As vezes eu sinto que a cultura pop já chegou, ou está chegando, num ponto de virada. Se ela fosse um roteiro de filme, estaria chegando no final do primeiro ato, no ponto de virada. A partir daqui a nossa heroína (a Cultura Pop) começa efetivamente a se aventurar por águas não conhecidas, inicia a sua jornada. Neste cenário, Jogador Nº1 é uma mistura de “recusa do chamado” e festa de despedida.

Assim como acontece no livro (que eu nunca terminei, disclaimer), Jogador Nº1 é uma grande homenagem à Cultura Pop da década de 80 (e 90 e um pouco da 70 também). Filmes, livros, animes que marcaram a infância de diferentes gerações. Mesmo que você não tenha crescido durante a década de 80, é bem provável que tenha consumido uma ou dez das obras homenageadas no filme/livro. O problema com o filme, a sua grande falha, é que ele não é nem de perto tão memorável quanto os filmes que homenageia.

Com as mudanças que nós temos visto nos últimos anos, Jogador Nº1 acaba caindo num lugar de nostalgia que mesmo Stranger Things consegue fugir: a fantasia masculina e branca.

Veja bem, eu não estou dizendo que mulheres, pessoas não-brancas ou pessoas da comunidade LGBT não se identifiquem com as referências, que não possam se entreter com o filme – eu tenho conexão afetiva com as referências, e eu realmente me diverti assistindo ao filme.

Apesar da história de Jogador Nº1 não ser exatamente ofensiva no que tange a representação além do padrão branco/masculino (ela cai mais para preguiçosa mesmo), no fundo o filme é sobre a jornada de um garoto que quer ficar rico, descobre que para ficar rico tem que vencer uma corporação, fica rico e ganha a garota no final. Art3mis, o par romântico de Wade, é a quintessência da mulher que Ernest Cline descreve no seu poema Nerd Porn Auteur, assim como Wade é o nerd cool guy que Ernest acredita ser: ele é tão legal que não se importa com a aparência de Art3mis/Sam no mundo real (ela tem uma mancha de nascença sobre o olho esquerdo) e faz questão de dizer que ele a ama apesar disso.

Como o filme dá pouco, ou nenhum, espaço para o desenvolvimento de seus personagens, a única conexão real que Jogador Nº1 permite ao público é através de suas referências e homenagens. Aliás, no melhor estilo The Big Bang Theory, o filme entrega referências em diálogos como se fossem punchlines de uma piada que nunca foi construída.

Apesar de todas as referências, apesar da ação bem elaborada, do 3D bem feito, das luzes e de todas as cores, Jogador Nº1 se confirma como um filme esquecível. Seu grande mérito segue sendo ter conseguido Steven Spielberg para a direção. Spielberg, que por si só é uma referência ambulante da época homenageada pelo filme, entrega um longa que consegue equilibrar referências e história, sem alienar nem os que talvez não possuam todas as referências ou não conheçam o livro. Um bom filme, mas que falha em fazer algo que vá além da narrativa oitentista.

Se os roteiristas, e o próprio diretor, tivessem se permitido escrever algo que fosse mais parecido com 2018, seja narrativamente ou na construção dos personagens, Jogador Nº1 tivesse conseguido entregar um filme com a sinceridade emocional dos trabalhos mais famosos de Spielberg. Apesar da mensagem de “amigos que você faz na internet, também são amigos reais” ou “você não precisa ficar sozinho”, o que falta ao filme é coração. As mensagens ficam abarrotadas num plot que parece desnecessariamente complicado, sufocadas pela falta de desenvolvimento dos personagens.

No fim, o que falta à Jogador Nº1 é isso, acreditar de verdade naquilo que quer passar – mas fazer isso lembrando que não estamos em 1989. Talvez Jogador Nº1 seja a representação perfeita de para onde a Cultura Pop não deve ir: agarrar-se ao passado, esquecendo de inserir um significado maior, forçando uma nostalgia vazia que logo será substituída pela próxima tendência.

Sobre o Autor

Roteirista com uma tendência em transformar qualquer documentário sobre abacate em uma space-opera feminista.

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