Comecei, há algum tempo, a ler alguns livros de The Witcher, em parte por causa do lançamento da série da Netflix, mas também porque, depois de analisar tanto o jogo, eu tive vontade de pegar o material original e ver se é verdade que, de acordo com alguns fãs, tem que ler o livro para entender os problemas dos jogos. Eu ainda não concordo com isso, mesmo antes de ler os livros, porque cada obra existe de maneira separada, mas aqui estou dando uma chance de análise para o trabalho original.

Caso você ainda não tenha visto, eu já fiz uma análise dos acontecimentos do primeiro livro. Assim como a primeira análise, este texto terá spoilers de A Espada do Destino, mas não da trama inteira, apenas dos pontos que achei relevante serem levantados. Também acho válido fazer um aviso de gatilho aqui, porque vou tratar de temas como assédio, que aparecem no livro.

Gostaria de começar comentando que, ao contrário do primeiro livro, eu tenho a impressão que as diferentes histórias que acontecem em A Espada do Destino são mais bem amarradas. Conhecendo também os acontecimentos do jogo, é legal que A Espada do Destino apresenta pontos que vão ser relevantes no futuro, mais do que no primeiro livro.

Geralt é um personagem muito complicado, porque ele não parece ter tanta complexidade quanto outros protagonistas. Porém, em certos momentos aqui, dá para ver mais de quem é Geralt neste livro, além de suas reações ao que o que acontece ao redor dele. Acho que muito disso se dá porque em A Espada do Destino, finalmente conhecemos Ciri. Toda a parte da história dela parece mostrar muito mais de Geralt para o leitor.

Por enquanto, a relação dos dois não me chama a atenção de uma forma negativa. Geralt não é a melhor figura paterna e Ciri é uma criança complicada, mas ainda assim uma criança. Apesar dos problemas que o livro inteiro parece sofrer, a relação deles talvez seja o que eu possa dizer que valeu mais a pena de ler esse livro.

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Por outro lado, eu não consigo me importar com quase ninguém que aparece na história. Tirando o arco final de Cintra, que realmente faz um trabalho melhor em conectar o leitor à história, o resto não me causou nada (talvez raiva de alguns absurdos, mas que eu vou falar daqui a pouco). Os diálogos não são sempre dos melhores também, porque muito fica em nível raso.

Dito isso, The Witcher é um livro que sempre tenta me lembrar que é uma fantasia medieval que se agarra aos clichês mais batidos e desnecessários. Apesar de eu achar que no primeiro livro isso foi pior, aqui também há momentos de revirar os olhos. De maneira geral, eu não senti o livro tão problemático em quantidade quanto o primeiro, onde as mulheres eram os monstros que enganavam e os homens aqueles dignos de redenção. Não que isso não aconteça em A Espada do Destino, mas acredito que aconteça menos que em O Último Desejo.

No começo do livro, conhecemos o personagem Três Gralhas, que anda acompanhado de duas guerreiras que mal falam, mas o livro faz questão de dizer como elas são bonitas e atraentes. Mesmo que também seja citado o quanto elas são fortes, a função delas é serem as companheiras atraentes que, ao responderem por que estão com o Três Gralhas, elas respondem que é porque “ele é formoso”.

Apesar de, no final do livro, Jaskier diminuir muito esse tipo de discurso, no começo ele insiste em falar de como as feiticeiras são ruins e relacionando isso com “mulheres serão sempre mulheres”. Eu sei bem que ninguém no universo de The Witcher confia muito em feiticeiras, mas há inúmeras mulheres que não são, por isso acaba sendo misógina essa ligação que ele faz.

Nessa primeira história do livro, há também todo um arco de Geralt, Jaskier, Yennefer e outros guerreiros estarem caçando um dragão em nome do rei. Há muita discussão sobre o que fazer, se eles quebram o acordo ou não, mas obviamente o grande alvo das críticas é Yennefer. De acordo com vários dos guerreiros em questão, era melhor a “época deles” onde mulheres não se metiam nesses assuntos. Essa cena toda inclui homens objetificando a bunda dela e falando de Yennefer se aproveitar da situação ao se “meter no meio das pernas dos guerreiros”.

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Na história, é falado como feiticeiras se tornam estéreis e o livro já deu a entender algumas vezes que Yennefer gostaria de ser mãe. Sabendo disso, o feiticeiro Dorregaray, que está acompanhando os guerreiros, também reclama da presença de Yennefer, dizendo que ela devia gastar seu tempo dando a luz à crianças e não falando bobagens. Obviamente a frase já é machista em si, presumindo o lugar da mulher, mas é especialmente cruel tendo em vista o histórico da personagem quanto a esse assunto.

