Hoje, dia 8 de março, é comemorado o dia internacional da mulher, o que não deve ser muita novidade. No meio nerd, entre os produtores de conteúdo, as grandes produções e até o público, é normal ver homenagens por conta do dia. Vemos listas de “personagens femininas fortes”, mulheres são chamadas para falar sobre feminismo dentro da área e vemos várias indicações de obras e artistas para conhecer.

Isso tudo é muito bom. Porém, depois de tantos anos escrevendo sobre cultura pop, e acompanhando vários nichos de entretenimento, eu olho para essas homenagens e penso… Mas é só isso? Eu mesma já escrevi e montei inúmeros conteúdos como os que citei acima, já organizei mesa focada em representação feminina, já fiz muitas listas e indicações nessa data.

Cada vez mais isso foi crescendo. O que, há quase 10 anos, eram espaços pequenos de discussão, hoje ganharam discussões muito maiores. E, por mais que para nós, que estamos há algum tempo no rolê, possa parecer repetitivo e mais do mesmo, acredito que ainda é importante termos espaços de mulheres falando sobre a nossa própria representação e nossos trabalhos. Querendo ou não, sempre haverá pessoas novas chegando, a desconstrução é constante e acontece para cada um em um momento diferente da vida.

O problema é quando essas ações são isoladas, usadas como uma desculpa para mostrar como algumas pessoas estão preocupadas com diversidade, quando na verdade não estão. Eu não espero que empresas grandes, que fazem marketing de dia das mulheres, façam isso da bondade do coração, querendo ver uma mudança na sociedade. Eu sei bem que, como qualquer outra data no capitalismo, muitas pessoas pretendem lucrar com o dia das mulheres, e falar contra isso não adianta de muita coisa.

Mas talvez exatamente hoje, no dia das mulheres, seja um momento para pensarmos como esse suposto apoio e essas supostas homenagens são vazias. Usando o meio nerd como exemplo, do que adianta fazer matéria de dia das mulheres, se passa pano para homens machistas, abusadores e que já atacaram mulheres? Do que adianta falar de representação quando convém, mas dentro da empresa as contratações de maiores destaques são pessoas com discursos completamente problemáticos?

Muito legal dar espaço para mulheres no dia 8, mas você só deixa elas falarem no dia “delas”? Nos outros, você continua chamando os mesmos homens brancos para terem destaques nos seus eventos e nas oportunidades de trabalho? E para o que você chama essas mulheres, só para falar sobre ‘ser mulher’ na sua área, ou as chama para falar de outras coisas?

Como eu disse, espaços para discutir representação são importantes, mas outra forma muito efetiva, e mais respeitosa com as profissionais, de falar sobre representação, é chamar essas mulheres para falar de seus trabalhos em qualquer outro contexto. Uma das dificuldades de ser mulher no meio nerd é exatamente só sermos chamadas e lembradas quando querem falar sobre essas questões específicas.

Pensando em produção de conteúdo, vi alguns lugares passando anos diminuindo e deixando de lado publicações de mulheres, mas convenientemente, quando chega essa data, é muito fácil trazer essas produções de volta. Não é uma forma de divulgar e fortalecer mulheres, é para fazer uma política de boa vizinhança de “olha como somos legais e inclusivos”, sendo que não são e pouco se importam com essas questões.

E pensando no aspecto de representatividade, acho que vale também pensarmos nos discursos das pessoas que damos vozes. É necessário dar espaço para mulheres, todos os tipos de mulheres, mas qual é o discurso dessas mulheres? Porque não adianta dar espaço nesses lugares só para mulheres brancas, hetero e cis que perpetuam discursos racistas ou lgbtfóbicos. Entre todas as mulheres que existem no mundo, há várias intersecções em suas identidades e todas elas afetam nossas vivências de maneiras diferentes, e essas diferenças precisam e devem ser levadas em consideração, se não o discurso é só raso.

Eu não espero esse nível de complexidade de grandes marcas e suas campanhas de publicidade, nem mesmo de certas pessoas do meio nerd que se dizem aliados, mas suas ações mostram que não são. Este texto é mais um desabafo para que nós, mulheres, tenhamos um olhar mais crítico e mais atento à essas questões de representação, que vai muito além de mostrar uma “mulher forte”. É ter mulheres na frente de projetos, por trás das câmeras, sendo contratadas e ter diferentes tipos de mulheres nesses meios. É sobre ter um discurso coerente que abrace outras mulheres, que não exclua baseado em outros preconceitos.

Dia da Mulher é mais uma data entre tantas, mas ser mulher e viver com as questões das nossas vivências é algo constante. Nossas vidas, nossos trabalhos e nossas vozes importam, e nós queremos que tudo isso seja reconhecido, não só o fato de sermos reconhecidas como mulheres uma vez ao ano.

 

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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