Há três anos, quando terminei de jogar toda a trilogia The Witcher, eu resolvi escrever um texto sobre a representação feminina nesses jogos. Este texto me rendeu muita view, mas também muito ódio, ataques, vídeos respostas dizendo que eu “ataquei os jogos” e até uma gigante mensagem no meu perfil pessoal do facebook. Como anunciaram a adaptação dos livros de The Witcher para série, que será lançada pela Netflix, achei que talvez fosse um momento interessante de ler os livros e falar o que achei.

Uma coisa que me disseram muito quando fiz o primeiro texto é que “nos livros não é assim” ou “mas se você lesse os livros você entenderia”. Pois bem, aqui estou, depois de terminar de ler O Último Desejo, o primeiro livro dos sete, para dar as minhas opiniões. Sim, eu pretendo ler todos, mas decidi dessa vez dividir por livro, até para falar de mais alguns tópicos que eu acho válidos.

Esta análise possui spoilers de O Último Desejo. Não precisa me dar spoilers nos comentários do resto, eu vou chegar lá e se, por algum motivo, eu discordar de algo que disse antes, eu falo no texto seguinte. Também queria dizer, dada a repercussão do primeiro texto, que eu não vou ficar dando palco para grosserias.

Bom, por onde começar? Acho que posso dizer que, lendo o primeiro livro, minha opinião sobre a representação feminina não mudou muito. Calma, não fica bravo ainda, respira fundo.

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O Último Desejo tem algumas coisas interessantes. Eu gosto como, por exemplo, o livro mostra vários momentos da vida de Geralt, mostrando passado e presente. Também gosto que existem várias formas de resolver conflitos, que não envolvem só matar monstros. O que seria uma saída fácil, considerando que matar monstros é o que Geralt faz para sobreviver. Também acho legal como, a partir das missões de Geralt, conhecemos o universo como um todo e também como ele percebe o mundo ao seu redor.

Eu comecei elogiando alguns aspectos que eu acho bom para ver se, dessa vez, as pessoas entendem que eu gostar de algo não significa que eu não possa criticar a coisa. Honestamente, eu achei o primeiro livro bem mais ou menos no geral, mas agora vamos entrar nos aspectos que eu achei mais problemáticos.

Acreditem, eu fui ler os livros de peito aberto, tentando esquecer tudo que vi nos jogos, mas é um pouco difícil quando na primeira página eu já encaro sexualização feminina que não adiciona em nada para a história. Infelizmente, esse padrão continua se repetindo. Um dos monstros é uma estrige, um demônio com características femininas, essa em questão era a filha de um nobre. Quando Geralt a derrota e ela volta para sua forma humana, o autor faz questão de descrever os seios da moça. Para piorar, ela tem 14 anos.

Eu sei o que você pode me dizer. Na “tal época” meninas de 14 anos eram vistas como adultas, mas eu queria muito saber que época é essa que estriges existem. Uma coisa vale ser dita, a sexualização feminina desnecessária do livro é bem menos gritante que no jogo, talvez pela falta de imagens. No entanto, ela está ali, na forma que as mulheres são descritas e apresentadas.

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Falando em monstros, me chamou a atenção como os monstros são retratados no livro. Metade deles são caracterizados como mulheres, até aí tudo bem. No entanto, todas elas precisam perder na batalha, serem mortas, enquanto alguns monstros entendidos como homens são mostrados como racionais e dignos de redenção. Ao menos dois dos homens monstruosos conseguem o que poderíamos chamar de “final feliz” e um ainda vira amigo de Geralt e Jaskier (Dandelion no jogo).

Um deles, inclusive, um monstro que Geralt encontra, virou uma besta por ter sido amaldiçoado. O capítulo inteiro é construído para que simpatizemos com o monstro, que entendamos o seu lado e como ele é uma vítima da feiticeira que o deixou daquele jeito. O que podia ser muito legal, eu gosto quando esses personagens ganham um nível de complexidade que podemos sentir empatia. O problema é que esse homem foi enfeitiçado por estuprar a feiticeira em questão. Isso me lembra muito como o jogo costumava relativizar a violência contra as mulheres.

Existe uma personagem mulher que tem mais destaque nesse primeiro livro, a Yennefer. Inclusive, o título do livro fala sobre a última história, que é como Geralt e Yennefer se conheceram. Eu não vou falar muito sobre os destinos deles terem se unido pelo djinn, nem da relação deles ter problemas ou não, porque nesse primeiro livro eles ainda estavam de lados opostos e eu sei que isso é um assunto para os livros seguintes. Mas ainda há partes da caracterização de Yennefer que é complicada.

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A primeira aparição de Yennefer é quando ela está nua, por nenhum motivo, afinal ela podia muito bem estar vestida na situação. Yennefer usa sua sensualidade ao seu favor, o que é colocado como uma característica das feiticeiras, não dela pessoalmente. Ela é pintada como traiçoeira e, quando enfeitiça Geralt, o faz da maneira mais femme fatale clichê possível: Com um beijo. Há também duas passagens de uma luta de Yennefer e Geralt, em um momento a roupa dela fica rasgada mostrando um dos seios dela (sim, o autor faz questão de descrever isso) e na outra Geralt enfia o rosto no decote dela para… Impedi-la de atacá-lo de alguma forma? Não, não é brincadeira.

Além disso, no livro é contado sobre como as feiticeiras muitas vezes são consideradas feias, mas a partir de magia elas vão se tornando bonitas, porque… Bom, só porque a história quis. Não existe muito motivo narrativo além delas poderem usar a sensualidade contra os inimigos. O que é sim um grande clichê, principalmente dentro do gênero da fantasia. Acho que seria muito difícil construir uma personagem feminina, que usasse magia e não fosse um clichê de sensualidade ambulante (/sarcasmo).

Saindo um pouco da representação das mulheres, há um outro ponto que eu queria comentar aqui. A representação dos elfos. Pelo o que o primeiro livro nos apresenta, os elfos em The Witcher são um povo que foram expulsos de suas terras por humanos, por isso eles recorrem há várias formas de sobreviver, como roubar de outras pessoas e silenciar quem os vê. Nós já sabíamos, pelos jogos, que elfos eram oprimidos nessa sociedade. Eu não estou de forma alguma dizendo que matar é legal, mas me incomoda demais a posição do Geralt diante da situação. Veja, o leitor é levado a sentir empatia por Geralt e as pessoas ao seu redor. Naquele ponto da história, quando vemos elfos sendo violentos, somos colocados em um ponto de vista que diz: “Olha como eles são extremistas e orgulhosos”, que pode ser sim interpretado como “Se eles não fossem assim poderiam estar melhores”. O livro coloca política em seu universo, mas trata aqueles que são oprimidos e expulsos dos lugares de forma ruim, o que é complicado considerando que inúmeras minorias na nossa sociedade foram expulsas de suas casas e perderam tudo por preconceito.

Enfim, eu gostei de umas partes do livro, outras nem tanto, mas sigo com minha opinião de que, apesar dos pontos positivos (assim como no jogo) a história ainda tem muitas problemáticas que valem ser levantadas. Então, quando eu terminar o segundo eu volto aqui, e quem sabe também para falar da série?