O que é cinema arte? O que define um filme como uma peça artística digna de premiação por parte da comunidade que cria cinema? O que faz de um filme arte e o que significa para ele ser classificado como tal? Algo que tenha um apuro temático, imagético e estético?

O roteiro de Logan (2017) conseguiu quebrar a barreira invisível que divide o cinema blockbuster/de super-heróis daqueles considerados arte dentro das grandes premiações. Logan é um filme sobre um homem idoso, em um futuro distópico, onde a única língua falada é a violência para maiores de dezoito anos. É um filme muito bom, que me tocou e que definitivamente figura entre os meus favoritos de 2017. Mas é só quando aproximamos o gênero de super-heróis de uma masculinidade decadente e violenta que podemos considerá-los arte? E Thor: Ragnarok que, além de ir além na estética dos anos 80, consegue falar sobre COLONIZAÇÃO em um filme de super-heróis?

O que é um filme de arte? Não seria aquele que se dispõe a falar com o público sobre questões importantes sobre o ser humano e a nossa sociedade? Que levanta discussões que nos fazem repensar nossa visão de mundo e nossas crenças? Que nos fazem analisar o nosso passado para entender o presente e o possível futuro?  

The Post, do Steven Spielberg, fala sobre um episódio da história política dos Estados Unidos que ecoa sobre a atual situação política do país. Star Wars – Os Últimos Jedi discute não só o cenário político atual com a alt-right norte-americana, mas também sobre o progresso de um conservadorismo vexatório e violento que assombra o mundo como um todo. E ele faz isso enquanto conversa com milhões de espectadores ao redor do mundo.

Só é arte aquele filme que é de difícil acesso? Aquele que é feito para poucos entenderem? Aquele que possui uma pré-acordada arrogância intelectual? Ou filmes cuja relevância não pode ser ignorada também conseguem passar dessa linha?

Lady Bird e Corra! são dois filmes celebrados tanto por sua qualidade estética como de direção e roteiro. Dois filmes que não compactuam com os padrões estabelecidos do que pode ser considerado artístico pelos grandes prêmios, em especial o Oscar. Dois títulos, dois diretores que nadam em um mar de filmes e diretores masculinos e brancos.

Mulher-Maravilha não é uma obra perfeita, é muito difícil que qualquer filme seja. Mas no que diz respeito à direção e ao “cinematográfico” como um todo, é sim um filme incrível. Mas não é um filme sobre homens, não é um filme dirigido por homens, não é um filme ultra-violento nem distópico. É sobre uma mulher salvando o mundo, sendo um ícone de esperança em um mundo destruído pela ganância masculina. Um filme que marcou o ano não só como representação, mas como tema de discussão, em um ano onde mulheres fizeram história ao levantar suas vozes.

Como bem disse Marykate Jasper, ao The Mary Sue:

Logan é um filme hiper-violento sobre um homem desiludido em uma distopia inspirada por faroestes. É um filme sobre o legado que os homens deixam, tanto em seu próprio tempo como nas gerações seguintes, e como eles lidam com isso. Esses temas, nós sabemos, são temas que a Academia considera apropriadamente sérios e válidos.”

Eu entendo muito bem a importância que a visibilidade de um filme indicado ao Oscar pode trazer para a inclusão de uma representação mais positiva de minorias, e vou sempre celebrar quando filmes como Corra! e Lady Bird conseguirem um lugar nessas listas.

Mas se tem duas coisas que esses grandes prêmios não sabem lidar é com mulheres seguras de si, esperançosas, falando sobre outras mulheres, com grandes orçamentos e, principalmente, mulheres felizes. Se a medida para o que merece ser visto como arte ou como merecedores de grandes premiações é aquilo que é masculino, distópico e hiper-violento, então nem precisamos pensar: não merecemos, não queremos.

 

Sobre o Autor

Roteirista com uma tendência em transformar qualquer documentário sobre abacate em uma space-opera feminista.

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