Aproveitando que estamos nessa época de Halloween, que tal falarmos de um RPG clássico de terror? Durante a Horror Expo, ganhei da New Order um guia de jogo rápido da sétima edição de Chamado de Cthulhu e resolvi dar uma lida para conhecer mais o sistema. Pensando nisso, resolvi fazer este texto comentando sobre o básico do sistema e dando algumas sugestões para quem tá chegando agora.

Se vocês gostarem, quem sabe isso não vira uma série aqui no site e eu posso trazer outros RPGs também?

A ideia desse texto não é explicar todas as regras, até porque isso está explicado no livro do RPG. É apenas dar um panorama geral para apresentar o jogo aos nossos leitores.

1. O que é Chamado de Cthulhu?

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Chamado de Cthulhu é um RPG de horror originalmente da Chaosium. Como o nome indica, o sistema é baseado em obras de Lovecraft, mais especificamente da série de histórias Mythos de Cthulhu, que compartilham alguns elementos e temáticas comuns. Você não precisa ler Lovecraft para jogar esse RPG, mas com certeza quem conhece a obra literária vai gostar ainda mais da experiência.

A ideia do jogo é criar um cenário que os pontos principais sejam descobrir segredos, investigar mistérios e trazer uma atmosfera de terror para o jogador. Todos os jogadores interpretam um investigador que visitará lugares estranhos e assombrados, tendo que lidar com criaturas lovecraftianas para sobreviver… Ou não.

Apesar do RPG ser colaborativo, não significa que todos vão sobreviver às aventuras. Inclusive, eu diria que esse é um daqueles sistemas com grandes chances de dar errado no final. Mas não de uma maneira ruim, porque faz parte do terror de Lovecraft que a morte, ou a insanidade, estejam ao lado. Isso torna Chamado de Cthulhu um ótimo sistema para aproveitar aventuras oneshot, que duram apenas uma sessão.

2. Criação de personagem

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Chamado de Cthulhu trabalha com oito atributos, que vou chamar de atributos principais, e mais alguns que são os secundários. Vamos começar pelos principais, que inclusive alguns deles costumam aparecer em outros jogos de RPG.

  • FORÇA: A parte física do personagem
  • CONSTITUÇÃO: A saúde do personagem
  • PODER: Força de vontade + espírito + estabilidade emocional.
  • DESTREZA: Agilidade + velocidade.
  • APARÊNCIA: É o que seria como o carisma de outros sistemas.
  • TAMANHO: Peso + altura
  • INTELIGÊNCIA: Astúcia e intuição do personagem, capacidade de deduzir logicamente algo
  • EDUCAÇÃO: Conhecimento acumulado durante a vida.

Todos esses atributos precisam ganhar pontuações específicas, que são faladas melhor no livro. A forma que você vai dividir esses pontos depende do tipo de investigador que você quer fazer. Se o seu foco é alguém com mais força bruta, é melhor prestar atenção em FORÇA TAMANHO, já que a tabela de dano do sistema te dá um dado extra, dependendo do valor da junção desses atributos. Um personagem que usa mais o cérebro precisa pensar em ter INTELIGÊNCIA EDUCAÇÃO, e por aí vai. Não se preocupe, é normal que o seu personagem tenha alguns atributos com pontuação baixa. Na vida, a gente não é bom em tudo, né?

Eu particularmente acho muito útil que, qualquer pessoa que jogue Chamado de Cthulhu, pense com carinho na pontuação de PODER. Considerando que é um jogo para lidar com o sobrenatural, é algo relevante. Eu, pessoalmente, faria um personagem mais nerd, correndo o risco de virar um alvo fácil de ataques físicos.

Os atributos secundários são interessantes, porque eles dão uma cara muito específica para Chamado de Cthulhu.

  • SORTE: Usado para saber se as circunstâncias estão ao seu favor.
  • PONTOS DE MAGIA: Usado para tudo que envolva magia.
  • DANO EXTRA E CORPO: O dano adicional de um ataque físico.
  • PONTOS DE VIDA: É uma junção feita com constituição e tamanho.
  • SANIDADE: Igual a poder e pode mudar a medida que o jogador encontra sinais dos Mythos de Cthulhu.

Na minha opinião, esse atributo de sanidade é o mais interessante e que marca uma campanha como algo do universo de Chamado de Cthulhu. Não que ele seja o mais importante, mas é que além do dano físico, o que encontrar um monstro causa com a cabeça de alguém? A obra de Lovecraft era muito voltada para isso e faz sentido que o RPG também seja.

