Tio Iroh é um personagem complicado, pelo menos para mim. Eu amo o mundo de Avatar desde a primeira vez que assisti. Mas o tio de Zuko nunca me desceu muito bem.

Antes mesmo de começar a minha análise quero dizer que sou uma adulta analisando um desenho feito para crianças. Então sim, eu vou levantar questões que jamais passariam pela cabeça dos pequenos fãs de Avatar. Avatar, tanto Korra quanto Aang, é um dos meus desenhos favoritos. Quero lembrá-los também que toda obra, por mais fã que nós sejamos, não está livre de críticas. A gente pode aproveitar e se divertir com um desenho, e ainda assim encontrar problemas dentro dele.

Para mim, Tio Iroh nunca teve o impacto que ele teve em tantos dos meus amigos fãs de Avatar. Pelo contrário, quando ele apareceu em Korra eu tive que fazer uma pesquisa para me lembrar quem ele era. Agora, que estou reassistindo a Lenda de Aang, me pego questionando algumas das coisas que já me incomodaram no personagem e na maneira com que ele foi representado no desenho desde a primeira vez que assisti. 

Tio Iroh traumatizou uma cidade inteira, recusou a posição de líder da Nação do Fogo (que poderia ter usado para acabar com a guerra), foi um general que lutou do lado erradíssimo da guerra e, ao meu ver, teve pouca ou nenhuma consequência sob as suas escolhas de vida. E, ainda assim, a série o apresenta apenas como o bom velhinho, a figura paterna de Zuko, e um “espírito livre” que só quer vender chá. 

Se você não quer se aprofundar no personagem de Iroh, e nos problemas que eu vejo na construção dele e de seu arco narrativo, lembre-se que você não precisa ler este texto. Avatar é o lugar de conforto para muitas pessoas e, ainda mais nos tempos difíceis pelos quais passamos, você não é obrigado a mudar isso.

Tio Iroh e o cerco à Ba Sing Se

Durante a segunta temporada de Avatar – A Lenda de Aang, somos apresentados à Ba sing Se, a capital do reino da terra. Uma cidade murada, majestosa, rica e que nunca havia caído frente à Nação do Fogo. Foi lá que Tio Iroh teve a sua grande derrota, mesmo depois de segurar o cerco a cidade por 600 dias. Ele deixa o cerco por causa da morte de seu filho, em outro campo de batalha. Ba Sing Sei se torna então a grande vergonha da carreira militar de Iroh.

A guerra dos cem anos deixou Ba Sing Sei muito fragilizada, o que acabou favorecendo a criação de uma sociedade secreta que visava impedir que o rei, e a população, soubesse da guerra que acontecia no exterior. Instaurou-se uma aura de medo, fazendo com que os moradores de Ba Sing Se desconfiassem um dos outros e se submetessem ao regime autoritário de silêncio. Regime esse que era mantido à base de controle mental. Só coisas bad vibes.

Nunca me saiu da cabeça que Tio Iroh, por mais amável que fosse, era um general aposentado do lado errado da guerra. Existe em Avatar uma dualidade muito clara sobre qual é o lado certo e qual é o errado. A Nação do Fogo está errada, as outras nações são vítimas dessa guerra. 

Quando re-assisti aos episódios de Ba Sing Se, Tio Iroh se tornou ainda menos bacana para mim. E isso se deu através das pequenas decisões que a trama toma, mas também sobre momentos mais importantes narrativamente.

 Em Tales of Ba Sing Se, o episódio com histórias diferentes para todos os personagens, o conto de Tio Iroh centra-se ao redor da perda de seu filho durante a guerra. 

Nele, Tio Iroh encontra uma criança chorando na rua e canta uma música sobre um soldadinho. “Leaves from the Vine” se tornou um símbolo do personagem e da sua filosofia. E sim, eu choro toda vez que vejo ele chorando pelo filho. 

Mas este momento de encontro entre Tio Iroh e a criança, apesar de ser construído como um momento de ternura,  é também o encontro entre um general da Nação do Fogo, dentro da cidade que ele traumatizou, cantando uma música sobre um garoto soldado, para uma criança que provavelmente tem uma vida difícil graças ao militarismo imperialista do qual ele fez parte. Esse encontro, aos meus olhos, é de mal gosto. Especialmente porque a frase mais emotiva da música é “little soldier boy”.

É nos episódios de Ba Sing Se que a falta de empatia de Tio Iroh pelos que sofreram nas mãos da sua família fica mais evidente. 

