Uma das primeiras séries lançadas em 2020, Drácula da Netflix, fez com que muitos comentassem sobre os episódios nas redes sociais. Em especial, o tão polêmico episódio três, o último dessa nova adaptação. Drácula foi feito por Steven Moffat e Mark Gatiss, juntando a história já muito conhecida de Bram Stoker com alguns elementos novos.

Queria começar dizendo que a série, de maneira geral, não é ruim. Apesar dos problemas, é bem possível aproveitar os dois primeiros episódios e se divertir. Já o terceiro… Bem, vamos falar dele no texto.

Pensando nos dois primeiros episódios, é uma série divertida e que adiciona algumas coisas muito interessantes no mito do Drácula, em especial Agatha, que é um dos pontos altos da série. Outro acerto é como a grande temática  são os questionamentos sobre as fraquezas de Drácula. Por que ele tem medo de sol? Por que ele teme a cruz? Acho que chegamos em um ponto de adaptações dessa obra que sair mais da curva da história torna a adaptação mais interessante. Nós já vimos Drácula de inúmeras formas, então todas essas mudanças de história tornaram a série da Netflix mais interessante.

Não acredito que o roteiro seja sempre bom, mas pelo menos durante os dois primeiros episódios da série, as adaptações e o fator brega, comum de várias histórias de vampiro, tornam a experiência divertida. O começo da construção desse novo Drácula também é bem bacana e combina com a história contada. Até aqui, é uma série que eu recomendaria para fãs de vampiros.

Dito tudo isso, acredito que o último episódio evidencia todos os problemas que a série já tinha, piorando essas questões e incluindo aspectos bem problemáticos.

A partir daqui, este texto terá spoilers de Drácula.

O problema não é necessariamente as decisões do terceiro episódio.

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Calma, respira, deixa eu explicar.

Eu não acho um problema Drácula ir para o presente, conhecer uma parente de Agatha e nem que exista um instituto que saiba da existência de vampiros. Acredito que são elementos completamente possíveis de se colocar em uma história dessas. Mostrar Drácula, uma criatura tão antiga, se adaptando aos tempos modernos pode ser interessante e até divertido.

O problema é como essas decisões foram executadas.

Eu vou entrar em algumas delas de maneira mais pontual, mas vamos pensar na divisão dos episódios até o momento. O primeiro funcionava em dois tempos, presente e passado (com flashbacks), o que era traçado bem o suficiente para o público entender e acompanhar a história. O segundo parece ser a mesma coisa, até descobrirmos que na verdade Agatha está dentro do transe de ter seu sangue sugado por Drácula. Já no terceiro temos só uma linha do tempo, mas que pula tanto entre o tempo presente que parece que tudo só foi apressado para terminar naquele mesmo episódio.

Se o grande ponto era Drácula no presente, por que nós vimos tanto de Jonathan Harker? Não é como se ele ou Mina fossem personagens principais dessa versão da história, eles poderiam ter aparecido bem menos, dando espaço para a série trabalhar a ideia de “Drácula no presente” de maneira que fizesse muito mais sentido. Porque é toda uma mudança na série que precisa de mais do que vimos para ser bem estabelecida.

Dava até para ter colocado a parte de Drácula no presente e explorado o seu novo encontro com Zoe, mas quando o episódio começa a correr no tempo presente… Parece que estamos só de passagem em recortes da história, o que não ajuda em nada a construir algo que faça sentido.

Eu adoraria ter visto os elementos apresentados pela série de maneira mais consistentes, infelizmente não foi isso que tivemos.

Lucy continua sofrendo mais do que precisa

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Há anos, escrevi um texto em um blog meu sobre os aspectos machistas da obra de Bram Stoker. O livro Drácula tem modelos muito específicos de papéis para mulheres na sociedade, como elas se encaixam nessas posições e o que cada uma delas merece por conta disso. Enquanto Mina era a mulher angelical que, mesmo passível de ser seduzida “pelo mal” (como toda a mulher, de acordo com o livro), por ela ter força de manter a sua pureza e ficar ao lado de seu marido, ela é salva, mesmo que não sem punições.

Já Lucy era a representação da mulher promíscua, que ia contra a posição ideal do patriarcado da época. Lucy tinha vários pretendentes, ela se divertida em estar envolvida com mais de um homem, em usar a sua sensualidade para conseguir o que queria. Portanto, ela se transforma em vampira e é morta por homens que antes queriam ficar com ela. A mulher saiu do controle, o homem deve detê-la.

Drácula de Bram Stoker é uma obra de 1897. Apesar de eu achar que uma obra não precisa ter sua avaliação parada no tempo, eu também entendo perfeitamente o teor machista dessa história. Ainda é uma obra que eu consigo aproveitar e gostar, mesmo com todos esses aspectos.

