram no final? Porque, pra mim, corajoso é quem denuncia, foram as pessoas que colocaram a cara a tapa para expor tudo que o Mil Grau vinha fazendo, mesmo sendo perseguidos e recebendo ameaças. Quarto, sério mesmo que tudo termina com um teatro de pedir desculpas para a câmera? Eles reclamam tanto de tribunal da internet, mas ali fizeram o próprio tribunal do Flow para “desculpar” publicamente a Mil Grau.

Da mesma forma que a Mil Grau foi irresponsável, o Flow Podcast também foi. Eles deram sim espaço para que racistas se explicassem, para que tivessem o pano passado na cabeça, mesmo no meio de tantas “pauladas”. No final, a impressão que dá é que um deles sente muito pelo meme do astronauta e o resto tudo foi “ataque de invejosos”, já que eles foram as “vítimas perseguidas”. Sem contar que ignora completamente todas as outras pessoas envolvidas nessa história, que estão sofrendo várias consequências por parte disso. Se você realmente quer ouvir o lado de todo mundo, por que não começa pelo lado do oprimido? Daquele que geralmente não tem voz?

Teve até um momento em que Monark, do podcast, falou sobre como algumas pessoas usam de “causas sociais” para atacar os outros, dando a entender que foi o que aconteceu com a Mil Grau. Sério mesmo que, no mesmo podcast em que ele fala sobre responsabilidade, Monark achou uma boa ideia colocar em dúvida as denúncias de pessoas negras sobre racismo? Ele tem provas de que essas pessoas estão “usando da causa” para atacar uma pessoa injustamente?

De tudo que eu vi desse podcast (que foi feito todo presencial em tempos de isolamento social, o que também é irresponsabilidade. Não dava para fazer online não?), a impressão é que tanto a Mil Grau quanto o Flow Podcast precisam aprender sobre racismo, preconceito e responsabilidade, porque faltou muito ali.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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