Será que é esquisito eu falar de um ship de um filme que eu não vi? Talvez, mas em minha defesa, eu li o livro em que a história do longa foi baseada. Não consegui assistir ainda, mas queria muito espalhar um pouco de amor sobre o ship que a história em geral trata. Então já peço desculpas por inconsistências com o filme e não desiste de mim.

Como sempre, o texto contém spoilers. Do livro, especificamente, mas acredito que a adaptação é fiel o suficiente para ser spoiler do filme também.

Blue na verdade é Bram. Eu disse que ia ter spoilers. Já joguei essa informação de primeira antes que você diga “mas a identidade dele é revelada no final”. Eu sei, mas não dá para jogar um spoiler no título, né?

Com Amor, Simon é a história de, como você imagina, Simon, um adolescente gay durante o seu período de escola. No começo, vemos que ele troca emails com uma outra pessoa chamada Blue, que não conhecemos, mas sabemos que há um clima rolando entre os dois. Ambos são da mesma escola, mas por terem medo de terem suas sexualidades descoberta, eles falam entre si com codinomes.

Simon é chantageado por Martin, um colega de turma, quando este encontra seus emails com Blue e copia todos eles. Caso Simon não ajude Martin a sair com Abby, uma de suas melhores amigas, ele mostrará para toda a escola a verdade sobre ele ser gay. Isso cria uma tensão ao redor da história, que não afasta Simon de Blue.

Uma coisa que eu adorei no romance, e também na história toda, é como parece sincero. As inseguranças, os questionamentos de Simon sobre aquela relação, e a sensação dele de que as coisas estão escalando. Não tem como não ficar o livro inteiro não torcendo para que eles se encontrem. Quando existe a possibilidade de Blue ser inventado, ou até mesmo Martin disfarçado, o protagonista fica tão angustiado quanto nós. Lógico, porque significaria que todo aquele sentimento é uma grande mentira.

Existem muitos YA (Young Adult) focados em romances, mas infelizmente poucos que falam sobre relacionamentos entre dois homens. São mais difíceis ainda de encontrar aquelas histórias que vão para o mainstream e viram adaptações com um bom alcance, como foi o caso de Com Amor, Simon.

O ship nunca esquece que está tratando de adolescentes, então por mais que, para nós, que já passamos dessa fase, algumas coisas pareçam óbvias, para os personagens aquilo é muito real. O fato de Blue/Bram ficar com receio e sumir nos últimos dias da história faz total sentido, sendo que talvez em outra fase da vida ele deixasse claro suas emoções. Assim como o fato de Simon ter dado muitas pistas sem ao menos saber, descuidos que podem parecer muito bobos, mas fazem sentido.

Mas talvez o que eu mais ame nesse ship é que ele é saudável e dá certo. Simon não é o personagem que teve um grande trauma no passado, uma história terrível ligada ao fato dele ser gay. Sim, acontece os casos de bullying na escola, mas por piores que eles sejam, em outras histórias poderiam ser bem mais grotescos e menos reais, feito só pelo fator choque. Blue também nunca teve grandes problemas por ser gay, ambos são apoiados, mesmo com medo e receio de serem aceitos. E, no final, não existe uma tragédia, algo que faça Blue sair da escola ou Simon mentir sobre ser mesmo o cara do email, com medo do que aquele relacionamento pode significar.

Eles têm o direito do final feliz que um casal composto por um homem e uma mulher teriam. Eles podem ser um casal de adolescentes apaixonados, que tentam fugir dos pais para ficar algum tempo sozinho em casa. Que se precipitam, fazem besteiras, mas aproveitam aquela sensação da primeira paixão de colégio. E é desse tipo de história que precisamos. Pessoas fora do padrão tendo a chance de amar na ficção, para que outras pessoas que se identifiquem em Simon e Bram possam se ver ali.

Não posso falar pela qualidade da construção do ship no filme, mas no livro é muito adorável e bonito de se ver, com certeza me deixou um pouco mais feliz.