A adaptação de The Witcher, uma saga de livros escrita por Andrzej Sapkowski, que ganhou muita popularidade por conta de seus jogos feitos pela CD Projekt Red, finalmente estreou na Netflix. A primeira temporada é composta por oito episódio, que adaptam momentos do primeiro e do segundo livro da saga.

Para quem não está familiarizado, The Witcher conta a história de Geralt de Rívia (Henry Cavill), um bruxo, que nesse universo significa ser um caçador de monstros. O destino dele está entrelaçado ao de Ciri (Freya Allan), a neta da rainha Calanthe de Cintra (Jodhi May). Ao longo dos episódios, vemos o protagonista enfrentando vários monstros, realizando seus contratos, enquanto tenta sobreviver a um mundo cruel.

Quem acompanha o site sabe que eu tenho algumas questões com a franquia. Eu adoro os jogos, mas acho eles muito problemáticos em certos aspectos de como minorias são representadas. Para quem quiser assistir The Witcher, fique avisado sobre os gatilhos de: Estupro (não gráfico, porém mencionado), auto mutilação, violência física gráfica e nudez.

Esta crítica não tem spoilers.

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A série The Witcher é uma adaptação bem fiel aos primeiros livros da saga. Apesar de não contar todas as histórias dos livros, acredito que ela escolhe as principais, que realmente importam para a adaptação. Da mesma forma, a caracterização dos personagens principais está bem de acordo com os do livro. Achei que a Ciri foi menos rebelde do que poderia ter sido, mas considerando as condições em que a personagem estava na série, e por ser muito jovem, achei que fez sentido ela não ser tão direta nas rebeldias como a Ciri do livro costumava ser.

No caso de Yennefer (Anya Chalotra), há mudanças que são acertos e outras nem tanto. Quando vemos a feiticeira pela primeira vez nos livros e nos jogos, a primeira impressão que temos é da mulher poderosa e arrogante. A série escolhe mostrar o passado dela primeiro, o que ajuda bastante a termos uma empatia com uma personagem que, nos jogos e nos livros, sempre é apresentada como difícil de gostar. Não que Yennefer seja um amor de pessoa na série, ela continua sendo uma pessoa difícil, mas com a mudança na ordem da história, é muito mais fácil entender a personagem e gostar dela. Porém, o que pareceu ser sua maior motivação na série me parece um motivo mal explicado e, honestamente, clichê para mover a personagem. Um personagem que se beneficia da adaptação é Jaskier (Joey Batey), que é carismático nos jogos, péssimo nos livros e na série consegue apresentar algo legal e engraçado, até fazendo o público entender melhor Geralt do que o próprio arco do protagonista.

Com Geralt, a caracterização fiel talvez tenha mais atrapalhado do que ajudado. Isso porque nos livros Geralt é, em vários momentos, um protagonista não muito interessante. O que acontece ao redor dele chama mais atenção do que ele mesmo, os seus pensamentos e o arco do personagem. Ao deixar o Geralt muito parecido com o que ele é no material original, o protagonista parece só reagir ao que acontece ao seu redor. O último episódio da série dá alguma complexidade para o personagem, mas ainda assim não acho que seja o suficiente para ele ser um protagonista que interesse o público o suficiente.

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As lutas são ótimas, a trilha sonora funciona e eu vou ficar com Toss a Coin to your Witcher na cabeça por muito tempo. As atuações também são boas, apesar de um ou outro diálogo que me pareceram estranhos. O mundo é vasto e interessante, mas nem sempre acredito que ele seja bem explicado. Há momentos em que eu acredito que não conhecer o material original atrapalhe o entendimento para um público novo. Por exemplo, é complicado entender qual é o posicionamento político dos feiticeiros quanto às inúmeras guerras que estão acontecendo no continente, e qual a função deles no universo de maneira geral. No final isso melhora, mas para uma série que se propõe a ter uma parte política forte, faltou algum cuidado em apresentar melhor o mundo e suas forças principais. Eu entendo que, do ponto de vista de Geralt, isso passe um pouco batido e realmente não seja o foco, mas havia os núcleos de Ciri e Yennefer que podiam trabalhar mais essa questão.

Eu gosto de como alguns pontos narrativos foram divididos. Acho bom que Geralt, Yennefer e Ciri passem mais tempo separados do que juntos, porque dá a chance de conhecermos os personagens melhor e suas questões pessoais serem trabalhadas. A parte de Ciri, especificamente, me pareceram mais arrastadas, como se faltasse material. A questão das linhas do tempo dos núcleos também ficaram confusas. Eu já sabia que a parte de Ciri acontecia no futuro, por conta de sua idade e de saber a ordem que as coisas acontecem nos livros e nos jogos, mas na série em si faltou uma localização melhor. É possível de entender sim, eventualmente, que as histórias de Geralt e Yennefer começam muito antes de onde vemos Ciri, mas é mais demorado do que seria o ideal para o publico se situar.