Quando o grupo volta a discutir como lidar com o dragão, para impedir que Geralt e os outros aliados interfiram na questão, alguns dos guerreiros prendem Yennefer, rasgam a blusa dela para deixar os seios a mostra, assediam a personagem e a deixam ali para o resto do grupo “usar depois”.

Nenhuma dessas ações é tratada com a delicadeza necessária, os personagens nunca respondem por seus atos machistas e tudo isso passa como cotidiano, sem qualquer reflexão, nem mesmo de Geralt ou Yennefer. Até aqui, vocês podem me dizer que, apesar de Jaskier fazer alguns comentários machistas, a maioria dessas ações são de personagens que são vilões ou traem Geralt em algum momento, portanto pessoas que não são consideradas boas. Mas piora. A passagem para mim mais absurda e inacreditável vem de Jaskier, que é sempre mostrado na história como um aliado. O seu grande “defeito” é ele ser mulherengo, mas é encarado mais como um alívio cômico do que um problema.

Quando eles estão presos pelos guerreiros, Jaskier começa a reclamar que é tudo culpa de Yennefer. Ele está revoltado porque, segundo ele, os inimigos vão cortar a garganta dele e de Geralt, enquanto o único “perigo que ela corre” é ser violada, como se fosse algo menor. Ele não termina o próximo raciocínio, mas fica óbvio o que ele queria dizer, porque ele começa a falar “o que na idade dela…” como se Yennefer tivesse que ficar agradecida por ser estuprada, já que ninguém mais se interessaria por ela de outra forma.

Isso é, até agora, a pior passagem dos dois livros de The Witcher e acontece vinda de um personagem que devia ser um aliado, alguém para as pessoas gostarem, engraçado e, no máximo, inconveniente. Diminuir a violência contra a mulher, menosprezando a possibilidade do estupro, e colocando isso como algo que Yennefer devia agradecer é algo que não há explicação. Não há reflexão, análise nem importância, Jaskier joga o comentário e é esperado que o leitor aceite ou até ache engraçado. O livro em nenhum momento se dá ao trabalho de mostrar o absurdo que isso é. Geralt até reclama que Jaskier não para de falar, mas fica por isso mesmo. Nem a própria Yennefer reage como se tivesse ficado muito ofendida, apenas como se aquela fosse mais uma das bobagens que Jaskier fala.

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Essa primeira história do livro é a pior, mas há momentos também dignos de nota no resto de A Espada do Destino. Como toda a passagem entre Geralt e Innstred sendo possessivos em relação a Yennefer. Considerando o que a saga já fez, essa parte podia ter sido bem pior. Mas ainda assim os dois homens que supostamente amam ela não escutam a vontade dela de “não querer escolher”. E não me entenda errado, se ela prometeu fidelidade e descumpriu, ela estaria errada mesmo, mas ao invés deles duelarem entre si e ignorarem o que Yennefer diz, eles poderiam ter tomado outras decisões como adultos: Se afastar de Yennefer, confrontá-la em alguma cena, desistir do romance…

Ao invés disso, eles resolvem que vão decidir quem vai ficar com ela “como homens”, que é um duelo até que um deles morra. No final das contas, Geralt desiste, mas toda essa passagem, para mim, funciona como uma perpetuação de masculinidade tóxica desnecessária.

Há também a história da sereia e do príncipe que querem se casar, mas acabam brigando porque nenhum deles “sacrifica o suficiente pelo amor”, o que já é uma romantização bem errada de relacionamentos tóxicos. A sereia, assim como muitas outras mulheres do livro, são apresentadas para o leitor em primeiro lugar pela sua aparência. Mais especificamente, pelos seios. Eu não estou brincando, a primeira coisa que sabemos de algumas personagens femininas são como os seios são bonitos e eu não entendo por que isso continua a ser relevante. Ainda mais considerando que isso nunca acontece com os personagens masculinos.

Para encerrar, a conclusão da história da sereia e do príncipe é também problemática. No final das contas, é a sereia que acaba “cedendo” e escolhendo ter pernas para ficar com o príncipe, sendo que ela passou a história inteira falando que ele deveria desistir das pernas e reclamando que só ela fazia sacrifícios. Além de, no final, a mulher ser aquela que abre mão de sua vida para ficar com o interesse romântico, essa ideia de sacrifício para demonstrar amor é muito complicada. Essa romantização leva inúmeras pessoas a entrarem em relacionamentos complicados e sofrerem, achando que é o certo.

Apesar de, de uma maneira geral, menos mulheres serem vítimas da narrativa estereotipada de A Espada do Destino, o que elas passam é muito marcante e precisa sim ser analisado durante a leitura. Fantasia medieval não é desculpa para esse tipo de perpetuação de preconceito, como eu falo há anos por aqui.