Deadpool 2 finalmente estreou, nós já expressamos várias das nossas opiniões aqui no site e na nossa live com o Preta, Nerd & Burning Hell no Instagram. Mas hoje vamos nos focar no ship, como sempre.

O texto contém spoilers dos dois filmes do Deadpool. Eu não falarei de nada que aborde as HQs, porque não li.

Na verdade, eu confesso, eu tenho uma intenção um pouco maior em falar desse ship. Sim, eu acho eles um casal bacana, gosto da Vanessa e, apesar de reclamar dos filmes, me divirto assistindo Deadpool. Mas há algumas coisas na construção da relação deles que não torna o casal abusivo, mas que minimiza certas questões e usa tropos bem clichês que me deixa um pouco cansada.

Começando pelo primeiro filme. Vanessa é uma prostituta e conhece Wade, os dois se apaixonam e vemos uma porção de cenas deles juntos. Parte do drama de Wade, depois de virar Deadpool, é Vanessa não o querer mais, que o primeiro filme até acha formas divertidas de lidar com isso (outras são clichês). Nesse primeiro momento, o que me incomoda mais é a forma como eles se conheceram. Os dois brincam de ter sofrido abuso infantil, a cena é tratada com tanta piada e leveza que eu sempre tive dúvida se eles de fato passaram por isso nas respectivas infâncias ou se estão inventando. Se o que os ajuda a se aproximar é compartilhar um trauma desses, não tinha uma forma um pouco melhor de apresentar essa questão para o público?

Tá, mas o que eu realmente quero falar está no segundo filme, para ser mais específica, no começo dele. Vanessa é morta por alguns homens que querem se vingar de Deadpool, e o filme inteiro passa a ser o luto dele, como Wade está tentando fazer o certo com sua vida, de acordo com o que Vanessa falou antes de morrer.

Os dois querem ter filhos e formar uma família. Vanessa fala que criar uma criança é uma chance de fazer melhor. Por causa dessas últimas palavras, Deadpool se vê em uma aventura para proteger um menino que está sendo perseguido por Cable. Este diz que o garoto vai crescer e virar um grande assassino, por isso precisa ser eliminado agora, mas Deadpool acha que ele pode ser salvo.

O grande problema aqui é o clássico Women in the Refrigerator. Para quem não está familiarizado com o termo, ele foi criado pela Gail Simone, para mostrar como havia um padrão nas HQs. O interesse romântico do herói era sempre morta ou ferida em prol das emoções dele, do arco dele e do sofrimento dele. Essas violências nunca aconteciam com homens para o desenvolvimento das mulheres, assim como essas violências nunca eram sobre elas. É ainda mais “engraçado”, porque Gail Simone já escreveu Deadpool.

Para um filme que se diz tão acima dos filmes de super-heróis, que tira sarro de todos os clichês, Deadpool 2 precisou de um tropo bem batido e machista para fazer sua história funcionar. Vanessa precisou ser reduzida ao interesse romântico assassinado. Eu sei que no final, Deadpool volta no tempo e impede a morte dela, mas não muda o fato de que, narrativamente, o tropo foi usado.

Havia várias formas de resolver esse ponto do roteiro. Vanessa podia ter largado Deadpool porque ele não para com a vida de mercenário, por exemplo. Eles podiam ficar bem, mas Deadpool acabou estragando alguma coisa no plano dos X-Men, fazendo com que ele fosse forçado a se redimir e entrar na missão que dá início à história toda. O trauma da infância dele e de Vanessa, que eu citei no começo, inclusive podia ser a motivação dos dois em tentar salvar o menino. Ela podia convencer Deadpool de fazer isso enquanto viva, falando com ele, e sem visitas fantasmas.

O tropo é repetido com Cable, que volta para o passado porque sua esposa e filha morreram. O fato dele estar tentando impedir um grande assassino não é motivação suficiente? Será que o assassino não podia ter matado os amigos, o grupo de Cable? Por que sempre cai para a mulher sofrer essa agressão em prol da aventura do homem?

Eu acho divertida a interação entre Wade e Vanessa, acho bem bacana e gostaria que, se tivéssemos um Deadpool 3, Vanessa tivesse mais chance de ser uma personagem. Mas esse começo já me deixou desanimada com o ship. É um clichê tão batido que justo Deadpool, o personagem que brinca com essas coisas, podia ter feito diferente.

Ah sim, e deixa os dois serem felizes! Não precisa matar ninguém não, né?