É interessante a forma narrativa do “monstro da semana” que começa a série, algo muito característico dos livros. Acho que ajuda a situar o público melhor no que é o mundo de The Witcher, ainda mais considerando que em outros pontos a série se perde nesse aspecto. Apesar de eu não achar o roteiro de todo muito consistente, eu tenho vontade sim do que vai acontecer depois do último episódio da série, o que com certeza é um ponto positivo.

Por mais que a série consiga entrelaçar certos arcos, amarrar as pontas dos episódios e apresentar uma história divertida, The Witcher tem uma narrativa às vezes confusa e que ainda não consegue lidar bem com seus temas. Há resoluções e momentos que parecem se resolverem de maneiras aleatórias e fáceis, que contrastam muito do mundo cruel que a história quer me apresentar. Em especial, o primeiro arco em que Yennefer e Geralt se encontram é bem confuso, o que não é bom porque é um dos mais importantes. Sim, eu sei que todo o arco do gênio é para ser aberto e duvidoso, mas na série ele consegue ser ainda mais perdido. O episódio quatro também parece ter um dos roteiros mais confusos dessa primeira temporada.

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Eu sempre falo, desde os jogos, sobre como a história quer muito apresentar um mundo cachorro, em que todo mundo sofre, mas que o discurso é diferente do que vemos em tela. Não adianta botar na boca dos personagens que o mundo é cruel e que todos sofrem iguais, de uma maneira neutra, se os que se ferram mais de verdade fazem parte de alguma minoria. A maioria dos monstros “masculinos” têm histórias e arcos de “redenção”, mostrando que não são “tão monstros assim”, mas os monstros “femininos” encontram a morte ou, quando se safam, ainda possuem uma representação monstruosa. A série tenta muito ter um discurso neutro, o que em si já pode ser perigoso, mas falha em como trata isso fora do discurso falado. Todos são malvados, porque o “mal menor não existe, é tudo mal”, mas o homem branco vai ter a chance de manipular alguém no futuro enquanto a mulher, abusada e considerada monstro, vai encontrar um fim terrível. Mundo cachorro para quem? Isso também fica bem óbvio quando entendemos o lugar dos elfos nesse mundo.

Apesar de eu ainda ter muitas questões com a representação das feiticeiras, percebi sim que a série cortou certas coisas problemáticas que o livro trazia, inclusive alguns discursos absurdos que, mesmo fazendo parte de arcos adaptados, ficaram de fora. Mas ainda assim, a única nudez que vemos são seios de mulheres, mas nem um momento de nudez do Henry Cavill, por exemplo, nem com a tão famosa cena da banheira. Sim, Calanthe é uma rainha no poder, que luta e chuta bundas. Do trio principal, temos duas mulheres e um homem, o que acabam sendo melhoras, mas isso por si só não adianta quando ainda temos outros pontos, narrativos e de sexualização, que não precisavam estar ali.

Porém, em geral, mesmo com Yennefer ficando nua desnecessariamente para fazer suas magias (sem nenhuma razão especial), e toda a questão dela com a aparência física, de todas as versões que vi de The Witcher, a série é que trata as mulheres menos mal (o que não considero um elogio, mas é alguma coisa, quem sabe em uma próxima temporada não fique melhor?). Elas ainda caem em vários estereótipos e tem fins mais cruéis, mas ao menos eu entendo algumas delas melhores do que no livro, por exemplo. Há sim alguns personagens negros que aparecem, mas ainda é uma série branca demais.

The Witcher é uma série de fantasia com todos os seus tropos clássicos, para o bem e para o mal. Por isso, ao meu ver, por mais que tenha me divertido e com certeza vai divertir outros fãs do gênero, me parece como mais uma história de fantasia medieval, uma como tantas outras que já consumi, o que pode torná-la até esquecível em certos pontos. Eu não acredito que é completamente necessário ler os livros e jogar os jogos antes de assistir (até porque a história do jogo 1 e 2 é muito diferente do livro/série) para entender a versão da Netflix, mas acredito sim que ajude, o que também conta como uma falha. É uma adaptação fiel, que não traz nada de novo, não vai engajar muito, mas vai divertir, ainda mais quem gostar desse tipo de fantasia. The Witcher cumpre o que propõe na maioria das vezes, mas poderia ser melhor. Com a segunda temporada confirmada, quem sabe não melhore mesmo, né?

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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