Quando Capitão América – O Primeiro Vingador estreou o filme trouxe a personagem que se tornaria a primeira heroína da Marvel à ganhar uma história só dela, mas a gente ainda não sabia disso. Peggy Carter foi apresentada como um oficial da inteligência britânica que não aceitava que o machismo a coloca-se em nenhum lugar fora aquele no qual ela queria estar – a linha de combate.

O que me chamou atenção na personagem é que além de interesse romântico do protagonista, Peggy era uma personagem complexa. Ela era pronta para a ação, era mais qualificada que Steve antes e depois do soro, ela era mais confiante que o Capitão, ela tinha sentimentos e se sentia atraída pelo Capitão e o filme não à punia por nada disso. Esse combo, especialmente numa personagem feminina, era de uma relevância tremenda.

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Acho que parte dessa “permissividade” que o filme dá à Peggy vem também do fato de que desde o começo o Capitão é mostrado como um personagem sensível. Não há julgamento nem do personagem masculino, nem do feminino. E de muitas maneiras esse equilíbrio ajuda a firmar terreno para o desenvolvimento tanto de Peggy quanto de Steve.

Com o sucesso que a personagem fez entre os fãs, a Marvel concedeu à Peggy uma série de curtas e, com o sucesso dos curtas, Peggy Carter ganhou sua própria série na televisão. A primeira heroína da Marvel a ter uma série solo. A primeira heroína da Marvel à ter qualquer coisa solo. Peggy mostrou à Marvel, e aos outros estúdios, que há toda uma demanda por personagens femininas em filmes de super-heróis e que, principalmente, há uma demanda por protagonismo, abrindo caminho para Jessica Jones e Supergirl.

agent carter - feminismEm Agent Carter vimos Peggy lutar contra a Hydra e contra o machismo institucionalizado, sem nunca perder de vista que o valor que ela tinha dependia apenas dela própria, e de mais ninguém. O final da primeira temporada, em que Peggy é a grande heroína mas é um homem que fica com as glórias conversou com muitas de nós, mulheres, que tivemos créditos por trabalhos e realizações tomados por homens menos capazes. É a história da Peggy, é a história das mulheres.

O desenvolvimento da personagem durante a primeira temporada, em que ela ainda lida com o luto, é das coisas mais graciosas e bem trabalhadas. Peggy está triste e decepcionada, mas é desse sentimento que ela também tira forças para se provar a mulher independente que ela já sabia que era. Ela assume o risco de trabalhar quase como uma agente dupla, ela não desiste de lutar pela justiça mesmo quando a justiça está contra ela. E, por fim, ver como ela se despede do último pedacinho de Steve é ver o modo como ela se liberta dessa amarra emocional.

Captura de Tela 2016-05-13 às 00.21.02Peggy mostrou que amizade entre mulheres é possível, mas sem deixar de ter uma vilã feminina nas segunda temporada. Whitney Frost teve espaço para se desenvolver, se deixar consumir e para nos mostrar o seu lado humano. Foi interessante descobrir que a maldade de Frost vinha de um lugar semelhante da onde vinha a perseverança de Peggy – do silenciamento, das amarras que a sociedade impõe às mulheres. Essa decisão de construção de personagem, e a escolha por dar esse espaço à vilã para se desenvolver, acabou uma diversidade de personalidades femininas que vai muito além do clichê da femme fatale.

pm9rqvoqdqzc5vl3diziAgent Carter trouxe também um dos personagens masculinos mais divertidos e interessantes que o universo dos quadrinhos já nos mostrou, Jarvis. Muito além do mordomo dos Stark, que eventualmente seria a inspiração para o computador de Tony, Jarvis era um homem sensível que não fugia de suas emoções e que cuidava de sua esposa tanto quanto ela cuidava dele. Um amigo dedicado com quem Carter podia sempre contar. Uma representação para lá de única quando falamos de Hollywood, Jarvis foi, talvez, a representação masculina mais positiva que a Marvel já construiu.

