Acho que muitas pessoas concordam que essas últimas temporadas de Game of Thrones deixaram a desejar em vários aspectos. Talvez, um dos aspectos que mais incomodou parte do público, tenha sido a forma que os arcos de personagens foram lidados, principalmente no final.

Há muitos aspectos que podemos discutir, vários personagens que foram mal usados e arcos inteiros prejudicados. Dorne talvez tenha sido o maior exemplo disso, um núcleo tão bom nos livros e que se transformou em um dos mais odiados na adaptação, devido a inúmeros erros que foram feitos.

Aqui nós vamos falar de cinco personagens que, no meu entendimento, foram os que mais sofreram com a falta de cuidado do roteiro com seus respectivos arcos. Mas não foram os únicos, inclusive menção honrosa para Cersei Lannister e Yara Greyjoy, que acabaram sendo deixadas de lado e seus arcos sofreram com isso. Foquei mais naqueles que apareceram na última temporada de Game of Thrones, porque talvez tenham sido os episódios mais gritantes nesse aspecto.

Os personagens não estão em nenhuma ordem específica. Este texto contém spoilers.

Daenerys Targaryen

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Quem leu as minhas críticas dos episódios de Game of Thrones sabe que, não só Daenerys era uma das personagens que eu mais gostava, como eu sou contra como o arco dela se desenvolveu, ainda mais nesse final. Vou fazer um texto falando especificamente dela nos próximos dias, mas não tinha como não incluí-la nessa lista.

Daenerys podia até acreditar que estava fazendo o bem, e em alguns momentos ela acerta, mas Daenerys sempre teve o aspecto fogo e sangue, o lado conquistador e tirano, o lado dragão. Essa dualidade na personagem, o dilema entre ser diplomata ou mais uma “Targaryen louca”, era um aspecto que sempre enriqueceu seu arco. Porém, quando Game of Thrones escolheu usar apenas seis episódios para mostrar que ela não era “tão salvadora assim”, a personagem parou de fazer sentido. Na temporada passada ela dizia que não seria rainha das cinzas, mas em alguns episódios essa ideia muda bem rápido. Sim, ela queimou muitos inimigos antes, mas vários outros Targaryen considerados grandiosos também. Sem contar que Game of Thrones faz parecer que, apesar das perdas, o que foi a gota d’água foi Jon não concordar com ela.

Game of Thrones sempre foi conhecida como uma fantasia que não estipulava, de maneira óbvia, o bem e o mal. Mas, quando vimos Daenerys ser pintada como a “rainha louca” nessa última temporada, o roteiro queria deixar de maneira tão óbvia que Daenerys era malvada, que ela era a pior pessoa de Westeros, que a série conseguiu descaracterizar a própria forma de contar histórias.

Daenerys tem muitas falhas, incluindo o aspecto de salvadora branca que só foi falado no último episódio (e não exatamente dessa forma), mas ela era uma mulher que subiu até o poder, que por boa parte de seu arco queria sim fazer a coisa certa (ou pelo menos o que considerava certo), mas tudo foi acelerado em prol de fazê-la uma mulher horrível, oposto ao homem bondoso, Jon Snow. O arco em si da rainha louca já é um problema, mas se era isso que seria tratado, então ele devia ter sido feito de forma menos repentina.

Jaime Lannister

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Jaime também nunca foi a melhor pessoa do mundo, inclusive muito pelo contrário. Apesar de nos ser apresentado, no começo, como o cavaleiro na armadura brilhante, nós descobrimos bem rápido que ele é uma pessoa arrogante, que não vê nenhum problema em jogar crianças de janelas. Ele é o personagem na série que mostrava que títulos e aparência não significam muito, um dos personagens que fazia Game of Thrones subverter os aspectos da fantasia.

Na terceira temporada, vemos que Jaime não é apenas um regicida arrogante, que ele de fato se importa com seus votos de cavaleiro, ele se importa em defender as pessoas que precisam dele, mas foi forçado em um papel que não era justo. Ao conhecer Brienne, toda a sua visão do que é ser um cavaleiro vai melhorando e mudando, que também tem a ver com ele perder a mão que usava para lutar.

Toda a mudança de Jaime também era ilustrada no quanto ele escolhia se afastar de Cersei, não só fisicamente, mas emocionalmente. Era perceber que aquele narcisismo, ilustrado nos dois através do incesto, só estava destruindo ambos. Apesar disso, não é ruim que ele tenha voltado para Porto Real e morrido com Cersei, até porque sempre foi martelado na história como eles tinham nascido juntos e iam morrer juntos.

O problema foi Jaime não ter tido essa quebra emocional, foi o arco dele de redenção terminar em ele voltar para Cersei, não porque sente que é seu dever impedir sua irmã de se afundar, ou de cortar qualquer coisa que ainda reste, mas porque quer protegê-la como se nada até agora tivesse acontecido. Isso é ilustrado muito bem quando ele diz que não se importar com ninguém em Westeros, apenas com ela, sendo que isso é mentira e trai toda a construção do personagem. Ele virou o regicida exatamente porque matou Aerys para impedí-lo de destruir Porto Real, porque se importava com as pessoas. Mas isso foi deixado completamente de lado.

Bran Stark

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Quando falo de arcos injustiçados, não é só no aspecto de que o personagem teve um final ruim, mas também sobre finais que não fazem sentido com o que foi construído até aquele momento. Esse é o caso de Bran Stark. Desde o começo, sua história era sobre conseguir o que queria, só que não da maneira que queria. Bran queria viver aventuras, e consegue, só que para isso precisa perder os movimentos das pernas e fugir de Winterfell.

