Esse texto contém SPOILERS do episódio IX, Star Wars: A Ascensão Skywalker

No começo de dezembro, o diretor do novo filme. J.J. Abrams comentou sobre como Poe e Finn não se tornaria um casal no último filme da trilogia de Star Wars. Alguns dias atrás, começaram a aparecer outras notícias sobre como o episódio IX teria o primeiro beijo “homoafetivo” da franquia até agora.

Mesmo que você já tenha visto o filme, é possível que você tenha perdido a cena, porque uma piscada basta para não ver esse momento super curto. No final de A Ascensão Skywalker, um casal de mulheres se beija, enquanto a resistência comemora a vitória. Alguns sites falaram que esse momento era Star Wars fazendo história, e o meu único pensamento foi:

Vocês não tem vergonha na cara?

No começo, esse texto era pra ser só sobre esse momento e o beijo da Rey e do Kylo no final do episódio. Mas, quanto mais eu penso nesse assunto, e na falta de representação LGBTQ+ em Star Wars, mais eu acho que temos muito o que discutir aqui. E sim, eu sei que existe todo um universo expandido da franquia, com outras personagens e representações. Mas os filmes ainda são a mídia em que as pessoas mais consomem Star Wars, onde a história chega mais longe e por isso a forma como eles tratam, ou escondem, personagens LGBTQ+ aqui é importante.

RIP Poinn

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Desde O Despertar da Força, episódio VII de Star Wars, muitos fãs perceberam uma química entre Finn e Poe. Não era nada explícito, até porque estamos vendo que a Disney parece ser incapaz de fazer isso em Star Wars, mas foram interações o suficiente para os fãs acreditarem que algo podia acontecer ali. Como a nova trilogia parecia vir para atualizar e inovar a franquia, não era completamente impossível acreditar que Poinn poderia ser canon.

O ator Oscar Isaac, que interpreta Poe Dameron, não perdia uma oportunidade de falar sobre como ele queria e achava que Poinn poderia ser canon, ir além do bromance. Mesmo assim, a Disney não falou sobre o assunto na época.

Nossas esperanças foram um pouco jogadas fora quando Rose chegou em Os Último Jedi, episódio VIII. Não, eu não acho que Rose tenha sido um problema em nenhum momento da nova trilogia, inclusive eu acho que ela é uma das melhores coisas trazidas pelos novos filmes (e também uma das mais injustiçadas). Mas com o romance entre ela e Finn, parecia que Poinn não aconteceria mesmo. Por mais que eu quisesse sim um casal LGBTQ+ em Star Wars, eu poderia ter vivido feliz com Finn e Rose, afinal ainda seria um casal entre personagens que fazem parte de minorias que nem sempre vemos na tela, mas a alternativa da Disney foi muito pior. Não só Poinn não aconteceu, como Rose foi deixada completamente de lado.

Mas houve sim um casal canon.

Rey e… Kylo?

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Por onde começamos a falar de Reylo? Olha, eu entendo o apelo, de verdade, eu li inúmeras fanfics “enemies to lovers” (rivais para amantes) no AO3 e eu gosto desse tropo (quando bem escrito, porque né). Então eu entendo muito que as pessoas shipassem Rey e Kylo, e nem acho que seja um problema em si, mas considerando as coisas que o Kylo fez durante a trilogia, se era para eles ficarem juntos (com um arco de redenção decente, não o rascunho que a gente teve) a aproximação do casal deveria ser melhor escrita.

O ponto aqui é: Além de todas as atrocidades que Kylo fez, ele foi muito cruel com a Rey em vários momentos. Mesmo quando ela começa a entender o lado de Kylo, no episódio VIII, ele quebra qualquer esperança que ela tem de uma possível mudança, então Rey o deixa para trás, salvando os rebeldes no último momento do filme. Ela acreditou nele, ele continuou do lado sombrio e ela deu as costas. Esse era o ponto de partida do episódio IX. Para que o ship pudesse funcionar nesse filme, tinha que ser trabalhada uma confiança muito maior do que “a conexão pela Força” ou qualquer coisa que o filme tente usar para justificar os dois ficando juntos. Houve uma quebra de confiança e Rey deixou de acreditar em Kylo, ele precisava recuperar aquela confiança de volta.

Dito isso, é um pouco revoltante como Star Wars ache mais fácil, e aceitável, colocar junto um casal que facilmente pode não ser uma relação saudável, do que dois homens que são amigos e se ajudam desde o começo, como Poe e Finn. Até mesmo uma relação de amizade e confiança, como a que Finn e Rey tinham, ficou para trás para beneficiar o arco de Kylo. E não me entendam mal, eu acho o Kylo um excelente vilão, mas esse é um exemplo perfeito de que não importa o quanto um homem branco faça besteira, ele ainda consegue terminar com a mulher que ele quer, e sendo compreendido fazendo muito pouco (conversei com meu pai nas minhas memórias e me perdoei? Sério?).

Mas e o Finn?

