Assim que assisti ao trailer de Parasita a sensação que eu senti foi de recusa. Eu amo o trabalho do Bong Joon-Ho desde que assisti O Hospedeiro (indico infinitamente), mas o trabalho dele sempre é permeado com uma verdade crua, o tipo de coisa que você sai do cinema pensando profundamente enquanto lida com a maneira direta e cruel com que o tema foi apresentado. Poucos diretores e roteiristas tem a habilidade que Joon-Ho tem de unir tema e imagem tão bem – e de maneira tão cruel. Mas era essa crueldade que me assustava, principalmente passando pela fase delicada que estou no que tange saúde mental. Mas, mesmo assim, assisti ao filme e ele foi tão incrível quanto eu esperava – e quanto o mundo todo falava.

Muitas pessoas compararam Parasita com Bacurau, mas apesar de entender que o tema tem similaridades, os dois filmes são bastante diferentes no que tange conclusões, ambientações e catarse – também porque as propostas dos dois são distintas. Se eu tivesse que escolher, diria que Bacurau é um filme que conversa muito mais comigo, porque a catarse que o filme entrega ajuda a liberar a profunda sensação de injustiça que a história traz. Acho que os dois discutem diferenças e violência de classes de maneiras diversas, e conseguem entregar aquilo à que se predispõem.

Sempre que falo sobre Doramas (séries dramáticas do leste asiático), em específico de doramas sul-coreanos, eu falo sobre a semelhança entre a Coréia do Sul e o Brasil. Apesar das culturas diferentes, aspectos políticos e sociais muitas vezes se misturam, e isso ficou ainda mais claro pra mim com Parasita. Talvez por isso o efeito do filme em mim tenha sido de um incômodo ainda maior, não só porque eu fico mais satisfeita com histórias que apresentam solução e catarse, mas porque aquela casa poderia muito bem ser uma das casas da minha infância e adolescência que, assim como aquela família, guardavam segredos e uma violência de classe que passava despercebida como gentileza.

A enchente, a negociação para receber por um trabalho já feito, a falta de perspectiva e a necessidade de se manter vivo, tudo isso também está presente no Brasil. E tudo que acontece em Parasita muito provavelmente aconteceria, ou acontece no Brasil. Inclusive a desumanização de um ser humano que o leva a cometer atos impensáveis.

A violência mais cruel que vemos na tela não é a violência física, mas a emocional, que vai destruindo a humanidade dos protagonistas e desmontando a racionalidade deles. Destrói a honra e a personalidade, mostrando o quão fundo é o buraco da sociedade sul-coreana, e o quão vertiginosa é a diferença entre os donos da casa e os que se escondem dentro dela. O filho que fala inglês e a filha que podia ser uma artistas, mas que não tem o dinheiro para pagar as aulas extras que precisam para disputar com os filhos dessas casas ricas as vagas nas universidades.

Ao pensar sobre Parasita eu penso sobre o Brasil, sobre as similaridades com a Coréia do Sul, e sobre o abismo entre ricos e pobres, entre o que é justo e o que é injusto. E é cruel, é doloroso e extremamente necessário. Eu evitei o filme porque não querer passar por uma experiência tão seca e cruel sobre a realidade, sem a presença da tentativa de uma solução. Mas a verdade é que o que Parasita sugere como solução é verdadeiramente a única saída para essa merda toda, talvez o primeiro passo desse caminho, empatia e auto-compreensão. Que entendamos quem nós somos, porque estamos e onde estamos, que procuremos soluções para fora da lógica capitalista que tanto compramos, e que precisamos pensar e se mover para termos as mudanças que precisamos e que almejamos. Olhar inclusive para as partes mais desagradáveis da nossa existência.

Até mais! 😉

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Sobre o Autor

Roteirista com uma tendência em transformar qualquer documentário sobre abacate em uma space-opera feminista.

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