Nós sempre soubemos que Bran era um personagem importante, por mais que ele tenha sumido durante uma temporada inteira. É dele o primeiro capítulo dos livros, ele é o único Stark que controla seu dom de warg, ele é um dos personagens mais próximos da história mágica de Westeros e, consequentemente, uma peça fundamental para derrotar o rei da Noite. Bran se torna o corvo de três olhos, uma das entidades mais poderosas de Westeros, que vê tudo: Passado, presente e futuro.

Seu dom foi muito mal usado nos últimos episódios. Ele vê várias coisas, mas não parece fazer nada em relação a isso. Esse é o problema de ter personagens muito poderosos, com magias que narrativamente desafiam vários conflitos. Por mais que o rei da Noite quisesse Bran, ele não faz nada durante a batalha. Vemos que ele entra nos corvos, mas não sabemos até agora para que.

Não satisfeitos, os roteiristas decidem que ele é a melhor opção para reinar Westeros, sendo que o próprio Bran já tinha falado que não poderia ser Senhor de Winterfell e que não tinha interesse nessas questões, porque não era mais o “Bran de verdade”. Porém, de repente, ele aceita ser rei de Westeros, porque aparentemente sempre soube que chegaria nesse ponto. O arco de Bran sempre foi no aspecto mais mágico da história, não político, e isso foi indicado em diálogos do próprio personagem inúmeras vezes. Por isso sua coroação é tão repentina. Chocar por chocar porque acontece algo inesperado é fácil, mas a graça de Game of Thrones era que o choque fazia sentido. Aqui, não fez.

Jon Snow

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Eu nem sou a maior defensora do Jon Snow, mas não dá para negar que ele é um dos personagens mais importantes de Game of Thrones. O fato de um personagem tão importante ter um arco tão mal cuidado é preocupante, e isso aparece na série, principalmente no final de Jon.

Assim como Ned e Robb, Jon busca ser um homem justo em um mundo injusto. Tanto Ned quanto Robb entendem isso da pior maneira possível, pagando pelos seus “erros” com a vida. Jon segue um caminho parecido. Ao tentar fazer o que acredita ser certo, ele é morto pelos seus companheiros da Patrulha da Noite. Porém, ao contrário de seu pai (tio) e seu irmão (primo), Jon Snow é trazido de volta por Melisandre, através da magia do Senhor da Luz. Pode até não ter sido essa entidade específica, mas alguma força mágica fez um morto levantar, e nesse caso não era um Walker.

Game of Thrones deixou bem estabelecido que os que voltam dos mortos estão diferentes, mas também que voltam por um propósito. Beric Dondarrion voltava perdendo partes da memória, mas fugiu do mundo dos mortos inúmeras vezes até enfrentar o rei da Noite. Assim como Bran, aqui estamos em um aspecto mais mágico de Game of Thrones. O Senho da Luz, R’hllor, sempre foi colocado como oposto ao rei da Noite. É seguro afirmar que esse era o intuito de Jon voltar dos mortos, ter alguma participação nesse ponto da história.

Porém, o que vimos foi um Jon Snow bem inútil nessa última temporada, que só serviu para matar Daenerys. Nós poderíamos argumentar que esse era o propósito dele voltar, mas ele também voltou do mesmo jeito, cometendo praticamente os mesmos erros? Então por que trazê-lo de volta? E toda a sua origem de ser Targaryen, no final das contas serviu para que? O arco de Jon sempre esteve muito próximo do rei da Noite, ganhando um caráter mais político só no final, mas nenhum desses dois aspectos funcionam bem na última temporada. Sem contar que, depois de tudo, ele volta para o ponto de partida. Parece que o personagem não mudou e não aprendeu quase nada na jornada.

Rei da Noite

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Desde o começo de Game of Thrones, nós temos uma certeza: O inverno está chegando. Enquanto as outras casas se preocupam com as políticas de Westeros, os Stark sempre se lembram de que os mortos são uma ameaça real, e que eles podem chegar a qualquer momento. Por mais que Game of Thrones seja, como o nome indica, o jogo dos tronos, nós sempre entendemos que o Rei da Noite era a grande ameaça.

Por causa disso, sempre ouvimos inúmeras profecias de Azor Ahai, entre outros nomes. O príncipe prometido, aquele que destruiria o rei da Noite. Vários sinais indicariam a sua chegada: o cometa vermelho, o nascimento entre sal e fumaça, empunhar a espada flamejante… Muitas teorias foram feitas e, querendo ou não, Daenerys e Jon pareciam se encaixar mais. No final das contas, quem matou o rei da Noite foi Arya.

Nós sabemos que profecias em Game of Thrones não são bem o que parecem, e tudo bem. O problema é que, quando o rei da Noite chegou, Arya o matou e nada mais foi dito sobre uma profecia que todos falaram. Além disso, não houve grandes perdas na tal pior batalha de Westeros, então o rei da Noite, no final das contas, não parece uma ameaça tão grande assim.

Do que adiantou saber a origem dos Walkers? Foi legal saber que o rei da Noite queria acabar com a memória do mundo, mas… No final das contas, a batalha foi tão esquisita que pareceu fácil, sem muito preço, sem tantas consequências. Isso porque o rei da Noite sempre foi visto como a maior ameaça, que fez vários exércitos se unirem contra o mal maior. Talvez a ideia fosse mostrar que ele não era, que profecias não funcionam, etc. Mas não foi isso que vimos, foi todo um dos pontos mais importantes de Game of Thrones, tanto que estava na primeira cena, ser deixado de lado.