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Pois é, e o Finn? O personagem que parecia estar apaixonado pela Rey desde o episódio VII. Eu até achei que poderia ser uma coisa unilateral mesmo, mas aparentemente a relação de cumplicidade e amizade dos dois não é um “material tão bom” para romance, nos olhos dos produtores de Star Wars, do que um péssimo arco de redenção de Kylo e uma Rey inconsistente com o que ela tinha sido até o momento. Eu até preferia que a Rey não ficasse com ninguém, mas se era para ficar com alguém, que fosse o Finn.

Quantas vezes nós vemos o personagem negro conseguir ficar com a garota principal? O estereótipo do homem negro engraçado, mas que termina sozinho (e aqui podemos pensar também na solidão da mulher negra) é muito comum, Star Wars só reforçou isso. Finn tinha três opções muito nítidas de romance, talvez o personagem com maior potencial para terminar com alguém: Poe, Rey e Rose. Ainda assim, Star Wars escolheu que ele não deveria ficar com ninguém, mesmo que fosse um casal para provar como ele é “muito hétero”.

Há dois momentos no episódio IX em que é comentado algo “muito importante” que Finn precisa falar para a Rey antes de morrer. J.J. Abrams insiste que ele queria falar sobre ser sensível à Força, mas honestamente? Bobagem. Se era isso mesmo, será que nenhuma alma na Disney não virou para o diretor e falou “Olha, parece que ele vai se declarar”? Para mim aquilo serviu muito mais como, mais uma vez, o homem negro ser um alívio cômico no aspecto de um relacionamento amoroso, se apaixonando por alguém que a história nunca vai deixar ele ficar junto, o que é péssimo.

Por que a Rey não pode ficar sozinha?

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Além de quem pode ter um par romântico em Star Wars, quem não pode ficar sem um par romântico? Porque aparentemente a protagonista que, mesmo sendo mulher, é uma dentro do padrão, não poderia terminar a trilogia sem ter beijado ao menos um homem. E olha, eu adoro um bom ship, mas a gente precisa pensar sobre por que Rey não pode ficar sozinha.

Luke Skywalker, protagonista da trilogia clássica, terminou a sua jornada sem um interesse romântico. Sim, ele beijou Leia, e eu acredito que o primeiro plano era eles não serem irmãos e fazer o final ser Luke e Leia, já que Han ia morrer no final do episódio V. Mas, como os planos mudaram e Han voltou, Luke acabou ficando sozinho. De qualquer forma, se quisessem muito que Luke tivesse um interesse romântico, bastava introduzir uma personagem feminina no episódio VI. Talvez não ficasse bom, mas não é como se Hollywood já não tivesse feito isso antes.

Mas tudo bem Luke, o homem padrão, não necessariamente ficar com alguém, porque ele não estava querendo ninguém em especial (lembrando que ele e Leia terminaram como irmãos) e não é cobrado do homem padrão estar necessariamente com alguém na nossa sociedade. Meninos não crescem com a ideia de que eles só serão felizes quando encontrarem a “mulher certa”, mas mulheres são sim incentivadas a encontrarem o grande amor ou “ficarão para a titia”, o que acaba colocando muitas mulheres na nossa sociedade em relacionamentos péssimos.

Como o filme covarde que é o episódio IX, eles não podiam simplesmente deixar a conexão entre Rey e Kylo não se tornar algo romântico, como se o romance fosse a única conexão forte entre duas pessoas. Rey podia ter simplesmente seguido os passos de protagonista do Luke e ficado sem romance, mas o final feliz da mulher sempre inclui um homem.

A Disney quer muito que Poe seja hétero

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É quase patético como uma personagem é apresentada no filme unicamente para mostrar como Poe é hétero (sim, ele poderia ser bi ou pan, mas não é isso que a Disney quis mostrar, né?), gosta muito de mulher e é o garanhão das galáxias. Eu até acho que a quase interesse romântico dele tem umas frases que se destacam no filme, mas é óbvio que ela está ali para ser um caso de Poe. Mas como tudo no episódio IX é muito jogado, a presença dela também é, e o suposto romance entre eles também.

Essa parte do filme é tão largada que eu quase penso que isso só foi incluído por conta dos fãs shiparem Poinn. Porque no final das contas, Poe não ficou com ninguém, então me parece só uma tentativa rasa e mal feita de mostrar como ele é “muito machão” e nunca ficaria com o Finn. O que é ainda pior, considerando que Poe era um excelente personagem para falar de masculinidade tóxica, considerando ainda mais o crescimento do personagem durante o episódio VIII.

Era mais fácil simplesmente não mostrar Poe com ninguém e não apresentar o ship, se a Disney estava tão assustada com a mera ideia dos fãs estarem considerando um casal LGBTQ+ entre os personagens principais da nova trilogia.

Star Wars deu migalha, fazer história é outra coisa

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Como comentei no começo, eu li uma matéria, uns dias antes de Star Wars sair, que a franquia tinha feito “história” mostrando um casal LGBTQ+ se beijando em cena. Eu já sabia que não era Poinn, porque J.J. Abrams tinha falado que o ship não aconteceria no começo de dezembro. Então, no final, as duas personagens sem nome, sem falas e coadjuvantes se beijam e nós precisamos achar isso revolucionário.

