O que eu posso fazer? Eu gosto de Star Wars e acho o episódio IX um dos maiores erros da franquia. Estou entediada por conta da quarentena, então vamos falar sobre o final da Rey na trilogia.

Este texto tem spoilers sobre a terceira trilogia de Star Wars.

Vamos começar dizendo que: Eu gosto muito da terceira trilogia. Eu adoro o sétimo filme, o oitavo é um dos melhores (se não o melhor) de toda a franquia e eu queria muito ter gostado do nono. Não precisava ser genial, mediano já tinha resolvido, mas quanto mais eu penso em A Ascensão Skywalker, mais eu vejo os erros da história. Eu considero que ele foi divertido durante uma parte, mas narrativamente é um erro atrás do outro.

Mas eu estou aqui hoje para falar especificamente de um aspecto do filme: O passado da Rey, e como a forma que essa questão foi resolvida foi possivelmente uma das piores opções que a Disney tinha.

Sim, O Despertar da Força é um episódio quatro com algumas diferenças. Por mais que essa não seja a minha escolha criativa preferida, o filme funciona muito bem. É divertido, acena para fãs antigos, traz elementos para os fãs novos e renova muitos aspectos da franquia. Sim, nós temos um trio de novo, mas esses personagens são diferentes, com suas próprias complexidades. Sim, nós temos o agente do lado sombrio, mas Kylo é muito diferente de Darth Vader (sim, ele é um menino mimado e isso é maravilhoso para a história sendo contada). O Despertar da Força seguia o padrão Star Wars, mas atualizava a sua conversa temática com os tempos atuais. A Primeira Ordem é uma nova leitura do fascismo ressurgindo nos dias de hoje, Kylo é a representação do cara padrão que, por conta de sua herança e de quem é, acha que merece mais que os outros, mas na verdade não vai muito além de um cara mimado.

Desde o primeiro filme, os fãs especulam sobre quem é a Rey de verdade. Ela é uma Skywalker? É uma Kenobi? Da onde ela veio? Porque Star Wars costuma ser sobre isso, sobre pessoas de famílias e “espaços” específicos fazendo a diferença. Os dois últimos protagonistas, Luke e Anakin, eram Skywalker, afinal.

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E aí vem o episódio VIII, Os Último Jedi, trazendo um novo rumo para franquia que eu queria muito que o episódio IX tivesse seguido. Ah, como eu queria!

Os Último Jedi troca a fórmula da jornada do herói e coloca Rey na jornada da heroína, que narrativamente segue uma fórmula diferente e, para a história em si dessa nova trilogia (e da Rey em si), é muito mais interessante. Toda o arco da Rey é não saber quem é e encontrar o seu lugar no mundo, então parte da jornada dela é sim interna, como o filme mostra bem.

Mas o oitavo filme vai muito além. É um filme que vira as costas para o “tradicionalismo” da franquia. É um filme que mostra que os heróis, como Luke, também erram, mesmo que não tenham a intenção. Todos nós podemos perder o rumo e, mesmo assim, levantar melhor, que é exatamente o que acontece com Luke nesse filme. Não só isso, Os Último Jedi vai além: Ele mostra mais dos rebeldes. O arco todo de Rose e Finn, que foi injustamente criticado e jogado para baixo do tapete, é todo sobre como uma revolução é feita de muitas pessoas e a maioria delas não são de famílias especiais. Nem todo mundo é Skywalker, mas nem por isso eles são menos importante para a luta, porque a luta é feita de todos. Essa é uma das mensagens de esperanças mais bonitas que a cultura pop teve nos últimos tempos.

Então tivemos o episódio nove e a minha impressão é que a Disney pegou tudo que tinha construído sobre a Rey e jogou fora.

Qual é o tema apresentado até agora pelos filmes? Que a luta continua, que ninguém é perfeito e, apesar de tudo, todos são capazes de fazer a diferença. Mas A Ascensão Skywalker não quer isso, ele quer continuar colocando os Skywalker no holofote, o que em si nem é um problema, se não destoasse tanto de todo o resto da trilogia e não passasse uma mensagem tão frustrante, ainda mais em um filme que fala sobre revolução contra um sistema totalitário.

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No começo do filme, Rey fala que ela é “só Rey” de uma maneira triste, porque ela queria fazer parte de alguma coisa, de uma família. No final, nós descobrimos que ela é uma Palpatine, mas se diz uma Skywalker. Havia inúmeras formas de fazer isso funcionar, mas o nono filme parece ignorar todas as opções boas.

