Este texto contém spoilers de WandaVision e do que acontece com a Wanda no MCU.

Existe uma grande diferença entre ser o protagonista e a heroína de uma história. O herói é aquele que tem ações heroicas, que segue uma bússola moral do que é certo. O protagonista é o personagem principal, mas nem sempre ele é bom. É o caso de Breaking Bad ou Death Note. Esses personagens principais são protagonistas, mas suas ações não são das melhores. De certa forma, é o que vemos acontecer em WandaVision, mas não completamente.

Nós temos algumas figuras que servem como vilões para Wanda durante a série. A principal é Agatha, a bruxa que quer roubar seus poderes. O exército também se coloca como vilão, do ponto de vista de Wanda, mesmo que em tese queira ajudar as pessoas da cidade. Mas, apesar de tudo isso, não dá para dizer que ela teve as atitudes mais heroicas durante os episódios. Ela sequestrou uma cidade inteira, controlou a mente de inúmeras pessoas que sofreram por um bom tempo. Wanda podia não saber como fez aquilo, mas ela sabia como desfazer, porque nós vimos ela romper a barreira uma vez, também conseguiu expandí-la e agiu ativamente para manter o seu mundo funcionando.

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Essas não são exatamente as atitudes de uma grande heroína. Sim, nós entendemos que a sua motivação é o luto, que Wanda estava sofrendo muito, que passou por traumas e ela não queria que ninguém se machucasse. Mas suas ações tiveram consequências complicadas, e o fato de entendermos os motivos dela não justifica automaticamente suas ações.

Além disso, no último episódio da primeira temporada, nós vemos que Wanda está estudando mais sobre magia, tentando entender toda essa coisa de ser a Feiticeira Escarlate que Agatha falou antes de ser derrotada. Tudo na cena indica que ela procura um jeito de trazer sua família de volta: Visão e os dois filhos que ela teve nessa realidade alternativa (quem sabe Pietro?). A cena toda é feita de uma maneira que dá a entender que ela está flertando com um lado mais perigoso da magia, que pode ter consequências ruins.

Diante disso, muito se falou no fandom sobre Wanda ser a nova vilã do MCU, até porque nos quadrinhos ela chega a criar uma realidade sem mutantes e realmente se torna um problema para os outros personagens. Quem já está familiarizado com as HQs, imagina que Wanda vai acabar sendo a vilã, pelo menos por um tempo. E ela seria um grande desafio para a nova geração de vingadores.

A minha pergunta é: Será que a gente precisa de Wanda como vilã?

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Independente do que aconteceu nos quadrinhos, eu acredito que Wanda como vilã pode apenas reforçar um estereótipo do audiovisual, e da ficção em geral, que não é dos melhores. Aquele da mulher que é tão poderosa, mas não consegue controlar seus poderes por conta de suas emoções e encontra sua ruína.

Nós vimos isso recentemente no cinema, com o filme da Fênix Negra, que é o clássico “mulher muito poderosa, mas que não se controla e precisa ser morta por aqueles que a amam”, mas temos outros exemplos também. Vanya, ou número 7, de The Umbrella Academy, também segue essa ideia, até por isso ela é colocada para sofrer mais que os seus irmãos. Outra personagem recente que pode ser classificada nessa categoria, mesmo que não siga a linha de superpoderes, é a própria Daenerys Targaryen de Game of Thrones. Ela pode não ter poderes mágicos (tirando uma possível resistência ao fogo), mas controla 3 dragões e, no final da série, o maior exército entre os seus adversários. Por não “se controlar”, ela precisou ser morta por Jon Snow.

Nós não vemos muita mulheres consideradas como as mais poderosas de seus respectivos universos fictícios e, quando elas aparecem, acabam caindo nesses estereótipos. Isso passa a ideia de que essas, e outras mulheres, não podem ser poderosas, porque são muito instáveis e não se controlam. Os personagens masculinos não caem nessa ideia, geralmente seus conflitos vêm de outros aspectos, como a responsabilidade de ter poderes ou um inimigo que é ainda mais forte. O maior inimigo da mulher poderosa é o seu próprio controle, que fala muito com o estereótipo da mulher louca.

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Para dar um ponto positivo para WandaVision, eu acredito sim que a narrativa de Wanda com luto e perda é melhor construída que a dos outros exemplos que eu dei. Nesse ponto, ela e Daenerys possuem muitos pontos em comum, mas a construção de Daenerys foi muito mal feita. E é aquela história de sempre: O problema não é Wanda ser muito poderosa e o luto levá-la para um caminho ruim, pode ser uma história muito poderosa e interessante, o problema é que essa personagem está inserida em um contexto de cultura pop onde isso se tornou um clichê, alimentando um estereótipo ruim para mulheres.

Então, como fazer Wanda seguir o caminho proposto, pelo menos até agora, sem se tornar um clichê? Os elementos que já foram colocados é que ela está fazendo coisas não muito boas, que muito disso é motivado pelo luto e suas dores do passado. Uma opção para essa narrativa, que aborda o mesmo tema e dá uma virada interessante, é mostrar que por mais que o luto seja difícil, e te leve a fazer coisas que machucam você mesmo e os outros, nós podemos escolher o nosso caminho a partir daí, incluindo o de superar esses obstáculos. A dor é inevitável, mas nossas escolhas de como lidar com isso estão sob nosso controle. Isso é algo que já apareceu na história de Wanda algumas vezes, incluindo em Guerra Civil. É uma boa alternativa e não cai em um estereótipo ruim, mesmo que tenha alguns aspectos em comum com ele.

Talvez Wanda nem siga qualquer caminho de ser vilã, mas se for esse o caso, seria interessante que o MCU fosse além do que o que já vimos inúmeras vezes. Wanda é uma ótima personagem e o MCU alcança muita gente, seria muito mais interessante uma história mais complexa do que o lugar comum de “a mulher é muito forte, instável e perigosa, ela não se controla e deve ser morta”.

 

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