O problema é que, quando fazemos uma adaptação de Drácula para uma série em 2020, nós precisamos sim identificar esse preconceito na escrita de Bram Stoker e adaptar de maneira mais responsável. Quer colocar Lucy com uma mulher com vários encontros no Tinder? Ótimo, mas não a faça ser punida por isso. Não tem nenhum problema em fazer uma história grotesca onde todos se ferram por conta de seu contato com vampiros, mas tudo está no jeito como isso é feito.

Lucy é provavelmente a personagem da série com o destino mais grotesco e dolorido. Talvez a gente argumente que Zoe não tem um final feliz também, mas Zoe tem um final muito mais “pacífico”, enquanto Lucy fica em dor até o último momento. Vou falar de Zoe em breve, mas antes vamos nos focar em Lucy.

Essa Lucy atual continua sendo uma mulher vaidosa e que se encontra com vários homens, que vai de livre e espontânea vontade se relacionar com Drácula. A mudança aqui, além dos tempos atuais, é que ela é uma mulher negra. Quando Lucy morre, ela é cremada, mas por já não ser mais mortal, ela vive cada segundo de suas queimaduras de uma forma horrível. Quando ela vai se encontrar com Drácula de novo, ela vê o seu reflexo como era antes, mas na verdade está toda queimada.

Quando Lucy se toca disso, a cena fica ainda mais horrível, porque a personagem está vivendo um dos maiores pesadelos que ela tinha em vida. Nenhuma morte de personagem pesou tanto na dor como a de Lucy, justo a mulher negra lida como promíscua. Além de que ela é a única mulher negra com relevância na série. Então além de manter o tom machista da obra de Bram Stoker, mesmo que adaptada para o presente, a série da Netflix consegue ainda adicionar o fator racismo. Não tem problema que os personagens ao redor de Drácula sofram, mas precisa mesmo ser justo esses fatores explorados, em uma mulher negra? Que no final ela só acha a “paz” quando morre?

A cena é digna de história de terror, uma pena que feita por homens brancos padrão que não tem ideia do preconceito que perpetuam com ela.

O câncer de Zoe

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Zoe Van Helsing, da mesma família de Agatha, como o nome indica, revela em certo momento da série que ela está morrendo de câncer. Antes de começar falando desse problema, eu tenho um questionamento:

POR QUE ZOE BEBEU O SANGUE DO DRÁCULA?

Eu sei que vocês vão me dizer que isso serviu para que ela pudesse conversar com Agatha, já que as “memórias” dela estavam no sangue de Drácula, porque ele se alimentou dela no passado. E eu até acho interessante a questão de sangue passar conhecimento de uma maneira sobrenatural. O problema é que Zoe tinha 0 motivos para beber o sangue. O que eu imaginei é que, por Drácula ser imortal, ela tivesse bebido achando que aquilo a curaria do câncer. A série podia ter feito com que isso não fosse verdade e ela se enganou, mas a questão do sangue nunca volta a ser um assunto, apenas quando Zoe precisa ter os conhecimentos de Agatha.

E se Drácula sabia que isso não a ajudaria, ou não mudaria nada, por que ele passou o sangue para Zoe? Por que o roteirista pediu que ele o ajudasse com a história? Há tantas construções dentro da cultura pop do que beber sangue de vampiro faz com humanos… Os produtores da série podiam ter usado qualquer uma delas.

Enfim, voltando para o câncer. Não é um tropo incomum que vampiros não gostem de “sangue com doença” porque aquilo seria morte e faria mal para eles. Aparentemente, a única crença em que Drácula acredita que é verdade (vou falar disso mais tarde). O problema é que isso cria uma visão muito negativa, e ofensiva, de pessoas que tenham algum tipo de doença crônica. Também, como falado em um texto do The Mary Sue, o sangue com câncer produz muito mais células vivas do que o normal, que se torna o problema para a pessoa que está com câncer. Então por que exatamente Drácula seria afetado de maneira ruim ao beber o sangue de Zoe? Eu entenderia se ela estivesse fazendo quimioterapia, que o tratamento afetasse Drácula de alguma forma, mas Zoe falou nesse episódio que ela está há um tempo sem, então…?

É mais uma representação ruim de um assunto delicado, onde o cuidado foi deixado de lado para que a história seguisse em frente.

Drácula tem medo de morrer

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E eu não acho isso uma decisão ruim, mesmo. Um dos temas mais fortes em histórias de vampiros é a imortalidade, The Hunger gira em torno principalmente desse assunto. Não é novo, mas é um elemento que nem todo mundo viu em Drácula. Como o maior vampiro de todos tem medo de morrer? Como ele se considera um covarde, a ponto de criar tantas crenças de coisas que podem matá-lo?

