Este texto contém spoilers do final do filme O Poço.

Esta semana, postamos uma crítica aqui no site do novo filme no catálogo da Netflix, O Poço. Como comentei antes, é uma história que deixa algumas pontas abertas e o final fica aberto para interpretações. Por conta disso, resolvi aqui listar algumas teorias do que pode ter acontecido no filme e as mensagens por trás da história. Caso você ainda não tenha assistido, eu recomendo muito que você veja antes de continuar lendo esse texto.

O Poço é um filme que, como eu disse no outro texto, nem sempre é sutil em suas metáforas, o que não é um problema. Porém, o final deixa muitas perguntas para o público sobre o que realmente está acontecendo naquela prisão. A criança existe ou não? O plano de Goreng e Baharat deu certo? O que é aquele lugar embaixo da prisão? Então vamos avaliar algumas alternativas:

Final otimista

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Dei esse nome para essa interpretação porque é onde as coisas dão “certo” no final, ou pelo menos o máximo que dá depois de tudo o que aconteceu. Depois do plano de Goreng e Baharat de distribuir comida para todos os níveis abaixo do 50, mesmo quase mortos, eles encontram uma garota que, ao que tudo indica, é a tal filha que Miharu está procurando. Nessa interpretação, Miharu não estava mentindo, ela apenas usava a plataforma todos os meses para procurar a filha e alimentá-la. O que significa que o Poço é uma prisão mais cruel do que Imoguiri imaginou, já que não só há mais de 250 níveis (esse era o número de andares que ela acreditava que existiam), mas também é um lugar que pode ter crianças (ela achava que só entravam maiores de 16 anos).

O fato de Imoguiri não saber desses andares mais baixos (333 no total) também explicaria por que a cela não muda de temperatura caso eles guardem comida. É um lugar tão esquecido e que ninguém sobrevive, portanto a administração nem se importa em ver o que está acontecendo. Talvez esses andares mais baixos sejam até vistos como uma forma de “diminuir a população carcerária” do Poço.

Mas por que então esse é o final otimista? Porque aqui a filha de Miharu é enviada na plataforma para o andar 0, onde estão os administradores da prisão. Nesse cenário, a menina é capaz de falar o que acontece lá embaixo, que as pessoas em geral parecem não saber, ou pelo menos evitam saber. E em um cenário otimista, essa mensagem chega no ouvido das pessoas pela criança, fazendo com que todo o esforço de Goreng não tenha sido em vão. Aqui também poderíamos assumir que o Poço é uma espécie de experimento social, como Imoguiri acaba sugerindo em certo momento. Até onde as pessoas vão para conseguir o que querem (no caso de Goreng, um diploma, no de Trimagasi, não ficar em um hospital psiquiátrico)? Isso vale tanto a ponto de passar por cima de outras pessoas? É um experimento para evidenciar os problemas de um sistema capitalista?

Acho que mesmo sendo um final otimista, a gente pode assumir que Goreng está morto. No máximo, ele chegou em uma área da prisão esquecida e vai ser resgatado em algum momento, mas acho que isso é um pouco otimista demais para o tom do filme.

Final pessimista

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Ao contrário do final otimista, neste a realidade não é tanto aquela que vemos no final do filme. Em tese, Goreng teria sido gravemente ferido antes do andar 250 e tudo que ele vivenciou a partir daí seria um delírio antes de morrer. Portanto, assim como Imoguiri tinha dito, a prisão realmente só vai até o andar 250, não tendo nada além disso. Ela também estaria certa sobre Miharu não ter um filho. Ele e Baharat não sobreviveram aos ataques dos vários andares.

Portanto, além dos andares a mais que supostamente não existem, a criança também é apenas uma ilusão. Ela é uma vontade de Goreng de que exista uma esperança, de que o futuro seja melhor, representado em uma criança. Essa interpretação faz até mais sentido quando nos atentamos ao fato de que o objeto que Goreng leva para dentro da prisão é um livro de Don Quixote, um personagem clássico que costumava confundir o que era real com a fantasia.

Outra coisa que fortalece essa teoria é uma cena no meio do filme, em que o chefe da cozinha da prisão está brigando com os funcionários porque há algo de errado em uma panacota. Essa era a sobremesa que Goreng e Baharat resolveram manter segura, assim ela voltaria pela plataforma e a administração do local veria que tinha algo de errado, afinal de contas sobrou alguma coisa quando geralmente não sobra nada. A panacota seria um símbolo da mensagem que Goreng gostaria de passar.

Porém, nesse cenário, a administração não entende a mensagem, achando que ninguém comeu a panacota porque eles fizeram algo errado, não porque os prisioneiros queriam mostrar que havia um problema no Poço.

Final metafísico

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Como O Poço é um filme com muitas metáforas e simbolismos, também é possível acreditar que o Poço não é uma prisão real, mas sim uma espécie de purgatório, para onde as almas que “pecaram”, mas não tiveram a intenção, foram para passar um tempo antes de finalmente “descansarem”. Pensando por esse lado, de repente Goreng se matou “sem intenção”, já que vimos que ele era viciado em cigarro e ficar no Poço era uma maneira de se livrar de seu vício, de acordo com ele (eu não estou fazendo um juízo de valor aqui, as pessoas são livres para fumarem se quiserem, mas há algumas pessoas que acreditam que isso é uma forma de ir fazendo mal a si mesmo e cigarro pode sim causar várias condições médicas que podem levar a morte, como o câncer). Trimagasi teria ido para o purgatório porque matou alguém, mas por acidente. Imoguiri foi para lá porque estava fazendo parte de um sistema corrupto que fazia pessoas sofrerem, mas sem saber completamente do que se tratava… De acordo com o que fizeram na vida, precisam passar um tempo específico no Poço (1 ano para Trimagasi, 6 meses para Goreng, etc…)

Pensando assim, também podemos considerar que o fundo do Poço onde Goreng chega é o “inferno”, por conta das pessoas que ele matou lá dentro, e a criança subindo “ao paraíso” representaria que, por conta desses esforços de uma geração mais velha, uma mais nova pode se dar melhor daqui para frente.

Os números no filme também são bem sugestivos para uma interpretação metafísica. São 333 andares, que dentro da simbologia cristã remete a algumas coisas. Primeiro, há quem diga que 333 são os números de anjos fazendo o trabalho do Deus cristão. Além disso, remete à santíssima trindade (Pai, Filho, Espírito Santo).

Nesse sentido, também dá para lembrar que, em cada andar, há dois prisioneiros, o que significa que há 666 pessoas ali (pelo menos no começo do mês, quando as pessoas ainda não se mataram ou tentaram suicídio). Como muita gente sabe, 666 é considerado o “número da besta”.

Novo testamento: “E faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na mão direita ou na testa, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aqueles que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome. Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, porque é número de homem; e seu número é seiscentos e sessenta e seis.”

 

É claro que podemos criar várias outras leituras e interpretações, isso é uma das coisas que torna O Poço tão interessante e rico, uma história que abre tantas possibilidades de mensagens. E você pode discordar ou concordar com todas, por que não?

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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