Este texto terá spoilers da terceira trilogia de Star Wars e de Avatar: A Lenda de Aang.

Arcos de redenção são populares na cultura pop e não é à toa. É sempre bom ter uma mensagem de que as pessoas podem mudar, podem melhorar e perceber que estavam tomando decisões erradas.

Sim, podemos discutir sobre o fato de que a maioria dos personagens que têm a chance de se redimir são homens brancos. Mesmo assim, um arco de redenção bem feito pode ganhar parte do público. A questão é que fazer um vilão, ou um antagonista, sair de uma posição já estabelecida na história e tomar outro rumo é algo que exige atenção e nem sempre funciona.

Na minha opinião, esse é o caso do Kylo Ren em Star Wars: A Ascensão Skywalker. Por mais que eu ame um arco de redenção, e parte de mim sempre quis que o Kylo tivesse um, eu não acho que o dele funcione neste último filme. Mas para podermos avaliar isso, é importantes lembrarmos de algumas coisas.

No final de Os Últimos Jedi, Kylo está muito decidido sobre a sua posição no lado sombrio da força. Ele passou o filme inteiro tentando trazer Rey para o lado dele, mas falhou. Olhando por esse ponto de vista, parece óbvio que Rian Johnson queria que Kylo fosse o vilão principal do episódio IX, não o que tivemos, que foi o Palpatine voltando do nada.

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Mas tudo bem, o fato dele ter estipulado um caminho específico para Kylo não significa que isso precisaria ser mantido no próximo filme. Era melhor, narrativamente falando? Sim, faria mais sentido, mas também era perfeitamente possível transformar a história dele em uma redenção, se o roteiro tivesse se preocupado em construir algo convincente.

O que acontece no episódio IX quanto ao Kylo é: Ele passa a primeira metade do filme ainda muito certo quanto a estar no lado sombrio, não mostrando dúvidas sobre o seu caminho. Só quando Rey quase o mata, depois da metade do filme, ele tem uma visão do pai e acaba “se perdoando”. Eu digo se perdoar porque não é como se a visão de Han fosse um fantasma da Força que veio falar com ele, como foi o caso de Rey com Luke. O próprio Han fala que ele é uma memória na mente de Kylo. Então basicamente ele tem uma conversa consigo mesmo, se perdoa em questão de cinco minutos e passa para o outro lado. O mais inacreditável: Rey aceita sem questionar.

Considerando que Kylo foi parte ativa da destruição de vários lugares e de várias vidas, incluindo a do próprio pai (diretamente, inclusive), é pouco crível o remorso repentino dele. Se perdoar é importante, mas dado os erros de Kylo, não é bem o suficiente. Acho que o que deixa o arco mais perto do aceitável é que o Adam Driver é um excelente ator, deu para ver que ele (e outros atores do filme) estavam dando de tudo em suas atuações, o que ajudou um bocado.

“Tá bom, você não gostou da redenção do Kylo, então o que você sugere?”.

Que Star Wars aprendesse um pouco sobre arcos de redenção com Avatar.

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Se você não assistiu Avatar, eu recomendo muito que assista (até porque vou falar de spoilers), é fácil uma das melhores animações já feitas. Eu acho que todo mundo devia aprender algumas coisas da “Escola Avatar”, mas hoje especificamente eu quero tratar do arco do Zuko, que também é uma redenção e, até hoje, a melhor que eu já vi.

Zuko é o príncipe da Nação do Fogo que, após desafiar seu pai, o que acabou em um duelo Agni Kai, ele tem parte do rosto queimada e é exilado de sua casa, fadado a procurar o Avatar (que no momento ninguém tem notícias há 100 anos) para recuperar sua honra. O grande tema do personagem é honra, inclusive ele fala bastante sobre isso, e toda a sua jornada é sobre encontrá-la. Considerando que é uma redenção, a resposta é que ele vai encontrar a honra não se encaixando no que o Senhor do Fogo Ozai, ou a Nação do Fogo, querem dele, mas sim ao ser verdadeiro consigo mesmo, que foi o que o fez ser exilado.

A gente passa duas temporadas vendo o Zuko fazer várias besteiras. Por mais que tenhamos o ponto de vista dele, e descobrimos porque ele guarda tanto rancor, ele ainda está destruindo cidades e pessoas para alcançar o seu objetivo. Em Star Wars, vamos considerar que cada temporada é um filme. Sim, eu sei que Avatar teve muito mais chance de se desenvolver, mas é possível fazer arcos de personagens em uma trilogia de cerca de 6 horas no total.

Pensando que o livro terra (segunda temporada) é Os Últimos Jedi, podemos traçar um paralelo interessante entre Zuko e Kylo. Quando Zuko fica preso junto com Katara no final da temporada, eles têm uma conversa sobre o que a guerra tirou deles, e conseguem fazer uma conexão importante. Quando eles são salvos, Azula e o resto da Nação do Fogo chega e Zuko toma uma decisão: Ficar ao lado da sua irmã, ou seja, da Nação do Fogo. Obviamente, por ter confiado nele momentos atrás, Katara fica muito brava (com razão) e é assim que a segunda temporada termina, com cada um indo para um lado e Katara muito certa de que Zuko nunca vai mudar (e com a Nação do Fogo acreditando que Zuko matou Aang, quando na verdade Azula lhe deu um golpe fatal, mas ele não morreu).

