A indústria de cinema foi muito afetada por conta da pandemia do Covid-19. Vários filmes, incluindo os de cultura pop, tiveram suas gravações interrompidas e seus lançamentos adiados. Mulher-Maravilha 1984 foi um que, mesmo em meio a esse ano atípico, foi lançado tanto no cinema quanto nas plataformas digitais. A tão esperada continuação da saga de Diana finalmente ganhou mais um capítulo.

Em Mulher-Maravilha 1984, vemos Gal Gadot mais uma vez no papel da princesa Diana. Agora, no ano de 1984, Diana está seguindo com a sua vida, quando encontra uma pedra misteriosa que tem o poder de conceder qualquer pedido para a pessoa que deseja. O problema é que essa pedra cai nas mãos erradas, e a Mulher-Maravilha precisa salvar o mundo de novo.

Esta crítica não terá spoilers do filme.

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Quando começaram a sair as primeiras impressões, vi muita gente decepcionada com o filme. Como sempre, fiquei com um pé atrás, porque nós sabemos bem que os longas de super-heróis focados em minorias sempre são mais cobrados. Infelizmente, quando terminei o filme, também acabei entrando na lista de pessoas que esperavam mais. Ainda acho que existem trabalhos bem piores no DCEU, mas Mulher-Maravilha 1984 podia ter feito mais.

Vamos começar falando das coisas boas. As atuações são, facilmente, a melhor parte do filme. Sempre acho que Gal Gadot atua melhor com a Patty Jenkins dirigindo. Kristen Wiig e Pedro Pascal também brilham bastante em suas cenas. Mesmo com um roteiro que não é dos melhores, os atores parecem ter feito o máximo que podiam para passar verdade em suas cenas e falas.

O filme não é de todo ruim. Ele tem momentos bons e divertidos, algumas piadas que funcionam e até certos momentos que podem surpreender. A segunda metade do filme flui melhor que a primeira. É um longa que dá para se divertir, mas ele não passa muito disso. Sinto que parte dos momentos que foram colocados com a intenção de impactar não funcionam por conta de contexto. Assim como BvS e Liga da Justiça, Mulher-Maravilha 1984 parece trazer cenas que só são “legais” e não agregam muito.

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Sim, um filme de super-heróis tem como foco divertir, mas os erros de Mulher-Maravilha 1984 acabam roubando o brilho que o longa poderia ter. Primeiro pela duração do filme. São cerca de duas horas e meia e, por mais que não seja tão arrastadas quanto poderiam, também é mais do que precisava. Há alguns trechos que podiam ser diminuídos ou cortados completamente, que adicionam muito pouco e até atrapalham.

Talvez o maior problema do filme seja a falta de coesão temática. Em um primeiro momento, dá a entender que Mulher-Maravilha 1984 vai falar sobre a importância da verdade, e como enganação não é algo correto. Pelo menos é a mensagem estabelecida pela primeira sequência do filme, em que Diana ainda criança tenta roubar em uma competição na ilha das amazonas.

No final, o filme até tenta amarrar essa ideia com tudo o que aconteceu, mas não funciona. A temática do longa já passou por tantas áreas, e já se misturou com tantos outros elementos que não adicionam nada, que é preciso de um discurso explicativo no final, como se só assim o roteiro pudesse explicar suas intenções. Ainda assim não funciona, considerando tudo que já aconteceu antes.

Mulher-Maravilha 1984 vai em uma direção oposta do primeiro. Isso não é necessariamente ruim, mas nesse caso vai muito contra as coisas boas do primeiro filme. No primeiro longa, a gente via uma história de esperança, de heroísmo e amor. E sim, dá pra encontrar elementos de amor e até, talvez, alguma esperança no segundo filme, mas a verdade é que Mulher-Maravilha 1984 é uma história desanimadora. Em uma tentativa de falar “cuidado com o que deseja”, o filme quase endeusa um status quo injusto, colocando todos os desejos das pessoas em uma mesma categoria, como se tudo fosse ganância.

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É uma pena, porque o filme tem uma tentativa e uma chance muito interessante de falar do peso de ser um herói. De como essas figuras também têm sentimentos e podem ser egoístas, que abrir mão de certas coisas pelo bem maior é mais difícil do que parece. Tem algo assim em Mulher-Maravilha 1984, mas acaba tendo menos impacto do que deveria ter.

Sem contar os inúmeros estereótipos em cima das personagens mulheres, o que é ainda mais frustrante vindo de um filme da Mulher-Maravilha. Aparentemente, Diana só pode ser feliz se tiver um parceiro romântico, sem conseguir criar outros grandes laços em tantos anos que vive entre os humanos. Já Barbara parece um clichê de personagem dos anos 80, a moça nerd que só consegue encontrar sentido na vida quando é reconhecida como desejável por outros homens. Novamente, aqui podia sim ter uma história bacana sobre ela entender que o olhar dos outros não devia importar tanto, e talvez tenha sido a intenção de alguém quando o roteiro foi escrito. Mas, quando ela precisa confrontar o seu desejo e o seu dever, não vemos nenhuma resolução da construção daquela personagem.

Isso sem contar outros detalhes, como a Mulher-Maravilha salvando o dia no Oriente Médio (e a gente sabe que Gal Gadot já deu declarações complicadas sobre a questão Palestina x Israel), o fato de Barbara ser colocada como “vilã” em um momento em que não aceita ser assediada, a construção de Max Lord e da sua ganância em um contexto de Estados Unidos…

São vários elementos difíceis de ignorar e que tiram o brilho do que podia ser um filme, no mínimo, divertido. Podia ser uma história sobre honestidade, ou sobre como a ganância pode ser perigosa, mas o filme acabou falhando em passar mensagens maiores. Não é só que ficou raso, até porque nenhum filme precisa ser profundo, mas é mal executado e, no final do dia, decepcionante.

 

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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