Primeiro, Rey ser Palpatine saiu da onde? Porque a gente não teve sinal disso até o último minuto. Não só isso, mas Rey ser Palpatine parece que funciona como uma “desculpa” para ela ser tão forte e tão relevante. Aparentemente uma mulher não pode ser só muito forte porque ela é e fim. Como se a produção do filme tivesse visto as reclamações dos fãs de “Ai, mas a Rey é muito forte e ela nem é Skywalker” e respondido para eles que ela era assim porque também vem de uma família importante. E para justificar, o filme fala de uma díade que nem tinha sido uma questão até agora.

O pior é que, pelo próprio universo de Star Wars, Rey ser Palpatine ou a “díade” era inútil e desnecessário. Se a ideia era que o Palpatine fosse o grande vilão final (o que eu duvido muito pela narrativa dos dois primeiros filmes, mas sigamos), por que não usar a lógica dos Sith? Os Sith mestres treinam um aprendiz que eventualmente os derrota, vira mestre e treina outro aprendiz. Não existe qualquer laço familiar nisso, eles só sentem a Força um no outro. Por que Palpatine simplesmente não sentiu que Rey tinha uma tendência ao lado sombrio e foi atrás dela? Até porque isso conversaria bem com toda a questão interna dela do episódio VIII, de flertar com o sombrio e tentar se encontrar.

Era até possível também passar uma imagem interessante de Rey como Palpatine. Dizendo que mesmo sendo de uma família “sombria”, isso não a definia como pessoa, mas essa ideia precisava ter sido introduzida antes na franquia, não nos últimos minutos.  Quanto a ser Skywalker, novamente, isso até podia ter ficado bom, mostrando que o que importa é a família que consideramos nossa, que realmente se importa conosco, como Luke e Leia se importavam com Rey. Os dois foram como família para ela, então eu entenderia se ela terminasse o filme os vendo dessa forma. Mas se o final queria falar sobre Rey não ser má mesmo sendo Palpatine, por que de repente ela precisou se encaixar em uma família específica? Se ela não tivesse descoberto que era Palpatine, o que ela ia responder sobre quem ela era? Depois de três filmes sobre se descobrir, ela só conseguiu se encaixar quando se viu da família do Palpatine?

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A verdade é que, tematicamente, a resposta mais interessante era Rey não ser de família nenhuma. Ela era sim só uma catadora de sucata, e mesmo assim tinha um contato com a Força tão grande que derrotou Palpatine e o herdeiro Skywalker, Kylo Ren. Porque família não define quem a gente é, nem com o que somos capazes de fazer. Isso faria muito sentido com a busca dela desde o começo, sem contar que enriqueceria muito mais o arco da revolução todo. Rey procurou muito uma família para se encaixar, quando no final ela percebe que ela não precisa ser ninguém além dela mesma. Meu sonho era ela falar que era “Rey, só Rey” no final ao invés de Skywalker, só que dessa vez feliz, porque ela lidou com essa sombra na sua jornada.

Os Último Jedi já tinha deixado o caminho feito para isso. Kylo Ren tenta manipular Rey falando que ela não é ninguém, para que ela se sinta tentada a ir para o lado sombrio e “ser alguém”. Mas ela dá as costas para Kylo mesmo assim, então no próximo filme, o confronto tinha que ser outro, tinha que avançar. O que A Ascensão Skywalker faz é voltar no que já tinha resolvido e falar “Não, espera, eu só falei isso porque eu queria te machucar”. E se era isso mesmo, por que não vimos sinal disso no Kylo em nenhum momento?

Isso é sim uma narrativa mal construída, porque não só ignora o que já foi estabelecido, como o muda com um roteiro cheio de furo. Tinha formas de deixar A Ascensão Skywalker sem muitos furos e manter a mesma história. Eu até podia não gostar, mas pelo menos seria mais consistente e divertido. Dava para falar muitas coisas sobre família, se encaixar, fazer a diferença e o que achamos que nós deveríamos ser mesmo com toda a história Palpatine, mas parece que A Ascensão Skywalker se curvou às críticas dos fãs mais conservadores da franquia para tentar “consertar” o que tinha feito, sendo que nunca foi um erro para começo de conversa.

No meu mundo ideal, e para passar a mensagem mais relevante, interessante e coesa com o Star Wars de hoje e tudo o que acontece na trilogia, o ideal era que a Rey fosse “apenas” a Rey. Ela não precisa ser de uma família importante, ninguém precisa, porque ela já é o suficiente sendo quem é.