Este texto contém spoilers de Game of Thrones.

Em Dragon Age: Origins, o personagem Alistair comenta com o protagonista que ele gosta de queijo. Talvez ele fale isso uma ou duas vezes ao longo do jogo. Caso o jogador complete só as missões principais, são 40 horas de jogo, podendo ser mais dependendo das outras missões. Ou seja, Alistair fala uma ou duas vezes, ao longo de no mínimo 40 horas, que ele gosta de queijo.

Mesmo assim, se você está familiarizado com o fandom de Dragon Age, é possível que você já tenha visto algumas brincadeiras, menções e fanfics que falem sobre o fato de Alistair gostar de queijo. David Gaider, ex escritor da Bioware e responsável por criar Alistair, comentou em suas redes sociais uma vez como isso era um detalhe que ele nunca tinha imaginado que ganharia a proporção que ganhou. O que não é um problema, é só um personagem gostando de queijo.

Outro exemplo maior, e mais significativo, é o ship entre Finn e Poe da nova trilogia de Star Wars. Uma cena sobre um casaco foi o suficiente para que o fandom colocasse o ship entre, talvez, os mais populares da nova era de Star Wars. Não é como se os filmes fizessem muito para acreditarmos que o ship fosse acontecer mesmo, mas isso não impede as inúmeras fanfics e fanarts do fandom de brilharem.

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Enquanto eu lia as análises sobre o final de Game of Thrones, eu vi muitas mulheres debatendo que a obra nunca tinha sido uma série feminista, nunca tinha dado nenhum indício de “girl power”. É verdade, Game of Thrones sempre foi uma história (incluindo os livros) com várias complicações quando pensamos em representação feminina. Mas também não dá para negar que, pensando nas obras com mais destaque de fantasia medieval, Game of Thrones é uma das únicas que deu, para muitas, personagens complexas e com tempo de tela o suficiente para nos identificarmos, pelo menos até certo ponto.

Quando fazemos análises de obras de ficção, seja como essas ou só quando falamos de algo para alguém, nós não necessariamente estamos acertando a intenção do criador da obra. Como eu falei em um dos textos de Game of Thrones, eu duvido muito que a imagem racista do “herói branco” vá ser explorada nos livros, como não foi na série, mas podemos olhar para a queda de Daenerys e entender que essa imagem é tão fraca como no final foi sua postura imperialista. Assim como inúmeras pessoas podem ver a caminhada de Sansa, mesmo com milhares de problemas, e ainda assim se identificar. Depois de todo o abuso e violência, Sansa virou a rainha do Norte.

Eu sempre soube que havia alguns problemas na representação de Arya, como ela despreza tudo que é feminino e acaba sendo recompensada por isso, de certa forma, em momentos da narrativa. Por mais que na série ela faça as pazes com sua ideia ruim do feminino, ao entender o jeito que Sansa age, no livro eu não sei tanto se caminharemos para esse lado. Mesmo assim, eu nunca consegui não me identificar com Arya e também com esse pensamento da Arya mais jovem, porque eu fui uma menina que rejeitava tudo do feminino, e em Westeros eu com certeza preferiria espadas a costura.

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Tudo isso me faz pensar que, por mais que algumas obras sejam falhas e nem falem de um assunto especificamente, o fandom muitas vezes tem o poder de criar em cima das obras, de dar outros significados. É muito importante pensarmos nas mensagens que as histórias realmente buscam passar, porque a análise crítica da mídia nos ajuda a entender várias coisas, mas isso não quer dizer que uma obra não esteja aberta a outras análises.

Acho que ainda mais quando falamos de questões de representação, como a história de Sansa ou o ship entre Poe e Finn, o fandom acaba criando e se fortalecendo ainda mais no que não parece ser tanta coisa. A falta de representação na cultura pop ainda é frequente, então o fandom consequentemente se apega ao que tem. Porém, o fato de alguém se fortalecer e se sentir representada no arco de Sansa, não quer dizer que não possa criticar como, em vários momentos, as cenas de Sansa tenham sido machistas e desnecessárias. O fato de Finn e Poe ser popular não significa que não vamos, ou não devemos, continuar criticando uma cultura pop heteronormativa.

A interpretação do fandom não pode mudar o que aconteceu na obra, nem certas mensagens que ela passa, mas em um sentido de comunidade e pessoal, o fandom consegue ressignificar alguns aspectos, ao menos em um certo momento, seja em uma fanfic ou em uma leitura específica. Não podemos esquecer que a análise é feita com a lente de quem está analisando, portanto nossas experiências pessoais e conhecimentos vão afetar as nossas leituras. É esperado que obras que alcançam muitas pessoas acabem tendo interpretações diferentes para cada um.

Infelizmente, um fandom que se propõe a valorizar as personagens femininas de Game of Thrones, por exemplo, não muda o fato de que a obra teve uma narrativa machista. Não quer dizer que, dentro do ambiente do fandom, algumas pessoas possam procurar ler alguns aspectos de outra forma, ou criar outras alternativas em cima da obra original usando as fanfics e as fanarts como ferramentas. Eu não vou negar que muito do arco da Daenerys é machista, e nem vou ignorar o significado de “o poder corrompe” que a história quis me passar, mas posso ler outras coisas aí sem ignorar o que já existe.