1989_Peggy_CarterQuando O Soldado Invernal saiu eu me lembro de ficar chateada ao ver Peggy na cama alternando entre momentos de lucidez e esquecimento. Eu não acho que eles um dia mostrariam um herói masculino dessa maneira, mas tudo bem. Em Vingadores – Era de Ultron tivemos um gostinho do que seria Peggy mais velha, depois de ter criado a Shield. Mas o que fica da Peggy no cinema é a conexão que ela tinha com o Capitão América, e isso não a diminui de maneira nenhuma.

Em Guerra Civil, eu chorei em silêncio durante o enterro de Peggy, eu não sabia que seria também um enterro quase simbólico da personagem como um todo (e pelo modo como a segunda temporada terminou, eles também não sabiam). Mas ao mesmo tempo essa cena ajudou a estabelecer o que Peggy deixa no MCU, algo que vai além do seu protagonismo (já tão importante). Olhando o arco de personagem do Capitão América como um todo, Peggy foi a mentora de Steve em sua jornada de herói. Desde O Primeiro Vingador é em Peggy que Steve confia, e é ela que ela procura quando está perdido. Seja olhando a sua foto, seja indo visitá-la, seja através da voz de Sharon. Peggy nunca foi só a namorada para Steve, ela sempre foi alguém em quem se espelhar. Uma mulher assumindo o posto de mentor durante a jornada de um herói é algo bastante difícil de se ver. Mais uma vez, Peggy se mantém incrível.

O que me deixa triste com o fim da série é que uma personagem tão querida e tão complexa vai aos poucos perder a relevância dentro do MCU. No momento em que estamos hoje, com o primeiro filme de Super-Heroína ainda sem atriz confirmada, Peggy era a certeza de que nós éramos, também protagonistas dentro desse universo gigante que a Marvel criou.

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Há um movimento na internet para que a Netflix resgate a série do cancelamento. Apesar de achar que isso vai ser difícil de acontecer, seria ótimo ver Peggy mais uma vez. De ver a série ser tão inclusiva, tanto em etnia quanto em sexualidade, quanto deveria ser e ter a sensação de fechamento que a história de uma personagem tão importante merece. Agent Carter serviu para alinhar alguns detalhes do MCU, assim como Agents of Shield o faz de tempos em tempos, mas acabou não revelando aquilo que tantos de nós gostaríamos de ver: a fundação da Shield. Como Carter e Howard se uniram e levantaram a Shield, como fizeram isso sem notar que a Hydra se escondia entre eles. Como Carter encarou o peso ainda maior de ser uma das fundadoras de uma organização tão gigante como a Shield. Como ela transicionou de agente em campo, para o trabalho mais político e burocrático. Tem tanta história para ser contada que talvez a renovação precisasse ser de mais umas duas ou três temporadas.

Acho que parte do cancelamento de Agent Carter vem do momento no qual o MCU está hoje. Cada vez mais deixando para trás os elementos criados por Joss Whedon, e que ajudaram a sedimentar a franquia, com a Shield oficialmente apagada dos cinemas, fica difícil achar um lugar para uma série que se passa no passado, sobre o começo de uma organização que nem existe mais. Se esse for realmente o caso, uma pena que se sinta a necessidade de apagar uma personagem tão importante para o MCU ir em frente.

Mesmo que a série não seja salva pela Netflix, ela deixa uma sensação gostosa de que vimos o quanto uma personagem feminina pode crescer. Do carinho que ela pode ganhar dos fãs, e toda a capacidade que ela tem de ser uma personagem inspiradora. Pra mim talvez a frase mais impactante de Carter seja aquela que define tão bem a sensação que fica com o cancelamento. Não interessa o que os outros pensam, nós sabemos o valor de Peggy.

Obrigada por tudo, Peggy. E boa sorte. <3

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