Depois de pensar em atributos, o jogador precisa decidir a ocupação do personagem. Cada ocupação dá oito perícias, que precisam receber alguns pontos também. A ocupação, além de servir para descobrir o que seu personagem pode fazer, é uma boa maneira também de pensar nos antecedentes dele, a história do personagem em si. Essa é uma parte bacana da interpretação dentro do RPG e inclusive pode explicar por que um personagem com ocupação escritor decidiu investigar monstros.

No final, o jogador escolhe o nível de crédito, que basicamente é o quanto seu personagem vai poder gritar “SOU RYCA!!!”. Brincadeiras a parte, em alguns sistemas, como o próprio Chamado de Cthulhu, começar com uma certa quantia de dinheiro pode fazer certa diferença.

3. Entendendo o sistema

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Chamado de Cthulhu não tem o sistema mais simples de todos, mas não é difícil de pegar o jeito, uma vez que se entende como a mecânica e as rolagens funcionam. Por mais que o mestre do jogo, aqui chamado de guardião, possa pedir testes dos jogadores quando quiser, o jogo dá espaço para que o jogador justifique fazer um teste que ele quer, explicando por que usar um tal atributo.

Isso, em Chamado de Cthulhu, é entendido como “Forçar Teste”. Quando isso acontece, o jogador pode rolar os dados novamente, mas caso o jogador fracasse, os riscos são maiores. Por mais que essa mecânica não seja sempre a melhor amiga dos jogadores, é interessante pensando do ponto de vista de causa e consequência de mecânica de RPG. Se você arriscar, pode dar muito certo ou muito errado. Isso valoriza todo o leque de escolhas que um personagem pode fazer.

A maior parte das rolagens aqui são feitas com um dado de porcentagem e 1d10, para dar um valor entre 1 à 100. Para ter um sucesso, o jogador precisa tirar igual ou menos da pontuação de seu atributo. Então, se minha força é 80, eu preciso tirar na rolagem de 80 para baixo para ter um sucesso. Quanto maior a dificuldade do teste, menor o número que você precisa tirar. Por isso quanto maiores os números nos atributos, mais fácil é obter um sucesso.

O sistema também possui formas de adicionar dados de bônus e penalidades, assim como testes diferentes em atributos como sanidade e sorte, que são característicos de Chamado de Cthulhu. Quando pensamos em combate, há rolagens específicas dependendo de que arma vai ser usada, ou que manobra de luta o personagem quer fazer.

Mesmo que Chamado de Cthulhu, do meu ponto de vista, não seja um RPG para foco em combate, é importante levar em consideração os tipos de dano que um personagem pode levar e, dependendo de qual for, pode ser tão alto que resulta em uma morte instantânea quase certa. O que define o quanto o personagem pode levar de dano são seus pontos de vida, que variam de acordo com constituição e tamanho. Então, são atributos que precisam ser pensados, caso você pretenda, ou ache, que vai levar muito dano.

4. Dicas para o jogo

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Chamado de Cthulhu é um jogo de investigação do sobrenatural. Muitas criaturas de Lovecraft são seres impossíveis de serem derrotados, de dimensões absurdas, então aqui não é, a princípio, o sistema para se pensar em lutas épicas. O importante é sobreviver e completar a missão.

É interessante, pensando em criação de aventuras, aproveitar as possibilidades que os atributos e testes podem trazer. O grupo vai precisar de uma informação específica para prender um monstro, mas como eles vão conseguir essa informação? Vai ser com lábia ou suborno? Roubar a informação ou conseguir a força?

Considerando o cenário de terror, eu diria que aqui é o momento para explorar os fatores que dão medo mesmo, por mais clássico que sejam. Mansões mal assombradas, espíritos malignos, cadáveres reanimados, objetos que se mexem sozinhos… Todo mundo conhece uma história assim e, mesmo que não tenham medo, ninguém quer chegar em casa e descobrir que seu lar virou um palco para assombrações.

No entanto, considerando todo o cenário e inspirações do RPG, é muito importante pensar na questão de gatilhos. Chamado de Cthulhu é um espaço que vai mexer com medo, algumas criaturas vão inclusive mexer com pontos específicos dos antecedentes dos personagens. Não é incomum acontecer sangramento em mesas de RPG, onde emoções e sentimentos alternam entre personagem e jogador. Quando falamos de terror e medos, estamos em território de gatilhos e um sangramento pode ser ainda mais delicado. É sempre importante ter diálogo dentro de uma mesa de RPG, mas principalmente em jogos como esse.

Converse com o seu grupo, entenda quais são os gatilhos e assuntos sensíveis de cada um. Por mais que seja uma mesa de terror, não é para ser uma experiência ruim ou traumatizante. O objetivo maior do RPG é divertir, mesmo com sustos e assombrações, a ideia é que as pessoas saíam com a sensação de que foi um jogo divertido.