Na nova versão de The Twilight Zone, lançada em 2019 e dirigida por Jordan Peele, os episódios, todos a sua forma, possuem narrativas bem atualizadas, que conversam com as questões sociais dos tempos de hoje. Não teria como trazer uma série tão clássica de volta, sem fazer atualizações para que ela continue sendo relevante.

Já falei aqui sobre como a série fala de masculinidade tóxica no episódio Not All Men, que é um assunto que ainda é muito necessário de ser abordado. Outro tópico que levanta ainda muita discussão, com inúmeros argumentos diferentes, é o tal do limite do humor. Até onde podemos fazer piada? Quando que a coisa é engraçada e quando ela já passou do limite? Quando se trata de piada, vale tudo?

O episódio The Comedian conta a história do comediante Samir. Ele está tentando conseguir fazer uma carreira na área de stand-up, fazendo piadas em bares e casas de show, mas por enquanto as coisas não estão indo muito bem. Fazer rir é mais difícil do que fazer alguém ficar triste e Samir percebe isso bem rápido. Porém, depois de um encontro misterioso, ele começa a fazer sucesso… Por um grande preço.

Este texto contém spoilers do episódio The Comedian de The Twilight Zone.

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Durante o episódio, Samir percebe que sempre que ele faz piada com algo específico, a coisa desaparece. Por exemplo, quando, motivado por ciúmes, faz uma série de piadas sobre o amigo da esposa, Samir descobre mais tarde que esse amigo desapareceu, mas não como se tivesse sido sequestrado e sim como se nunca tivesse existido. O problema é que o fato dele não existir faz com que sua esposa perca a carreira que ela tanto gostava. Ou melhor, que ela nunca a tenha conseguido para começo de conversa. Quando ele não faz uma piada às custas de outra pessoa, o show simplesmente não dá certo.

Ou seja, para Samir conseguir tirar risadas das pessoas, ele precisa se aproveitar da existência de alguém e, consequentemente, a condena. Ele precisa se aproveitar de outra pessoa e causa inúmeras consequências, inclusive algumas que ele nem imaginava que poderiam existir.

Acredito que The Comedian toca exatamente no que deveria ser considerado o limite do humor. A sua piada ridiculariza alguém, se aproveita da existência de alguma outra pessoa? Então talvez você deva pensar se essa piada vale tanto a pena assim, porque ela pode trazer consequências para aquela pessoa, algumas que você nem poderia imaginar que aconteceriam. Por mais que você sinta algumas dessas consequências, o peso maior foi para quem foi o alvo da piada.

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Uma coisa que a nossa sociedade ainda tem alguma dificuldade em entender é que não é por ser piada que não vá ter consequências. Durante a minha adolescência eu era essa pessoa, que acreditava que piada era piada e valia tudo. Era só uma piada, não? Mas a medida que eu fui me informando sobre as estruturas de poder e opressão da sociedade, eu entendi que uma piadinha ajuda a sustentar todo esse sistema que oprime inúmeras pessoas de várias minorias diferentes. Quando você faz piada com uma pessoa LGBTQ+, você está normalizando um comportamento que ajuda a deixar essa minoria à margem da sociedade. Sem contar que não é legal ouvir uma piada com algo que já te trouxe sofrimento por questões de preconceito.

Qual é a diferença de uma piada com pessoas negras, por exemplo, e com pessoas brancas? Por que uma delas é considerada racista, preconceituosa, e a outra não? Porque não existe uma estrutura de racismo com pessoas brancas, mas existe sim uma construção social e estrutural feita para oprimir pessoas negras. E, por mais que pareça pouco, a piada racista ajuda a fortalecer toda essa estrutura. A risada das pessoas não vale mais que o bem estar de minorias. É também interessante ver como alguns comediantes, assim como Samir, só conseguem fazer sucesso quando se aproveitam de outros.

Por isso que é interessante os comediantes que invertem a balança, que fazem piada com grupos opressores, dos quais as pessoas não costumam rir e, caso riam, não perderão nada por isso. Há também comediantes que fazem piadas focadas em características que eles próprios tenham. Eu, sendo mulher, teria uma forma completamente diferente de fazer piadas sobre mulheres (mas seria horrível, porque eu não sou boa com piadas) do que um homem. Ou ainda há formas de fazer piadas que sejam de assuntos completamente diferentes, que não envolvam a característica de alguém.

A reflexão em The Comedian é o quanto vale esse sucesso, essa risada e essa fama no stand-up. Temos inúmeros exemplos de comediantes, influenciadores e criadores de conteúdo que não levam em consideração a consequência de seus atos. Quando são confrontados com isso, se escondem atrás do escudo de “é só uma piada”. Mas não é, e por isso esse episódio é tão bom. Diante dessas discussões, cabe aos comediantes entenderem e buscarem formas não danosas de criarem as suas piadas. E se isso está “podando” a criatividade de alguém… Bem, talvez o problema seja o comediante em si, não?