Jet foi o líder de um grupo de garotos soldados. Ele fez a primeira aparição ainda no livro um, e torna a aparecer quando chega à Ba Sing Se no mesmo barco que Iroh e Zuko. Mais para frente, Jet descobre que Iroh e Zuko são da Nação do Fogo – o que ameaça a presença dos dois na cidade. Iroh assiste enquanto Jet é levado preso pelos guardas, e nada faz para impedir que isso aconteça. Muito pelo contrário. 

O destino de Jet é ser preso, torturado, hipnotizado e ser usado contra os seus próprios amigos, contra a nova vida que ele vinha tentando construir para ele e seus companheiros. 

No fim, Jet acaba morrendo e talvez nada disso tivesse acontecido se Iroh tivesse assumido responsabilidade pelas suas ações. O destino de Jet funciona como um tipo de redenção pela morte, mas Jet nunca deixou de ser um adolescente transtornado pela violência que viu na infância. E não houve redenção, porque Tio Iroh tornou isso impossível. Jet não teve direito à um recomeço. Mas como ficará claro mais tarde, só Tio Iroh pode recomeçar apesar dos seus crimes de guerra.

O destino de Jet foi um tanto surpreendente pra mim quando assistia pela segunda vez. Quando meu marido, que ainda não tinha assistido, falou sobre o que Iroh havia feito contra Jet eu tinha certeza que, em algum momento dos próximos episódios, ele iria resgatar ou resolver isso de alguma maneira. Mas não, Jet nem passa pela cabeça de Iroh novamente.

Isso mostra novamente com quem está a empatia de Iroh – apenas com seu jovem sobrinho. Jet, por mais que ele tenha cometido os crimes que cometeu, foi uma criança que viu sua família ser destruída pela Nação do Fogo, toda a raiva que ele carregava está sim ligada ao passado de Iroh. E essa falta de empatia de Iroh, e até certo ponto, da própria série é só uma das vezes em que alguém que teve a vida destruída pela Nação do Fogo e decide se vingar de forma violenta tem um final punitivista. 

Iroh, o Bodoso. Hama, a Psicopata.

Um dos episódios que mais me marcou durante toda a série foi The Puppet Master, onde Katara encontra Hama, uma mestre dobradora de água do sul. Ela quer passar o conhecimento que adquiriu ao longo dos anos para Katara, mas esse conhecimento acaba sendo terrível, um poder que ela usa para fazer a sua vingança contra a Nação do Fogo. Uma vingança violenta. 

Hama teve uma vida terrivelmente difícil. Ela cresceu com sua vila sendo atacada pela Nação do Fogo, viu seus colegas dobradores sucumbirem à guerra e lutou até o último momento, mas acabou aprisionada. A prisão, que usava caixas de metal suspensas no ar e mantinha os dobradores longe de qualquer tipo de líquido, era por si só uma tortura diária. Lá, depois de aparentemente anos presa, ela aprendeu que existe água em todo lugar – inclusive correndo nas veias dos seus inimigos. Com o poder da lua cheia ela treinou, até que aprendeu a dobrar sangue e conseguiu escapar.

O conceito de dobrar sangue é uma coisa que me dá arrepios por um monte de razões físicas, mas também emocionais. Perder o livre arbítrio para alguém que força o seu poder através de violência e controle é um pesadelo. Não ter liberdade para se expressar livremente, viver livremente e nem… beber água livremente.

Eu obviamente não apoio o método de Hama, mas o episódio, assim como muito na série, deixa extremamente claro quem está errado alí. A série deixa muito claro que Hama é um monstro capaz da maior atrocidade e, por isso, ela vai passar o resto de sua vida aprisionada pelos crimes que cometeu. 

Isso não senta bem comigo. Principalmente porque se Iroh, que foi príncipe da Nação do Fogo, general de guerra e cúmplice de genocídios tem o direito à uma redenção confortável e uma aposentadoria vendendo chá em Ba Sing Se, porque a mulher vítima das atrocidades das quais ele foi cúmplice é imediatamente condenada à prisão perpétua?

O episódio faz questão ressaltar esse punitivismo à Hama com um dos guardas dizendo que ela vai passar o resto da vida numa prisão. Assim como Jet, Hama não tem uma segunda chance.

O que Hama fez está certo? Eu nunca vou achar que vingança é algo que vai trazer algo positivo pro mundo, muito menos uma que é violenta fisicamente. Mas honestamente? Essa é uma mulher que passou a maior parte da sua vida aprisionada e torturada pela Nação do Fogo, não me surpreende que ela não saiba focar a sua raiva de uma maneira mais saudável. 

Estou usando o caso de Hama para mostrar como a série é incrivelmente parcial quando se trata de Iroh. E isso é uma pena – nos dois casos. 

