A Parábola do Semeador é um livro escrito por Octavia Butler, lançado no Brasil pela editora Morro Branco. É uma história de ficção científica que acompanha Lauren, a protagonista, que vive em um país distópico não muito distante de hoje. Os Estados Unidos está sofrendo uma crise ambiental e econômica. Depois de um incêndio na cidade em que Lauren mora, ela precisa mudar sua vida para sobreviver, enquanto uma nova fé começa a surgir.

Este texto não é uma crítica, e sim uma análise de alguns aspectos do livro com alguns leves spoilers. Lembrando também que esse texto é feito baseado apenas no primeiro livro.

Ler Octavia Butler é sempre estar disposto a tomar um soco no estômago. Apesar da escrita sempre ser bem fluida e, ao menos para mim, dar uma sensação de “não quero largar até saber tudo o que acontece”, também é uma leitura difícil, de certa forma. Até agora, todos os livros que li da Octavia Butler possuem temas pesados, a autora não tem medo de mostrar assuntos complicados e ela costuma fazer isso muito bem.

A Parábola do Semeador é um livro de ficção científica, uma história que se passa em uma distopia, mas pode ser um dos livros mais assustadores que eu já li, passando na frente de várias histórias de terror. Ainda mais considerando o nosso contexto de Brasil em 2019, onde temos um governo fascista no poder que está cada vez mais destruindo o país. A Parábola do Semeador assusta por falar de coisas que existem, completamente possíveis e que estão muito próximas do leitor.

A história do livro começa em 2024, apenas cinco anos no futuro (comparado com agora), e continua até 2027. Pode parecer pouco, ou até exagerado, mas não é difícil ler A Parábola do Semeador e traçar todos os paralelos com o que estamos vendo hoje. O mundo está passando por inúmeras crises, não só no Brasil, por causa de governos que tomam medidas absurdas para o povo e por consequências também do capitalismo, mais preocupado em destruir o meio ambiente para plantar soja do que com o ar que vamos respirar. Não respiramos dinheiro, mas as pessoas que têm concentração de renda não se importam com isso. As pessoas que tem alguma condição se escondem atrás de muros, as que não tem ficam a mercê da sorte.

A sensação de desespero passada na maior parte do livro, de que o futuro só nos reserva caos e desgraça, é real. Não é um exagero, inúmeras pessoas tem perdido o emprego, estão lutando para manter as contas e dívidas em dia. Não que as coisas estivessem lindas e perfeitas antes, mas com o tanto de cortes que estamos vendo atualmente, muitos estão sendo afetados com isso. As coisas estão piorando.

Sem contar o que talvez seja um dos aspectos mais alarmantes, a crise ambiental. Eu tinha pensado em escrever este texto semana passada e acabei deixando para depois, mas é quase irônico como essa semana mesmo os paulistas virão o dia virar noite por causa das queimadas na Amazônia. Assim como Lauren, mesmo sabendo que essas coisas acontecem, muitas pessoas apenas confrontam a realidade da crise ambiental quando ela bate na sua porta.

Há inúmeros cientistas falando sobre o aquecimento global, como algo precisa ser feito rápido, se não teremos inúmeros problemas em um futuro próximo. Ler A Parábola do Semeador era como ver o que podíamos virar, o que está diante da nossa sociedade e até o que já enfrentamos hoje. Passar fome, viver sem condições e ser vítima de violência não é algo só de agora, está acontecendo há muito tempo na humanidade.

Pensando por esse lado, A Parábola do Semeador pode não ser apenas sobre o medo do futuro, porque há elementos na história que não vemos hoje mesmo, mas também sobre o medo do presente. É aquele terror de todos os dias que nós ignoramos, fingimos que não vemos, mas que nessa história é mostrada bem diante dos nossos olhos, não tem como fingir que não está acontecendo.

Outro aspecto que assusta na história é a impotência. Não há muito o que os personagens possam fazer que não seja sobreviver com o pouco que eles têm. De forma alguma quero dizer que a população não tem poder de mudar as coisas, vemos movimentos sociais e manifestações públicas com alguma frequência. Mas acho que todos se relacionam com o sentimento: A cada notícia ruim, parece que podemos fazer cada vez menos coisas. Parece que só podemos tentar sobreviver, mas que sempre estaremos reféns de quem dita as regras, enquanto destroem e queimam tudo.

Em A Parábola do Semeador, pessoas perdem tudo o que tem, ter dinheiro é difícil, pagar tudo o que é necessário é uma luta, lugares inteiros são queimados, crianças são sequestradas, mulheres estupradas, violência é algo constante, pessoas morrem, a polícia não é confiável… Não há nada que eu tenha dito aqui que é novo. No livro, a fé de Lauren diz com frequência que Deus é mudança. Mas quais serão as mudanças daqui para frente na nossa história? E será que só vamos perceber que tem algo muito errado quando alguém grande o suficiente se incomodar?