Isso não é fazer história, é dar migalha e é patético.

É ridículo que em 2019 todos os cabeças de Star Wars olhem essa cena e acham que tudo bem, que é representação o suficiente e que isso deixaria qualquer fã feliz. Não estou falando dos homofóbicos que vão reclamar, porque eles não me importam, mas sim dos fãs LGBTQ+ que continuam sem se ver representados nessa franquia. É uma história na galáxia, mas parece que em nenhum lugar do espaço, de acordo com os filmes de Star Wars, pessoas LGBTQ+ possam ficar juntas. Sim, eu sei que no universo expandido esses personagem existem, e é ótimo, mas fazer história mesmo seria colocar um casal LGBTQ+, de personagens relevantes, juntos nos filmes. Fazer história seria Poinn ser oficial, ou talvez Rey com uma namorada, não uma cena de dois segundos e achar que isso é o suficiente.

E pouco me interessa há essa altura do campeonato que “a Disney nunca faria isso”. Pois devia, ou então não colocasse nada. Não é por que eles nunca fariam que os fãs não devam reclamar. Eu preferia nenhum beijo LGBTQ+ do que a palhaçada que foi essa cena, ainda mais com os meios de comunicação agindo como se isso tivesse sido uma coisa merecedora de comemoração. Fingir que é aliado LGBTQ+, que aceita diversidade e só dar dois segundos de representação é uma vergonha e é covarde, como o resto do filme foi.

EDIT: Enquanto revisava o texto, li uma nova matéria em que J.J. Abrams escolheu colocar os dois segundos de beijo entre as coadjuvantes porque parecia ser uma cena perfeita para isso, onde não seria muito “pesado” ou “chamativo”. A explicação só deixou tudo pior. Por que um beijo entre um homem e uma mulher, centrais para a história, não é considerado chamativo e se tornou aceitável? Por que um casal LGBTQ+ é considerado “demais”? É muito ofensivo para a audiência? Isso só prova que a cena foi mesmo uma migalha. J. J. Abrams segue dizendo que isso era para mostrar que Star Wars era para todos. Eu acho sim que a trilogia atual trouxe mais a ideia de que a franquia era para todo o tipo de fã, mas essa cena não ajudou em nada a fazer nós, da comunidade LGBTQ+, se sentirem mais incluídos.

O que está sendo enfiado goela abaixo?

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Sempre que existe uma representação relativamente decente na cultura pop de personagem LGBTQ+, sempre vai ter uma pessoa para dizer que “estão enfiando representação goela abaixo dos fãs”. Olhando Star Wars, em especial o episódio IX, e tantas outras grandes franquias, eu me pergunto se a heterossexualidade compulsória que não está sendo enfiada goela abaixo dos fãs. A resposta é sim, está, como tudo na nossa sociedade.

Tá, eu posso não saber se Rey e Kylo se sentem atraídos por mais de um gênero, mas alguém da Disney aparecer agora e dizer que eles são LGBTQ+ vai ser a mesma coisa que a J.K. Rowling falando que Dumbledore é gay: Bacana, mas nunca aparece, e quando existe a chance (com os filmes novos de Harry Potter), não tem uma cena real de romance do personagem. Ou seja, será que é de verdade mesmo essa representação?

A verdade é que Rey e Kylo são colocados como dois heterossexuais ficando juntos, sendo que vários outros personagens tinham mais química, e formariam casais mais interessantes, que realmente mostrassem que Star Wars é para todo mundo. O episódio IX foi um grande fanservice, mas obviamente o fanservice que incluía representação LGBTQ+, Poinn ser canon, não era algo que a Disney teria coragem de fazer, né? Era mais fácil empurrar dois personagens em uma relação que não foi bem construída. Sim, o episódio VIII faz um ótimo trabalho em explicar para os fãs a relação entre Rey e Kylo, mas a conclusão do filme é: Kylo escolheu o lado sombrio, Rey não vai ser babá dele e nem se matar para salvar alguém que não quer ser ajudado. Se o episódio IX queria mudar isso, que ao menos fizesse bem feito (que, como já falei na crítica sem spoilers, o grande erro do novo filme foi tentar apagar o anterior).

Para as grandes produtoras, um relacionamento meia boca, que poderia ser nada saudável, mas que é entre duas pessoas héteros, é mais aceitável do que dois homens ficando juntos, que são amigos, se ajudam, passaram muito tempo juntos e poderiam ser uma representação de relacionamento saudável.

Ninguém tá empurrando nada LGBTQ+ em cima de ninguém, mas o episódio IX de Star Wars continuou o padrão da sociedade de fazer o público engolir a ideia da heterossexualidade compulsória, enquanto ainda fazia um péssimo trabalho com outros personagens e seus possíveis romances, como Finn, Poe e Rose.

Eu espero que as próximas produções de Star Wars no cinema, que são sim as que chegam na maior parte do público da franquia, tenham mais coragem que o episódio IX, ou ao menos tenham mais coerência.

Ninguém tá dizendo que Star Wars precisa de romance, mas se vão fazer, que façam direito.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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