Ver Hama entender porque seus atos são terríveis e, quem sabe junto com a vila da Nação do Fogo, aprender a lidar melhor com o passado seria algo muito mais construtivo – e definitivamente mais positivo para a série, já que passaria uma mensagem importante e amarraria com o tema do Tio Iroh.

Se a série tivesse dado à Hama a oportunidade que Iroh teve seria especialmente importante porque Hama é a única mentora disponível para Katara, a única que tem a história e o conhecimento ancestral que ela tanto almeja. Katara pode ter aprendido a dobrar com o mestre Pakku, mas Hama é a história ancestral viva da qual Katara faz parte.

No caso de Iroh, ele é um personagem que podia ter passado por uma transformação tão maior e mais forte – fortalecendo inclusive o tema da série ao redor de Zuko.

Iroh acompanha Zuko desde o começo, e fica claro desde o começo que ele mesmo possui uma visão diferente da guerra que seu companheiros da Nação do Fogo. Mas a passividade de Iroh frente ao mal maior que é representado pela sua família é frustrante e, aos meus olhos, impede que o personagem tenha ele próprio um arco de redenção à altura.

Zuko é um adolescente traumatizado por uma criação doutrinadora e violenta, mas Iroh é um homem adulto, que aproveitou durante anos as glórias de ser príncipe/general do lado mais forte da guerra e que parece entender muito bem que a Guerra não é algo bom. Ajudar Zuko a não se tornar um tirano só não me parece suficiente para redimi-lo. E cara, eu sinto muito, mas perder um filho não faz de ninguém automaticamente uma pessoa melhor. 

A Passividade Violenta de Tio Iroh

No desenho, a morte do filho de Iroh é retratada como o momento de mudança do personagem. É alí que ele se desilude com a guerra e deixa o seu posto como general da Nação do Fogo. Muitos vêm a devoção de Iroh ao Zuko como o seu caminho de redenção. Mas será que é isso mesmo?

Iroh é escrito como um mentor passivo. As transformações pelas quais ele mesmo passa aconteceram no passado, e assim são apresentadas. Não há durante as três temporadas nenhuma mudança forte no seu modo de ver o mundo ou sua personalidade. Mesmo quando ele desiste de Zuko nós descobrimos que ele nunca desistiu de verdade. 

Ele é um personagem extremamente sábio. Tendo nascido na família mais poderosa do mundo, ele teve acesso à diferentes culturas e conhecimentos. Ele inclusive utiliza conhecimentos de dobra de ar para aprimorar a sua dobra de fogo. Através das informações que vemos ao longo da história fica claro que há nele, desde cedo, o potencial para o bem. A história faz questão de mostrar que Iroh sempre viu a vida como ela é, somos folhas que caem de um galho. Mas ao contrastarmos isso com histórico que ele carrega como parte importante da Nação do Fogo… Essa filosofia fica um tanto passiva. 

Como irmão mais velho, Iroh era o verdadeiro herdeiro da Nação do Fogo. Ele podia ter assumido o seu lugar de direito, ou ao menos tentado assumir, mas a série opta por dizer que ele está em luto e por isso não age. Ele não quer e nunca quis poder. Mas esse poder que ele recusa é o poder que poderia de fato ter posto fim à guerra que, dentre outras monstruosidades, tirou a vida de seu filho. Esse papel passivo frente à injustiças me pesam mais do que a figura paternal, fofa e divertida do personagem. 

Como príncipe da Nação do Fogo e General da guerra, Iroh não pode ser isentado da sua participação em algumas das grandes atrocidades que a guerra fez. 

Os conhecimentos que ele acumulou ao longo dos anos, inclusive sobre a dobra do ar que ele utilizou para se aprimorar, foram destruídos pela Nação do Fogo. O que a Nação do Fogo fez com os dobradores de ar foi genocídio e epstemicídio. Eles também aniquilaram os dobradores de água do sul, destruindo mais uma cultura (que Katara passa as três temporadas tentando recuperar).

Olha, eu sei que a gente tá falando de um desenho infantil. Mas como eu disse lá em cima, eu sou adulta e meus olhos veem o universo como uma adulta. Os termos (genocídio e epistemicídio) podem soar absurdos, mas se eu e você somos adultos, então eles são adequados. Além disso os questionamentos que eu levanto aqui são do ponto de vista da construção do personagem frente à mensagem que a série quer passar. Mas vou falar mais sobre isso mais tarde.

