Ilustração de Brendda Lima

“Mas e os homens?”– pergunta o cara que se sente excluído de um evento/mesa/coletânea composta exclusivamente por mulheres. Os homens estão em todos os lugares, em todas as mesas e em todas as coletâneas e, além dessa onipresença, são também os responsáveis por tantas mulheres se sentirem excluídas da cultura pop de maneira geral. Eles mestram mesas de RPG em que premeditadamente forçam personagens femininas ao estupro e humilhações, eles fazem tirinhas e charges zoando a luta feminina por mais espaço, eles não consideram importante colocar uma mulher se quer numa coletânea de entrevistas com quadrinistas, eles não se sentem responsáveis pelas suas ações excludentes e, quando questionados, sentem-se ofendidos e injustiçados.

Estamos caminhando na direção de um equidade entre mulheres e homens, mas o caminho ainda é muito longo e sem previsão de terminar.

Nós, mulheres, aprendemos desde muito cedo que nossas opiniões não são tão importantes quanto às dos homens. E não é que alguém nos sente numa cadeira e nos diga “você não importa”, é que a sociedade funciona para que ninguém precise nos dizer. Se gostamos de quadrinhos, não é para nós. Se queremos brincar de carrinho – é coisa de menino. Se respondemos perguntas de professores ou damos nossa opinião sobre alguma coisa, somos intrometidas e metidas. Se não gostamos de alguma coisa, somos frescas. Se não queremos nada com um garoto, somos arrogantes e aproveitadoras.

Essa cultura de diminuição, de negativar e minimizar a opinião feminina tem diversos efeitos negativos no modo como nós convivemos dentro da Cultura Pop.

Quando conversamos sobre participação feminina nos quadrinhos, no que tange mulheres quadrinistas, uma das maiores dificuldades é fazer mulheres tomarem coragem e começarem a produzir. Essa dificuldade vem do fato de que por muitos anos as mulheres quadrinistas foram sistematicamente apagadas da história e da fama. Apesar de termos começado a produzir desde muito cedo, são os nomes masculinos que tem destaque e que entram para a história. Juntando esse apagamento com o fato de sermos ensinadas que nossa opinião não importa, conseguir se desprender disso e começar a fazer e publicar, mesmo que na internet, é uma passo que exige muita desconstrução e auto-confiança.

Em encontros e convenções mulheres caminham livremente entre o público, mas não sem passar pela dose de machismo que faz homens acharem que tem direito de encostar na cosplayer sem pedir autorização antes. Não sem ter olhares de questionamento sobre a validade da sua experiência nerd. Escrevendo sobre cultura pop nós somos assediadas, ameaçadas e exigem nossas credencias (Você já soprou uma fita de megadrive?, perguntou o nerd machistinha). Não interessa a nossa formação, não interessa os nossos cursos, a nossa voz sempre vai ser questionada e deslegitimada. Some tudo isso à construção social de que a nossa voz não é tão importante quanto à masculina e você vai entender porque é tão difícil se manter nesse ambiente por muito tempo.

Tudo isso que acontece com mulheres quadrinistas e nerds/geeks acontece com mulheres em todos os espaços profissionais. Se sou roteirista, só escrevo sobre mulheres, se sou diretora, minha visão é muito feminina. Se sou engenheira, não sou tão boa quanto meu colega. Se sou cientista, tiram de mim os louros do meu trabalho. Mulheres são, e sempre foram, apagadas de suas próprias vitórias e da história da nossa sociedade como um todo.

E é porque existe essa cultura do apagamento que esses espaços são importantes. Quando vemos mulheres fazendo algo, sabemos que podemos fazer também. Quando assistimos uma mesa sobre quadrinhos formada por pelo menos 50% de mulheres, entendemos que também podemos produzir quadrinhos. Quando fazemos mesas e grupos exclusivamente femininos promovemos o trabalho de mulheres, damos apoio às mulheres que ainda não conseguem se soltar dessas amarras, que ainda precisam vencer a insegurança.

Se ela se vê, ela pode ser. 

Espaços exclusivamente femininos não são uma afronta separatista de gênero, são espaços de empoderamento e de crescimento, onde nós encorajamos umas às outras. Onde nós lutamos umas pelas outras. E é por isso que eles são importantes, porque enquanto a sociedade continuar dizendo que nós não importamos, nós precisamos estar cada vez mais fortes, cada vez mais unidas para que continuemos crescendo.