A resposta curta é: Sim, vale a pena mergulhar no mundo de Baldur’s Gate, mesmo tantos anos depois dos lançamentos do primeiro e do segundo jogo. Há muitos aspectos datados na franquia Baldur’s Gate, tanto pensando no sistema D&D, quanto em mecânica de jogo eletrônico, ou até em como a história é contada.

Mas, com o anuncio do lançamento de Baldur’s Gate 3, que terá acesso antecipado em agosto deste ano, é normal que muitas pessoas considerem jogar os outros jogos da franquia para entenderem melhor o universo do novo título. Esse foi o meu caso. Depois de muitas pessoas me indicando o jogo, e com toda a conversa sobre Baldur’s Gate 3, eu resolvi dar uma chance para a franquia.

É importante lembrar de algumas coisas antes de mergulhar no mundo de Baldur’s Gate, por mais que algumas pareçam óbvias. Primeiro é que, por ser um jogo mais antigo, nós vamos encontrar muitos clichês de fantasia medieval que hoje o público já se cansou um pouco. Por exemplo, o protagonista é órfão, acolhido por uma figura de um sábio e isso vai definir o resto de sua vida. Além disso, há vários clichês poucos inclusivos na história. Os poucos romances LGBTQ+ são personagens do alinhamento “mau”. Drows, ou elfos negros, continuam sendo a grande raça malvada (e falar da representação dos drows abre toda uma outra conversa), entre outros clichês que hoje nós falamos muito mais abertamente sobre (por mais que continuem acontecendo, como em franquias tipo The Witcher e Game of Thrones). Também vale lembrar que os gráficos são da época, assim como o combate e outras mecânicas.

Porém, tendo tudo isso em mente, eu acredito que há vários elementos que tornam jogar Baldur’s Gate uma experiência que vale a pena para muitas pessoas, ainda mais se elas pretendem dar uma chance para o novo título da franquia. Dito isso, vamos listar alguns desses elementos.

O texto não terá grandes spoilers da franquia e os jogos estão disponíveis na Steam.

Nostalgia fantástica

Baldur's Gate Enhanced Edition adiado

Apesar de ter apontado antes como Baldur’s Gate se apoia em alguns clichês de fantasia medieval, o que em si é algo que pode ser cansativo (e mal utilizado), há algumas coisas que vão dar uma sensação nostálgica para os fãs do gênero. Por motivos óbvios, jogar os primeiros Baldur’s Gate traz aquela sensação de aventuras épicas de Dungeons and Dragons, seja por conta do teor da aventura, como também pela existência dos membros da sua equipe.

O primeiro Baldur’s Gate, em especial, tem uma história bem linear e previsível em vários momentos, mas esses clichês são mais fáceis de identificar porque hoje, em 2020, nós já vimos esses tropos fantásticos inúmeras vezes. Não é original, mas o jogo é divertido o suficiente que o jogador fica entretido com esses aspectos, ao invés de ficar entediado. Pode não ser novo, mas é divertido enfrentar inimigos e dragões até ser reconhecido como um herói, só para depois descobrir que existe um segredo sombrio sobre a sua origem.

Levando em consideração que estamos falando de um RPG, Baldur’s Gate dá algumas alternativas de como a história pode ser resolvida. Por mais que muitas pessoas não gostem de alinhamentos, o fato deles existirem na franquia fazem com que a rejogabilidade se torne mais atrativa. Eu, por exemplo, joguei com um personagem Caótico Bom e eu tenho vontade de tentar de novo em um alinhamento Mau. Isso porque, além de conhecer outras rotas, eu vou ter mais acesso a personagens desse alinhamento, que antes sairiam da minha equipe porque eu sou “muito boazinha”.

Dificuldades para todos os gostos

Larian to reveal more about Baldur's Gate 3 on June 6

Todo o viciado em joguinhos tem suas preferências sobre as dificuldades de um jogo. Alguns acham que quando mais difícil e desafiador, melhor, enquanto outros (e eu me incluo nessa) querem jogar sem ter que se preocupar com combate, dando mais valor para outros aspectos de jogos. E sim, algumas pessoas podem dizer que, se não gostamos de dificuldade, devemos jogar outras coisas que não envolvam combate. Mas veja, Baldur’s Gate, assim como muitos outros jogos, não tem apenas o combate para oferecer (mesmo que essa seja uma grande parte da diversão oferecida). Alguns só querem aproveitar a história e conhecer os personagens, e tudo bem.

Por isso é muito bom que Baldur’s Gate tenha opções para agradar inúmeros tipos de jogadores. Há modos em que a dificuldade do jogo é bem desafiadora, para os fãs de combate tático, e também há a opção de modo história, caso você só queira saber o que acontece sem sofrer muito com os inimigos. E isso é ótimo, até porque, pensando que são jogos antigos, nem todo jogador vai se acostumar com os controles e mecânicas do começo da franquia, mesmo que jogue Baldur’s Gate 3 em um modo mais difícil.