Animações infantis tendem a usar uma suavidade na hora de tratar temas pesados, o que eu acho absolutamente correto – ninguém precisa ficar pensando em genocídio quando se tem apenas 8 anos. Mas Aang é o último mestre do ar porque, bom, todos os outros foram assassinados pela Nação do Fogo. E, ainda assim, sabendo que toda a cultura da sociedade da qual Aang faz parte foi destruída com a ajuda direta ou indireta da passividade de Iroh, a série mostra o personagem como sendo um homem sábio, sem questionar como ele conseguiu toda essa sabedoria e como ele poderia estar ajudando a reconstruí-la.

Se a sabedoria não é dividida, ela é destruída. 

Durante todas as temporadas é sabido que o Time Avatar está procurando mestres que possam ensinar, principalmente ao Aang, os conhecimentos necessários para se tornar o Avatar completo. Sokka passa episódios inteiros sofrendo para achar um mapa para a Nação do Fogo. Katara quer saber mais sobre dobra de água e seus ancestrais. Todas essas necessidades são coisas que Iroh, de uma maneiro ou de outra, poderia fornecer. 

Ele precisa pegar a mão do Sokka e guiá-los até o quarto do Rei da Nação do Fogo? Claro que não. Mas a série parece não se dar conta que, se a intenção era realmente mostrar que Iroh estava arrependido de tudo que fez e queria ajudar Zuko a não se tornar mais um tirano… Então talvez tivesse sido interessante mostrar isso de uma maneira mais efetiva. 

Em diferentes ocasiões Iroh ajuda Zuko no seu plano para capturar o Avatar. Chega um momento que a filosofia de “somos só uma folha flutuando na espuma do mar” tem um limite. 

Sabendo que sua nação destruiu sociedades inteiras, apagando legados ancestrais e dizimando pessoas, talvez você esperaria que essa pessoa arrependida fizesse algo mais ativo. Se não tentasse parar o avanço de maneira mais efetiva do que ajudar o sobrinho, então que pelo menos ajudasse a reconstruir o conhecimento que ele ajudou a destruir – e do qual vem aproveitando durante toda a sua vida.

Mas a série não mostra isso. Se ele passa algum conhecimento, é para Zuko. O que é ótimo. Mas quando pensamos no geral, ele destruiu a vida de muito mais pessoas do que apenas uma. Sim, uma pequena mudança aqui pode gerar uma grande mudança lá na frente. E sim, Iroh é um figura importantíssima para a mudança pela qual Zuko passa. Mas Avatar é um universo punitivista. E, ainda assim, Iroh nunca foi punido pelos horrores que fez e dos quais foi cúmplice. 

E teria sido incrível ver Iroh entender que ser uma folha na espuma do mar é bom, mas que quando você participou da mudança na direção das águas, só ajudar a empurrar uma folha na direção contrária não é o suficiente. 

Conclusão

Avatar é uma obra fechada, então obviamente não existe muito que possa ser feito agora, e nem era esse o objetivo do texto. Mas como muitas das coisas que nós consumimos que vem dos Estados Unidos ou da Europa, existe um background às vezes quase imperceptível de imperialismo. E Avatar não foge dessa lógica.

Tio Iroh é a representação do imperialista arrependido, mas cujo arrependimento e empatia vão só até onde é confortável para ele. Assumir a responsabilidade de todas as merdas da guerra com as quais ele foi conivente geraria muito trabalho. Eu acho inclusive que é bem possível que os pontos que levantei aqui nem tenham sido pontos questionados dentro da sala de roteiristas. Talvez porque optou-se por deixá-los fora, já que a série visa o público infanto-juvenil e, como disse antes, ninguém precisa ter dez anos e pensar sobre genocídio. Mas talvez porque quando estamos tão imersos dentro de uma cultura não notamos alguns dos pontos que formam um “normal” que não é tão bacana assim. 

Apontar essas questões não quer dizer que Avatar é ruim, não. Eu ainda adoro a série e inclusive continuo terminando de re-assistí-la, mas ao olhar para Iroh e para o arco de seu personagem durante a série, foi impossível não notar essas questões. Foi impossível também não pensar em como são pequenos detalhes que podem ter um grande impacto quando se olha para o mundo como um todo – e mensagem que está sendo passada para ele.

Existem diversos outros pontos interessantes para se discutir Avatar, alguns talvez menos desconcertantes que Tio Iroh, mas por alguma razão é a história violenta dele, que é escondida atrás de chás e mensagens bonitas, que mais me incomoda neste momento. Talvez porque imagino que, daqui alguns anos, vamos estar lotados de Tios Irohs querendo falar frases bonitas sem lidar com as consequências das suas escolhas em tempos como os nossos.

Sobre o Autor

Roteirista com uma tendência em transformar qualquer documentário sobre abacate em uma space-opera feminista.

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