A palavra nerd começou como um rótulo para classificar pessoas que gostavam de quadrinhos, filmes de fantasia, jogos e elementos da cultura pop de maneira geral. Mas não só gostavam, elas REALMENTE GOSTAVAM. Eles também costumavam ser excluídos pelas pessoas consideradas “normais”, eram pouco sociáveis e estranhos (aos olhos da sociedade) de maneira geral. Mas com o tempo isso mudou.

Com a popularização de filmes de super-heróis (de quadrinhos, de fantasia e ficção-científica como um todo), a palavra nerd começou a tomar conotação de status. Se antes o nerd era o excluído, agora ele constrói a narrativa. É ele quem dita as regras, o que é cool e o que não é. E nessa trajetória o nerd passou de presa de piadas e comportamentos agressivos, à predador.

Nós sempre estivemos aqui.

Não que não existissem comportamentos tóxicos dentro da comunidade nerd antes de sua popularização, claro que existiam. Mesmo dentro de uma comunidade que deveria ser sobre incluir e sobre gostos similares, a presença de qualquer um que não estivesse dentro do padrão masculino, branco, hetero e cis era questionado.

Qualquer personagem, ou mesmo um nerd, que fugisse deste “padrão”, servia apenas como coadjuvante para a história central do umbigo do homem nerd branco hetero cis padrão. Então, quando o público do que é considerado nerd se expandiu, esse nerd padrão, que estava sempre no centro de todas as narrativas, sentiu-se ameaçado. E ao invés de receber essas novas pessoas com braços abertos, respondeu exatamente como os bullys que o perseguiam antes: com violência.

Nerd tornou-se uma palavra carregada com uma cultura de exclusão, arrogância, misoginia, racismo e LGBTfobia.

O que eu tento, ao insistir em usar a palavra nerd, e ao associá-la ao feminismo, é subverter essa conotação. Porque eu sempre fiz parte desta cultura, mesmo quando eu mesma não me identificava assim. Faz anos que eu estou trabalhando para mudar esse ambiente, promovendo discussões, estudando questionando e criando. E assim como eu diversas outras pessoas, de todas as origens, sexualidades, etnias e identidades de gênero também. Me parece injusto que minorias tenham que abrir mão de um título que poderia ser tão inclusivo. Por isso eu insisto no “nerd”.

Não, ninguém precisa de rótulos, taxações ou qualquer coisa desse tipo. E eu nunca vou entender o tal “Dia do Orgulho Nerd”. Mas ser nerd sempre foi sobre fazer parte, sobre as coisas que a gente gosta e sobre ver e viver as mudanças que a fantasia e a ficção científica nos permite sonhar. Acho que em tempos sombrios e confusos como os que estamos vivendo, tentar trazer positividade para essa comunidade é importante. Tentar trazer mudança. Já passou da hora da gente evoluir, aprender com os nossos erros e abraçarmos toda a diversidade que sempre fez parte desse grupo.

Então é isso. Eu sou feminista e nerd.

Até mais. 😉