Talvez a Netflix não tenha imaginado o quão certeiro seria o timing de liberar o filme O Poço, longa espanhol, em seu catálogo durante a situação atual mundial. O Poço é um filme que, além de muito bom, traz mensagens cruciais para os tempos em que vivemos hoje e que passamos nos últimos tempos.

Goreng (Ivan Massagué) entra voluntariamente em uma prisão, afim de conseguir um diploma. A prisão, conhecida como o Poço (ou el Hoyo em espanhol), é vertical, com inúmeros andares e cada um com duas pessoas. A cada mês, os prisioneiros são aleatoriamente colocados em andares diferentes. Os prisioneiros só podem levar com eles um objeto. No meio de todos os andares, há um buraco por onde desce uma plataforma com comida todos os dias. Ela fica dois minutos em cada andar e os prisioneiros precisam comer na hora, sem guardar para depois. O problema é que, como ela vem de cima para baixo, as pessoas que estão em níveis mais abaixo vão ficando com as sobras, até chegar aos andares que não recebem nenhuma comida.

Esta crítica não tem spoilers do filme.

O Poço tem uma premissa até que simples, mas que é muito bem utilizada e talvez esse seja o maior (mas não o único) mérito do filme. Com poucas locações e mudanças visuais, já que a maioria do filme se passa na prisão, seria fácil O Poço se tornar um filme monótono. Mas não é o caso, o roteiro sabe muito bem explorar as muitas possibilidades que aconteceriam nesse ambiente, que é uma fórmula perfeita para o caos.

O filme começa com um diálogo expositivo, explicando o básico daquele lugar. Goreng acorda no andar 48 e seu colega de cela, Trimagasi (Zorion Eguileor), explica que eles estão em um número bom, mesmo que o que chegue para eles já sejam as sobras de mais de 90 pessoas. O pior de tudo é que Trimagasi está certo, a situação pode ficar muito pior.

A história é pesada e não tem medo de mostrar isso. É um filme que mostra violência de várias formas, inclusive canibalismo. A questão é que O Poço não exagera em seu gore apenas pelo valor do choque, o longa sabe dosar o quanto de violência é necessária. O que não quer dizer que é pouca, então é um filme que é preciso ter algum cuidado para assistir, não só pela violência gráfica, mas pelos temas. Também aconselho que não assistam enquanto comem.

El Hoyo”, una metáfora de lucha de clases que es de las películas ...

O Poço sabe muito bem construir e manter o seu suspense ao longo de sua uma hora e meia de duração. Não só nas ações e nas atuações, que estão ótimas, mas até mesmo na trilha sonora que, mesmo quando tudo parece “bem”, deixa aquele fundo de incômodo, indicando que aquela “estabilidade” e “conforto” dos andares mais altos são frágeis e podem ser facilmente arrancadas dos prisioneiros.

Além disso, os personagens são todos muito interessantes e complexos. Nenhum deles é completamente bom ou ruim. Sim, alguns fazem coisas horríveis, mas isso nos faz pensar: O que nós faríamos se estivéssemos em uma prisão que, dependendo do mês, não receberíamos nenhuma comida? Esse questionamento interno faz com que seja possível entender certos atos que, normalmente, seriam inaceitáveis. É uma luta pela sobrevivência.

Tudo ao redor da história é tão interessante que terminamos o filme querendo saber mais. Quem criou aquela prisão? Por que é preciso responder um questionário para entrar? Ninguém sabe o que acontece lá dentro ou apenas não se importam? Sem contar todas as pontas abertas que o final deixa. Elas não são ruins e nem deixam o filme incompleto, mas sim com um gosto de “quero saber mais”. Por conta dessas possibilidades que o longa abre, muitas questões ficam bem abertas para interpretações do público, o que, dado a temática do filme, deixa todo o debate ao redor da história mais interessante e rico.

Mas então, do que o filme fala? Quais as mensagens que O Poço quer passar? Há várias formas de responder isso e muitas delas envolvem spoilers, mas vamos manter as interpretações na zona segura de spoilers.

Comida e alimentação é algo básico para a vida de qualquer pessoa, não é à toa que o problema da fome que muitas regiões enfrentam é algo preocupante e desumano. Apesar do nosso mundo ter recursos o suficiente para que todos possam se alimentar, há pessoas que precisam viver com quase nada, passando fome. E toda a sua perspectiva das coisas ao seu redor muda quando não se pode suprir as necessidades básicas.

No entendiste? La explicación del final de "El Hoyo", la película ...

Algumas pessoas passam fome por conta da divisão desigual da nossa sociedade capitalista. Enquanto uma minoria detém boa parte das riquezas do mundo, o resto precisa ir dividindo o que sobrou. Portanto, as pessoas de classes mais baixas acabam ficando com os farelos, quando sobra alguma coisa. Quem consegue mais recursos são aqueles com maior poder aquisitivo e a maneira de consegui-lo também não é igual.

O filme não é sutil quanto a essa metáfora. Em dado momento, no começo do filme, quando Goreng tenta conversar com os prisioneiros dos outros andares para racionarem comida, assim todos poderão comer, Trimagasi pergunta se ele é um comunista. Isso é um aceno quase cômico para a nossa realidade, onde qualquer preocupação com o bem estar das outras pessoas se torna “atitude de comunista”. Mas a falta de sutileza quanto a essas mensagens não tiram o mérito de O Poço. Ele mostra a realidade de uma forma figurada e brutal, mas o sistema cruel não está muito longe do que o que nós vivemos. Sim, algumas pessoas estão confortáveis nos andares mais acima, mas quantas não estão recebendo nada?

Como que conseguimos uma mudança do sistema quando a maioria das pessoas na prisão está preocupada só com o seu umbigo? Quando se jogam na comida quando ela aparece, mijando e cuspindo nas plataformas abaixo e não deixando qualquer farelo para os outros? Mesmo com a possibilidade de um dia estar no primeiro andar e depois no andar 100, a empatia não parece aumentar. O filme não dá a solução, mas dá muito material para pensarmos sobre o assunto.

Mas não é só a crítica ao nosso sistema econômico que se relaciona com o nosso cotidiano. Caso as pessoas no Poço trabalhassem pensando no coletivo, as pessoas nos andares mais baixos não teriam que morrer ou matar o colega de cela na esperança de se alimentar de carne humana. Sim, todos lá são livres para comer o quanto quiserem em dois minutos, assim como são livres para tentar fazer qualquer coisa para sobreviver, mas quanto mais individualista a atitude, pior é para o coletivo. E isso é algo que precisamos pensar nesses últimos dias, não? Talvez os mais jovens sejam sim mais resistentes ao corona vírus, mas ignorar a necessidade da quarentena pode fazer com que aumentemos o alcance da epidemia, transmitindo a doença para pessoas em grupos de risco. Para o bem do coletivo, é preciso abrir mão de certas “liberdades” individuais. Quanto de empatia temos pelas pessoas ao nosso redor?

O Poço é um filme pesado em vários sentidos, mas um dos melhores suspenses que tivemos nos últimos tempos. Muito atual, bem feito e interessante, é uma sugestão para quem gosta de filmes desse gênero com esse tipo de temática.

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Escritora, roteirista, blogueira e freelancer. Determination ♡

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