Nos últimos dias a internet foi pega de surpresa pela informação de que os produtores de brinquedo teriam sido direcionados a diminuir a presença da Rey no merchandising de Star Wars sob a justificativa que “garotos não querem brinquedos com mulheres neles”. Muita gente ficou irritada com a história, reclamou que era desonesta, que existe Rey sim, que “eu até tenho uma”, “comprei em X lugar”, “bando de mimimi mentirosa”. Para outras pessoas as informações passadas por esse informante anônimo fizeram muito sentido – eu sou uma delas.

Desde o primeiro Vingadores personagens femininas vêm sendo excluídas de todo e qualquer tipo de merchandising. Sim, tem aquela UMA figura da Viúva Negra para aquelas 200 do Homem de Ferro. O mesmo aconteceu com Gamora e com Feiticeira Escarlate. Elas possuem um action figure, talvez duas ou três, mas nem de perto um número comparável aos desses  colegas masculinos. Viúva Negra foi substituída pelo Capitão América no brinquedo de uma das suas cenas mais importantes no filme. Elas também foram excluídas de camisetas, cadernos, kits de brinquedos, como se Vingadores fosse apenas Thor, Homem de Ferro, Capitão América e Gavião Arqueiro, e os Guardiões tivessem apenas Drax, Starlord, Groot e Rocket.

Elas deixam de fazer parte dos grupos que ajudaram a fundar.

A expectativa para a estréia de Star Wars era grande. Nós estávamos apreensivas e o primeiro contato com a mercadoria não foi positiva. Em kits do filme incluía-se um stoortroper qualquer mas não se incluía nem uma das personagens femininas. Isso é um problema por um punhado de razões, entre eles o fato de que partir do princípio de que meninos não vão querer brincar com bonecos de personagens femininas é limitar a imaginação e o alcance dessas crianças. É também uma maneira de continuar a perpetuar um sistema que divide brinquedos entre “de meninas” e “de meninos”, além de selecionar os brinquedos nos quais meninas vão olhar e se identificar.

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Se uma menina quer brincar de Star Wars ela vai necessariamente precisar comprar a Rey à parte? Para acabar com essa divisão binária é preciso que exista, mesmo dentro de kits de brinquedos, uma divisão mais iqualitária. Porque não substituir o Stormtrooper por Phasma? E porque Chewie e não Rey?

Rey é uma representação feminina muito importante para as meninas, mas também é para os meninos, porque mostra uma protagonista feminina sem as características que normalmente são atribuídas à elas, ela é forte, chuta bundas e é Jedi. Isso tudo sem negar que a personagem tem sentimentos. Para meninos que constantemente e vêem “o que é de menina” como tudo-que-é-rosa-e-ruim, Rey vem também como a oportunidade e quebrar essa barreira e caminhar para um momento em que mesmo se a personagem usar uma roupa rosa eles não vão se importar, porque o que importa é se divertir. Além disso Rey é uma maneira de fazer esses meninos crescerem com um referência positiva de mulher, não sexualizada e capaz de cumprir o seu próprio destino – sem precisar da ajuda constante de homens. Isso ajuda a manter uma visão positiva, não objetificada e humanizada da mulher aos olhos desse garoto.

Algum tempo depois começaram a vir os primeiros relatos de que não se achava Rey no mercado. Olhando os item da Hasbro, uma das principais fabricantes desses brinquedos, vi a Rey em diferentes momentos. Sozinha, em dupla e em alguns colecionáveis, mas a quantidade grande de conjuntos em que nem uma única personagem feminina faz parte continua lá. Isso é um problema por causa das razões já ditas nos parágrafos anteriores. Representação feminina é muito importante, principalmente para as meninas, mas também para os meninos, tá mais do que na hora do mercado se dar conta disso.

Tanto aqui no Brasil quanto lá fora várias pessoas começaram a relatar dificuldade em encontrar a Rey nas lojas. Ou ela simplesmente não estava à venda, ou o estoque havia acabado muito rápido. Esses relatos ecoam novamente no que o informante disse, que a Disney não estava preparada para o sucesso de outros personagens além de Kylo Ren. Os brinquedos da Rey existem, mas não são encontrados. Várias mulheres relataram que não conseguiam encontrar os brinquedos nas lojas físicas, as vezes só nas lojas online. Eu mesma estive em várias lojas de brinquedos e encontrei no máximo duas opções de Rey, todas pequenas, sendo vendidas unicamente na sessão de brinquedos masculinos – onde os brinquedos da linha Star Wars ficam. Essa divisão é ridícula por si só, e quando segrega o público consumidor do produto destinado à eles fica ainda mais absurda. Quem sabe dessa reflexão não sai um apelo às lojas nacionais para pararem de dividir seus brinquedos em “meninos e meninas”?

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Quando a internet se deu conta de que a Hasbro havia excluído a Rey do Monopoly de Star Wars, a empresa respondeu dizendo que ela não havia sido incluída antes para não gerar Spoilers do filme. Essa desculpa é para lá de esfarrapada, já que a própria empresa já havia soltado bonecos da personagem. Monopoly possui, tradicionalmente, de 2 à 8 jogadores mas, por ~alguma razão~ a empresa resolveu disponibilizar apenas 4 para essa edição. Percebe como a narrativa desse informante casa novamente com a realidade dos produtos no mercado? Há todo um histórico de exclusão de personagens femininas, de discurso machista e segregador, por parte da indústria de brinquedos e por parte de Hollywood, que não só alimenta como também dá base para que acreditemos que a exclusão total ou parcial da Rey das mercadorias é de propósito. Nós não estamos inventando nada, estamos apenas vendo as coisas como elas nos são apresentadas.

Não é só Rey que sofreu com a falta de representação, no entanto. A empresa Jandaia soltou uma linha inteira de cadernos de Star Wars, mas não incluiu o co-protagonista do filme, Finn. Saímos do âmbito do machismo para cair no racismo, outro tipo de problema pelo qual os merchandisings são constantemente culpados, já que estamos constantemente lidando com ou uma falta, ou o clareamento do tom de pele dos personagens. Ver o boneco do Finn nas lojas, e ver o quão importante a existência dele é, é extremamente reconfortante. Espero de verdade que o sucesso do personagem faça com que não só a indústria de brinquedos, mas Hollywood de maneira geral, se dêem conta que é preciso diversificar etnicamente os personagens dos seus produtos.

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Sempre vão ter aqueles que vão dizer que as nossas reclamações são sem fundamento, que vão nos chamar de mentirosas, de exageradas e vitimistas. Sempre, ou pelo menos até que eles se dêem conta de que enquanto eles choram porque nós apontamos os problemas de representação no mercado que eles tanto gostam, nós avançamos. Nos tornamos protagonistas e as empresas aprendem que precisam correr atrás dessa parcela, mulheres e outras minorias, se quiserem continuar aumentando o seu mercado. 😉