Nós já falamos aqui sobre Bacurau. Para quem ainda não leu a crítica, saiba: Eu amei o filme. Bacurau é muito bem feito e com muitas mensagens importantes. Pensando nisso, eu queria falar sobre um dos temas que mais me saltou aos olhos, porque não é sempre que vemos essa discussão em uma mídia desse alcance.

Bacurau fala de algo que é muito recorrente na sociedade brasileira, o famoso complexo de vira-lata, a ideia de que somos inferiores e medir nossos valores com um parâmetro dos Estados Unidos e da Europa. Além de comportamentos diários das pessoas, esse complexo também acaba sendo um reflexo de como nosso país lida com certos assuntos externos.

Antes de continuarmos, vale o aviso de spoilers.

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Durante o filme, nós conhecemos um casal de forasteiros em motos. Eles são do sudeste e passam por Bacurau, colocando um dispositivo na cidade para que o sinal de celular da região pare de funcionar. Quando eles estão saindo da cidade, vemos esses forasteiros matar dois homens de Bacurau que foram até uma fazenda entender por que os cavalos estavam a solta.

Os forasteiros chegam na casa dos estrangeiros depois de tudo. Não dá para saber ao certo, mas ao que parece, a maioria deve ser dos Estados Unidos. O líder deles nasceu na Alemanha, mas ele mesmo diz que não mora mais lá há mais de 40 anos. De qualquer forma, dá para ver que todos estão dentro de um padrão branco.

Em certo momento, os forasteiros falam que são que nem eles por serem do sul do país e os estrangeiros caem na gargalhada. Na minha opinião, essa foi uma das melhores partes do filme. Os estrangeiros falam que os brasileiros não são brancos, que eles até podem parecer, mas que os traços “depõe contra” eles. Além disso, há um momento em que eles começam a falar português e o alemão diz “Não pode falar brasileiro”, que mostra que ele pouco se importa em usar o termo correto.

Chris Doubek and Alli Willow in Bacurau (2019)

Na história do Brasil, houve um período de tentar trazer mais europeus para o nosso país, em uma tentativa de “embranquecer o povo”. Por isso muitos desses estrangeiros europeus vieram e ficaram mais no sul do país. Isso, entre outras coisas, fez com que as pessoas do sul e daqui do sudeste acreditassem, até hoje, que possuem algum tipo de vantagem, que são melhores que as outras regiões por parecerem “mais europeus”.

No sul e no sudeste do país, temos a tendência em achar que somos que nem as pessoas dos Estados Unidos da Europa e que isso nos torna superiores. Que somos “cultos” como eles, que nossa aparência é como a deles. Mas isso não é verdade e, mesmo que fosse, não mostra superioridade em nada, só revela o preconceito e racismo das pessoas dessa região.

É muito interessante a fala dos estrangeiros em dizer que os brasileiros não são brancos, e aí entra um debate que nós nem sempre estamos cientes. Sim, existem pessoas brancas no Brasil, e existe uma diferença do que é ser lido como branco aqui dentro e lá fora. Muitas pessoas lidas como brancas aqui, que carregam todos os privilégios disso, não são lidas dessa forma no contexto dos Estados Unidos.

Essa cena do filme é um tapa na cara. Você nunca vai ser lido, pelas pessoas do dito “primeiro mundo”, como igual, mesmo que você tente agir como eles e menospreze a cultura brasileira. Em Bacurau, os forasteiros nas motos não se importam em entregar uma cidade do próprio país para o divertimento de estrangeiros. Assim como, em muitos momentos, o Brasil não se importou em piorar a vida da população para entregar o que tinha para os Estados Unidos.

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Quem nunca viu aquela pessoa que diz que tudo que vem de fora é melhor, que tudo nos Estados Unidos é um paraíso, que vive comparando tudo com países europeus para colocar o Brasil para baixo? É óbvio que existem coisas aqui que devem ser criticadas, mas para essas pessoas, tudo daqui de dentro é menor e menos “culto” ou interessante do que algo dos Estados Unidos e da Europa. O complexo de vira-lata é uma expressão usada para essa tendência do brasileiro de se sentir inferior à outras nações e cultura, um complexo que é muito alimentado pela nossa sociedade.

Não me entenda mal, não há problema em consumir as coisas de qualquer lugar do mundo e sim, eu consumo muitas coisas de fora. A cultura pop que comentamos e acompanhamos vem muito dos Estados Unidos, e tá tudo bem. O problema é quando isso é sempre mais valorizado e colocado como melhor que o que nós fazemos, incluindo em uma área cultural. E esse complexo de vira-lata vai de coisas até pessoas. Ou você acha que muitas pessoas gostam do padrão de beleza europeu por puro gosto pessoal e nem um pouco influenciado pela sociedade?

Talvez uma das grandes lições de Bacurau seja que nenhum de nós será visto como “igual a eles”, de países imperialistas e considerados “melhores que o resto”. Não adianta a gente querer se dobrar à vontade desses países. O que nos resta para resistir é se unir, como as pessoas em Bacurau, porque só unidos nós conseguimos resistir à esse tipo de preconceito e tentativa de dominação.