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Agora vamos voltar para o episódio VIII. Kylo e Rey também criam uma conexão, uma até muito mais forte que Zuko e Katara (considerando toda a questão da Força). No final, depois de confiar em Kylo, Rey fica brava ao ver que ele ainda escolhe ficar do lado sombrio. O filme termina com Rey se afastando de Kylo, certa de que ele não vai mudar.

Entendeu a semelhança?

A diferença em Avatar é que começamos o livro fogo (terceira temporada) já vendo um Zuko se questionando sobre as suas escolhas. Afinal de contas, ele não só traiu a confiança da Katara, como a de seu tio Iroh (que o criou) e ele foi preso por conta dessa traição. O que no caso de Kylo a gente poderia interpretar como, mais ou menos, a relação dele com Luke (que no caso é diferente e um pouco mais tenso, considerando o passado entre os dois que vemos no mesmo filme). Zuko está a todo momento tentando se convencer de que o que ele fez foi certo, mas a medida que os episódios vão passando, a gente vai vendo que não está funcionando.

E como nós vemos que Zuko não está feliz? Porque temos cenas que mostram que aquilo tudo que ele sempre quis, a aceitação do pai e da Nação do Fogo, não é o que ele queria, não era o que ele esperava, não é algo que se alinha com os seus princípios. E só aí ele vai encarar o pai, no meio da temporada, e resolve se juntar ao Aang. É toda a metade de uma temporada feita em cima disso, que Star Wars quis resolver em 15 minutos.

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Se a intenção era redimir Kylo, por que não mostrar cenas dele tendo dúvidas, tendo que encarar sua nova posição na Primeira Ordem e como isso não era exatamente o que ele queria? Ou podemos levar para outro lado, por que não fazê-lo reviver os seus erros? Eles podiam ter relacionado a morte de Han com a de Luke de alguma forma. Sem contar que, pelo pouco que vimos da Leia, ela já sabia que usaria as suas últimas forças para tentar salvar Kylo. Por que isso não poderia ter acontecido desde o começo do filme? Eu sei que Carrie Fisher não estava mais viva e os recursos estavam reduzidos, mas com todos os poderes que a Força teve nesse filme, Leia não conseguiria mandar memórias específicas na mente de Kylo, sei lá, durante os sonhos dele, que o fizesse encarar o que ele fez? Ou sei lá, dava para manter boa parte da primeira metade do filme, mas fazer com que, depois que Kylo “morre”, ele visse o fantasma da Força de Leia, não a memória de Han. Porque aí ele não estaria conversando consigo mesmo, mas sim sendo guiado por alguém, como aconteceu com Rey antes (e é algo muito presente na própria mitologia de Star Wars).

Porque essa é a grande questão. Zuko é confrontado várias vezes pelas suas escolhas, mesmo quando ele não está errado (como o Agni Kai contra o pai). Zuko não é facilmente perdoado, ele está sempre pagando pelos seus erros, mesmo quando isso vem em forma de recompensa. Já Kylo não, porque mesmo a sua morte é revertida e o “encarar seus erros” vem com uma conversa dele com ele mesmo, algo que podia ser melhorado com elementos que já estavam naquele mesmo filme.

Não satisfeito, o roteiro ainda faz com que Rey automaticamente confie nele, mesmo depois de tudo que Kylo fez para atrapalhá-la. E nisso Avatar também dá uma opção de solução. Quando Zuko vai ajudar Aang, Katara é a última a confiar nele. Ela leva mais episódios que todos os outros membros do grupo para aceitar que agora Zuko é um aliado. É óbvio, porque ela foi a primeira a acreditar nele e Zuko deu as costas. Assim como Rey, que quis acreditar em Kylo, mas ele deu as costas para ela. Então por que Rey confia tão fácil nele? E não, a conexão da Força não é o suficiente para desenvolver isso, porque independente dessa conexão, Kylo destruiu o artefato que Rey passou o filme todo procurando, entre outras coisas. A gente não precisava de vários episódios ou momentos de Rey com dúvidas sobre Kylo, alguma hesitação já seria melhor do que o que tivemos.

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Além da diferença de idade entre os dois (Zuko é um adolescente e Kylo é um adulto), Avatar realmente dá consequências para as ações de Zuko, a história faz com que ele tenha que enfrentar o resultado de suas escolhas. Kylo, no máximo, enfrenta a suposta morte e, no final, a morte real, mas honestamente é muito fácil que uma redenção acabe apenas em uma morte, sem nenhum outro elemento de remorso ao longo do caminho (não que o arco não possa terminar em morte). Sim, Kylo sofre, mas conversar com a própria memória não parece ser “encarar os erros” quando o erro em questão é matar uma pessoa (entre outras coisas).

Eu não acho que precisemos necessariamente de um caráter punitivista nas histórias, mas sim de causa e consequência, de equivalência no que foi feito e no que vai voltar, porque se não só parece fácil. Para mim, a impressão que tive com Kylo é que, mesmo em uma galáxia muito distante, os erros do homem branco são muito mais fáceis de serem perdoados, seja pelas pessoas ao seu redor ou seja pelo roteiro do qual o personagem faz parte.

Não quero que todos os arcos de redenção seja como o de Zuko, mas o usei como exemplo porque existem paralelos entre os personagens, demonstrando que sim, mesmo que a ideia do episódio VIII não fosse (ao que parece) que Kylo tivesse redenção, dava para ter feito isso no IX de forma coerente.

Mas né… Quando eu vi que o roteirista de A Ascensão Skywalker também tinha escrito Liga da Justiça e BvS, tudo fez mais sentido, infelizmente.