Nós sabemos (ou se não sabem, aprendam) que empresa boazinha não existe. Na nossa sociedade capitalista, empresas visam o lucro. De vez em quando, temos pessoas dentro das empresas que tentam trazer coisas boas usando dessas ferramentas do sistema, mas nós precisamos sempre ter um olhar crítico e ficarmos atentos ao que acontece ao nosso redor.

Junho é o mês do orgulho LGBTQ+, onde acontece a parada (que aconteceu neste último final de semana) e tentamos conscientizar as pessoas sobre os preconceitos que a comunidade enfrenta, buscamos falar sobre a nossa visibilidade, debater temas relevantes das nossas vivências, etc. É um trabalho que, na verdade, quem milita pela comunidade faz durante todo o ano, mas essas datas específicas servem para tornar o assunto mais visível.

Obviamente, ser o mês do orgulho não impede que o preconceito (e a falta de noção) continue a existir. Também não impede que, dentro da sociedade capitalista, as empresas tentem se apropriar da nossa luta de alguma forma. Eu não acho ruim que as empresas usem o filtro do arco-íris, façam campanhas em prol da comunidade LGBTQ+, falem sobre inclusão, etc. Acho que, se as ações forem feitas de forma decente e consciente, pode ajudar a mudar a cabeça das pessoas, afinal o alcance do dinheiro ainda fala mais alto.

Mas há alguns problemas aí que precisamos considerar. Um deles é se aproveitar do pink money. Esta é uma expressão usada para falar do poder de consumo da comunidade LGBTQ+. Quando as empresas e a área da publicidade começaram a perceber que a comunidade consome quando se sente representada, elas começaram a agir para conseguir lucrar em cima dessa causa. Como eu disse antes, claro que o objetivo número um aqui é o lucro, não ajudar uma causa social. Mas há formas sim de pessoas dentro das empresas, que querem ajudar a causa fazerem ações legais e inclusivas, que podem ajudar nas possíveis mudanças que buscamos, como já comentei lá em cima. Eu, pessoalmente, acredito que o fim das opressões vem junto com o fim da sociedade baseada no lucro e no consumo, do sistema capitalista, não acho certo escrever este texto sem deixar minha opinião sobre esse tópico bem declarada.

Como o capitalismo não vai cair da noite para o dia, é importante discutirmos sim o oportunismo de algumas dessas empresas. Porque não adianta mudar o filtro nos perfis das redes sociais ou fazer um texto bonito sobre diversidade, se a empresa possui uma atitude lgbtfóbica durante o resto do ano, se silencia e ignora a população LGBTQ+ quando as críticas são feitas.

No meio nerd, infelizmente, isso acontece muito. No mês de junho, vemos várias empresas se aproveitando do momento para colocar filtro nas redes sociais e passar como um lugar inclusivo e acolhedor, mas que no resto do ano (ou até mesmo nesse período) nem se lembra que a comunidade existe.

Do que adianta filtro colorido com silenciamento da comunidade LGBTQ+? Do que adianta compactuar com preconceito e pessoas que possuem um histórico preconceituoso, sem mudanças efetivas em seus comportamentos? Do que adianta fingir ser uma empresa inclusiva no meio nerd, mas que não tenta criar um conteúdo inclusivo, muito menos uma comunidade que não seja tóxica?

Porque o que mais vejo ainda são os filtros coloridos. O que menos vejo é inclusão, personagens LGBTQ+ sendo bem representados, pessoas LGBTQ+ de fato tendo oportunidades iguais dentro do mercado, podendo promover ações de grande alcance, mas que pessoas preconceituosas sempre conseguem. O que mais vejo é silenciamento, porque quando a comunidade LGBTQ+ aponta um problema, elas são bloqueadas, afastadas e suas críticas apagadas e ignoradas. O que mais vejo é a atitude clássica de só se importar em manter o lucro, mas se aproveitar da causa quando convém. Seria ao menos mais honesto ignorar o tempo todo, e não fingir uma falsa preocupação com as minorias.

Não me importa filtro, pode irritar alguns nerds preconceituosos, o que é sempre divertido, mas isso não leva a nada. Nós estamos aqui todos os dias tentando fazer as pessoas nos verem, nos ouvirem e nos respeitarem, então empresa que fecha os olhos para o preconceito, ou comete atos preconceituosos, pode colocar o filtro que quiser, não vai mudar a sua lgbtfobia.

Nós precisamos aprender diferenciar aliados de oportunistas.