Sem contar que até dá uma explicação interessante para quem sempre se perguntou: Por que o sol? Por que o alho? Por que uma estaca de madeira em um coração que já está morto? Obviamente, sendo criaturas sobrenaturais, nós aceitamos que não faça sentido de forma mais científica, mas às vezes procurar esse sentido pode ser um exercício interessante.

O final de Drácula poderia ter funcionado se ele não acontecesse no mesmo episódio em que ele chega no presente. Porque o que mais faltou aqui foi tempo. Espaço para desenvolver um Drácula que realmente acreditaria no que Zoe disse, que aceitaria o seu medo e sucumbiria a ele, acreditando que seu tempo tinha chegado. Porque o Drácula que eu tinha assistido até aquele momento era um cara que, ao descobrir que não podia morrer, faria a festa entre os mortais, inclusive de dia.

Esse Drácula até podia começar a ter suas crises existenciais quando soubesse que sol, água benta e entrar em uma casa sem ser convidado não o afetava. Até porque minutos antes ele tinha visto a própria Lucy lidar com a imortalidade e não querê-la por, em parte, achar que não era digna dela (por não ser bonita, o que também é um problema nesse caso, mas continuando…). Faria sentido que confrontar aquela realidade o fizesse mudar de ideia, e de forma de agir, em algum tempo, mas não dois segundos depois dele descobrir aquela verdade.

Ele é um vampiro que viveu séculos, pode ter até perdido alguns no mar, mas viveu muito com uma convicção na cabeça para que uma cena resolvesse seus questionamentos sobre a imortalidade, ainda mais ele sendo um Drácula tão convencido de seus poderes quanto esse que vimos sendo construído em três episódios de uma hora e meia.

Uma temporada a mais teria resolvido esse problema. Zoe podia não morrer, Drácula seguia com sua existência imortal e em mais alguns episódios nós o veríamos mudado com as descobertas. E se o único espaço que os produtores tinham era uma temporada de três episódio, então que o ritmo fosse construído melhor. Precisamos mesmo ver Jonathan e Mina? E por mais que eu adore o segundo episódio, precisamos de tanto tempo no barco? Se a ideia era criar uma reviravolta tão profunda em um personagem de séculos sobre a sua imortalidade, isso não devia ter sido construído desde antes? Será que mostrar primeiro Drácula no futuro, e o resto em flashbacks, não seria melhor?

O que eu sei dizer com certeza é que esse final, feito desse jeito, não funcionou.

O niilismo em Drácula

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Sinto uma vontade muito forte da série de ser niilista, mostrar como as coisas na verdade não representam nada, não tem qualquer significado. Pelo menos, sinto muito essa vontade no terceiro episódio, porque os dois primeiros não são sobre isso, e essa construção também se torna um problema.

Abordar niilismo é algo complexo, exatamente por seu significado. Se o que temos são três episódios, acredito que o tema devesse ter sido abordado um pouco mais, não só no final da história. Porque no terceiro episódio sim, o niilismo está em todo o lugar.

Qual o ponto de Zoe fazer tanto, se esta morrendo? Qual é o ponto de ser imortal se não for bela? Qual é o ponto de viver se nada é capaz de matar alguém? Todas essas perguntas, na série, parecem ter uma resposta: Nada. Não existe significado nessas existências, é só assim mesmo, as coisas são cruéis, mesmo para vampiros muito antigos que não encontram mais sentido em serem imortais. Eu nem concordo com essa visão das coisas, mas é uma mensagem possível de se passar, ainda mais em uma história que está falando de seres imortais.

Mas será que precisamos mesmo levar ao nada duas personagens femininas, uma delas negra e punida por ser promíscua? Precisamos reduzir uma investigadora inteligente a um “veneno” para seres imortais? Porque a construção que Agatha teve, que também não foi sem defeitos, faltou em Zoe. Eu gosto que elas não sejam iguais, mas a construção de Zoe se perdeu na bagunça do terceiro episódio. E precisamos mesmo esquecer tudo o que construímos desse Drácula por questões niilistas?

Porque por mais que a existência dos personagens na série sejam sobre “nada”, a construção da história em si não pode ser. Escrever uma história passando uma mensagem niilista significa construir os elementos de forma que eles passem essa mensagem, mas por si só o processo não pode ser sobre um grande nada.

Por essas e outras, apesar de ter me divertido com a série, acho que ela falha ao concluir em um lugar tão sem sentido para o resto da história. Eu tenho falado para as pessoas verem só os dois primeiros episódios, porque é o que eu acho que tem mais pontos positivos e aproveitáveis. Não sei se Drácula terá uma segunda temporada, mas também não sei se teria um por quê, considerando o final que tivemos.