Construção do universo

BALDUR'S GATE III é anunciado - Após 19 anos a franquia está de volta! –  Tramamos

Eu sei que esse tópico não é só acerto de Baldur’s Gate em si, já que é um jogo do universo de Dungeons and Dragons, mas entrar na franquia ajuda muito fãs de D&D, que não estão tão acostumados com o lore dos livros de RPG, a ter uma ideia de como aquele universo funciona. Eu acho que em certos momentos Baldur’s Gate não lida da melhor forma com todos os seus elementos, principalmente no primeiro jogo (mas que melhora bastante em Siege of Dragonspear), mas esse é o tipo de experiência que faz o jogador mergulhar no universo.

Construção de universo é algo particularmente difícil de fazer, mas que em certos gêneros da ficção, incluindo fantasia medieval, é um dos fatores que mais fazem a experiência ser memorável. Não é impossível cruzar com uma história que não é das melhores, mas que fica na mente do público por conta da construção de universo que conseguiu acertar na sua atmosfera.

E Baldur’s Gate consegue construir esse mundo. Quanto mais jogamos a franquia, mais conhecemos o que é aquele universo, as dinâmicas entre raças e personagens, o impacto que os deuses têm nas vidas dos mortais e como o passado do protagonista é algo que o faz se destacar tanto naquela situação. O que nos faz pensar sobre…

A jornada dos personagens

Baldur s Gate 3 ganha diversas informações novas

Se tem algo que consegue prender a atenção do jogador, são os personagens apresentados na história. Um jogo com personagens fracos ainda pode ser divertido? Sim, mas bons personagens tornam a experiência muito melhor. Eu não acho que todos os personagens de Baldur’s Gate sejam excepcionais ou marcantes, mas há algumas construções que valem a pena. Imoen, por exemplo, uma personagem que aparece em toda a franquia, tem uma jornada muito sofrida, mas que ao mesmo tempo faz muito sentido e pode ser muito recompensadora dependendo das opções do protagonista.

Os personagens adicionados no Enhanced Edition, que tem uma escrita mais nova, também ajudam muito na interação com o universo. Tanto Rasaad, quanto Neera e Dorn, são personagens que adicionam bem mais, principalmente nos primeiros jogos. Há também personagens originais que avançam muito, e são muito divertidos ao longo da franquia, como Jaheira e Minsc (e Boo, não podemos esquecer do Boo). No Baldur’s Gate 2, que mais personagens ganham missões específicas para seus arcos, isso fica ainda mais evidente. Nalia, que só aparece em Baldur’s Gate 2, é um desses exemplos.

Por mais que a definição de bem e mal seja bem preto no branco no primeiro jogo, o que é algo até esperando dentro da fantasia medieval, a expansão Siege of Dragonspear e Baldur’s Gate 2 apresentam antagonistas mais complexos e interessantes de acompanhar. Caelar é uma vilã que adiciona aspectos novos na história, e a personagem M’Khiin, que só aparece na expansão, é uma das melhores personagens da franquia e explora as visões que as pessoas têm de goblins no jogo.

Jornada do herói

Baldur's Gate Designer Introduces New Dungeons & Dragons Adventure Set  Between Games

Como já mencionado antes, Baldur’s Gate têm vários clichês de fantasia medieval. A construção de um herói que veio do nada, mas na verdade era um escolhido sem saber, sozinho no mundo, que arrumou uma família de amigos e destruiu o mal é algo que nós já conhecemos bem. O primeiro Baldur’s Gate não vai muito além disso, por mais divertido que seja.

Porém, Baldur’s Gate 2 leva toda essa questão do escolhido para o outro lado. Inclusive, é um jogo mais sombrio que o primeiro. Não, você talvez não seja sempre o herói, talvez o que te separe dos seus inimigos seja muito pouco, talvez o que você achava que era certo e bom não é o que você acha. Há toda uma parte do segundo jogo que mostra uma jornada interna, uma busca do protagonista se entender e o que ele representa para as pessoas ao seu redor. É um aspecto narrativo que, em alguns pontos, me lembra a jornada da heroína, um tipo de narrativa que junta muito mais a busca interior com a exterior.

Onde Baldur’s Gate 1 era muito mais preto no branco, Baldur’s Gate 2 começa a mostrar que existe todo um caminho cinza naquele universo fantástico, e nem tudo vai ser ótimo só porque em algum momento você foi visto como herói, mesmo que a sua intenção tenha sido das melhores. Ver esse tipo de subtexto em um jogo de tantos anos é bem interessante e me dá esperanças de que o próximo jogo vai ousar ainda mais nesse aspecto. Assim, o segundo jogo com certeza ainda tem clichês e toda a parte dos drows, por mais divertida que seja, me faz revirar os olhos com “a raça de elfos negros matriarcal que são os mais malvados”, então com certeza há muitas melhoras que Baldur’s Gate 3 pode trazer nesse aspecto.

 

Então, concluindo a resposta simples que dei no começo, se você gosta de RPG, D&D e fantasia medieval, Baldur’s Gate é uma ótima aposta de jogo, e um aquecimento para aqueles que estão curiosos para o que está vindo no Baldur’s Gate 3.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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